Parece que quanto mais a Disney mexe com o clássico O Rei Leão, a magia diminui. O filme original de 1994 é um dos longas animados mais queridos do público em todos os tempos e em 2019 a Disney lançou um remake “live-action” – se é que o termo se aplica aqui – que trocou a animação tradicional por computação gráfica foto-realista. O resultado foi uma obra que rendeu muita grana e isso é o que importa para os executivos de estúdio e acionistas. Mas em nome da honestidade, eu nem cheguei a ver essa nova versão. O trailer já me desanimou.

E para ser totalmente honesto, leitor, não estou colocando o filme dos anos 1990 no altar da nostalgia: não cresci com O Rei Leão e só fui vê-lo pela primeira vez há não muito tempo, já adulto. O filme animado tem um charme e a animação primorosa continua impressionando, mais até do que a história propriamente dita. O trailer da nova versão me pareceu simplesmente bizarro e não me despertou vontade de assistí-lo.

Mas assisti a este novo Mufasa: O Rei Leão, prequel do filme de 2019. Dirigido por Barry Jenkins, de Moonlight (2016), esta nova produção conta a origem de Mufasa, pai do Simba.  A história é contada em flashbacks pelo babuíno Rafiki à filha de Simba, a pequena Kiara. Vemos a jornada do órfão perdido resgatado pelo jovem Taka, que se torna seu irmão adotivo. Eternamente tido como um desgarrado, Mufasa embarca na jornada que o levará ao seu destino quando um grupo de leões albinos rivais ameaça invadir o território da família adotiva.

Uma coisa precisa ser dita deste novo filme: os leões são muito fofinhos, especialmente os filhotes. Já o filme é sem vida e sem alma. A história é altamente dramática, shakespeariana mesmo, mas os personagens não conseguem transmitir essa emoção. Mufasa e Taka são figuras inexpressivas, que não conseguem carregar o peso emocional da história nos ombros. O “realismo” atua contra a história e a sua magia.

Para alguns espectadores, talvez essas imagens realistas e o assombro técnico e sonoro bastem. Porém, num mundo pós Avatar (2009) e filmes de super-heróis, que nos mostraram paisagens incríveis e imagens assombrosas feitas no computador, a selva de O Rei Leão em CGI impressiona menos. O que faz falta nessa narrativa é um pouco da cor, do surrealismo, das pitadas de criatividade e, porque não, maluquices que havia no filme animado de 1994. Isso é o que faria a diferença aqui.

Tudo no roteiro deste Mufasa acontece porque tem que acontecer, são fatos já esperados em uma tradicional prequel abordando uma história da qual já conhecemos o final: Taka já começa a gostar de Mufasa assim que o conhece sem que o protagonista tenha feito nada para conquistar esse sentimento; os números musicais parecem apenas bater ponto com canções no máximo esquecíveis; e as viradas dramáticas são totalmente previsíveis.

Não à toa, o filme ganha um pouco de vida quando entram em cena personagens um pouco mais caricatos, menos realistas, como Rafiki e Zazu. Eles, pelo menos, são expressivos e acabam rendendo alguns dos melhores momentos do longa. Já Timão e Pumba, aqui, são apenas irritantes, interrompendo o fluxo da narrativa principal com suas intervenções.

E não ajuda também o fato de os protagonistas parecerem sempre seguros: além de já sabermos para onde a trama vai, não há ameaça real nas cenas de luta ou perseguições. Temos uma câmera que não para de se mexer, com liberdade total, mas que parece não saber para onde ir. A delicadeza que se notou nos outros filmes de Jenkins – incluindo aí Se a Rua Beale Falasse (2018) – não encontra espaço aqui, e a artificialidade de um grande plano aéreo sobre a selva tem a intensidade de alguém apontando o cursor de um mouse para o canto da tela.

Há momentos inspirados aqui e ali, no entanto. Instantes ambientados debaixo d´água, onde os personagens parecem ficar livres das restrições físicas, geram algumas cenas de arroubo visual. E há, pelo menos, uma boa referência a um momento dramático clássico de O Rei Leão, com um dos personagens pendurado pelas patas: um dos poucos momentos em que esta prequel realmente contribui narrativamente para a história que já vimos antes.

Mufasa até arranca uns sorrisos aqui e ali, mas, na maior parte do tempo, é apenas aborrecido e sem muita vontade para perseguir qualquer sinal de inovação. Já faz um tempo que parece haver uma obsessão no cinema por realismo, como se isso fosse inerentemente uma qualidade. Tanto cineastas quanto plateias parecem ter esquecido da força do irreal, de algo exuberante e surreal posto na tela e transmitido direto para a retina do espectador. 

O Rei Leão não ganhou ao ser transformado em um espetáculo de CGI: pelo contrário, começou a parecer só mais um produto da linha de montagem da Disney recente, um irmão dos filmes com Jedis e heróis Marvel. O longa acaba expondo um paradoxo do cinema recente: as imagens são altamente reais, mas acabam causando um efeito de artificialismo que retira espectadores da história. E assim, o ciclo da vida – e da indústria de cinema mainstream – continua…