Não existe história sem luta. Os direitos no Brasil foram adquiridos através de lutas e revoltas constantes, como o movimento abolicionista no século XIX, a Cabanagem (1835-1840), passando pelo movimento negro e estudantil entre a Era Vargas e a Ditadura, as questões indígenas e, mais recentemente com mais apoio midiático, o movimento LGBT+, citando alguns exemplos.
São movimentos em prol da mudança das estruturas sociais e políticas tão enraizadas no poder e na exclusão social. É o Brasil do “planeta fome”, como diria Elza Soares. Ou dessa terra que tem um único jeito de nascer, mas muitos de morrer, parafraseando Carolina Maria de Jesus. E nesses muitos há a morte em vida, da negligencia estatal e das mazelas sociais que Carolina acusava no final da década de 1950 do século XX que ainda está tão presente no dia a dia de centenas de famílias em 2026 do século XXI.
Eis que temos “Não Existe Almoço Grátis”, centralizada em três mulheres negras: Socorro, Jurailde e Bizza que, juntas, ajudaram a construir a Cozinha Solidária do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) na Sol Nascente, a maior favela do país, localizada em Brasília. O epicentro da politicagem.
Concentrado às vésperas do terceiro mandato do presidente Lula em 2023, o filme mostra a correria dessas mulheres para alimentar centenas de militantes que saíram das diversas partes do país para a posse do presidente depois de quatro anos nefastos e de muitas dores e incertezas, para dizer o mínimo.
Aliás, de dores e incertezas esse trio conhece bem. Cada uma com suas feridas particulares, porém, conscientes do seu corpo político (as vezes tardiamente) e do pensar coletivo, uma vez que falar é tão fácil quanto escrever estas linhas, e elas querem e precisam de ação. Agir pela comunidade, pelo bem coletivo e pela barriga cheia.
A dupla de diretores, Marcos Nepomuceno e Pedro Charbel, acertam em colocá-las no centro do protagonismo, não de maneira panfletaria, mas compreendendo o poder dessas mulheres negras, assumindo suas dores, suas necessidades, suas vontades e de uma grande política pública até então, pouco comentada como a cozinha. O olhar desses dois está totalmente nelas, mas também atentos ao redor, às mudanças sociais de uma esperança de um novo governo. É um acerto eles não apontarem na ferida de uma política excludente, pois a história em si e dessas três mulheres e o que elas representam já são a própria ferida inflamada que buscam estancar estas lesões por meio do que sabem fazer através do princípio básico: alimentação e moradia digna. Direitos humanos, no final das contas.
O contraponto entre chegar no dia do evento da posse com toda sua pompa e as horas antecedentes demarcam desigualdade, mas também um lugar de luta e comprometimento, aliado aos depoimentos particulares ou juntas de cada uma delas com suas diferenças e muitas similaridades.
Nepomuceno e Charbel trazem à tona uma história coletiva, representadas por Socorro, Bizza e Jurailde, mas que poderia ser de Carolina Maria de Jesus, de Marias Felipas, de Terezas de Benguelas, na luta pela dignidade da população negra, da sua dignidade particular, e da dignidade e dos direitos básicos dos periféricos e marginalizados excluídos, descentralizados das áreas centrais – não à toa Sol Nascente fica a 37 km de distância do Palácio do Planalto.
“Não Existe Almoço Grátis” é uma obra fundamental que fala do Brasil de ontem e de hoje, pensando em movimentos coletivos para tentar mudar o amanhã. Estamos diante de um novo clássico contemporâneo.















