De “Primetime” com Robert Pattinson ao badalado “Wild Horse Nine”, Caio Pimenta traz a lista dos candidatos ao Leão de Ouro do Festival de Veneza 2026.

INK, de DANNY BOYLE 

O Festival de Veneza será aberto por “Ink”, novo filme de Danny Boyle. 

Guy Pearce interpreta Rupert Murdoch, enquanto Jack O’Connell vive Larry Lamb, o editor contratado pelo magnata para transformar o The Sun em um dos tabloides mais poderosos do Reino Unido. Claire Foy completa o elenco principal. A história se passa em 1969 e acompanha justamente o nascimento dessa relação entre Murdoch e Lamb.  

O roteiro é de James Graham, baseado na própria peça teatral. E existe um elemento especialmente interessante aqui: Boyle nunca havia estreado um longa em Veneza. A Netflix adquiriu os direitos para Estados Unidos e América Latina, o que também coloca o filme desde já no radar da temporada de premiações. 

É uma combinação muito forte de Danny Boyle, elenco importante, história real e um tema extremamente contemporâneo: o poder da imprensa na formação da opinião pública. Considero muito na briga pelo Leão de Ouro. 

A CÂMARA DE ECO, de ANDREA PALLAORO 

Andrea Pallaoro é um cineasta que trabalha em um ritmo bastante particular. Seus longas costumam levar de quatro a cinco anos para chegar às telas. Desta vez, ele lança “A Câmara de Eco”, estrelado por Alicia Vikander, Luca Marinelli e Susan Sarandon. 

O filme acompanha Leo e Anne em uma relação na qual amor, desejo, dependência e controle começam a se confundir. Os dois não conseguem se afastar, mas também não conseguem realmente permanecer juntos. 

A produção tem um elemento bastante especial: a história parte de uma última versão de um roteiro de Bernardo Bertolucci, desenvolvido posteriormente por Ilaria Bernardini e Ludovica Rampoldi. 

Pallaoro já esteve no festival com Hannah e Monica, então não chega ao festival como um desconhecido. A questão é se ele vai além ou fica esquecido no meio do caminho. 

UM BOM SOLDADINHO, de STÉPHANE BRIZÉ 

Elogiado diretor francês de filmes como O Valor de um Homem e A Vida de uma Mulher, Stéphane Brizé retorna a Veneza com Um Bom Soldadinho. 

Alba Rohrwacher interpreta Carla, uma executiva de alto desempenho contratada para assumir a área de recursos humanos de uma grande empresa. O problema surge quando ela descobre uma situação de gestão tóxica e percebe que precisa escolher entre proteger os trabalhadores ou seguir as exigências de desempenho da companhia. Vincent Lindon também está no elenco.  

É o terceiro longa consecutivo de Brizé selecionado para Veneza. E o tema é muito próximo daquilo que ele já fez tão bem: trabalho, relações de poder, exploração e indivíduos esmagados por estruturas econômicas. 

UM POUCO ANTES DA MEIA-NOITE, de NICOLAS PARISER

Nicolas Pariser fará sua estreia na competição de Veneza com “Um Pouco Antes da Meia-Noite”. 

Melvil Poupaud interpreta Léo, um homem de 49 anos que descobre a morte do pai biológico que nunca conheceu. Antes de viajar à Itália para lidar com a herança, ele decide passar alguns dias em Paris, cidade onde viveu no passado.  

É um dos títulos menos badalados da competição antes do festival, mas pode justamente funcionar como aquela produção que cresce depois da primeira exibição.

AMOR POSSÍVEL, de LEE CHANG-DONG

Agora chegamos a um dos filmes mais aguardados de toda a competição. 

Lee Chang-dong está de volta a Veneza depois de 24 anos. 

O diretor de Poesia e Em Chamas apresenta Amor Possível, seu primeiro longa desde 2018. A história acompanha dois casais que levam vidas completamente diferentes e que acabam tendo seus caminhos cruzados. A partir desse encontro, segredos, frustrações e desejos reprimidos começam a aparecer. Jeon Do-yeon, Sul Kyung-gu, Zo In-sung e Cho Yeo-jeong formam o elenco principal. 

Amor Possível já foi escolhido pela Coreia do Sul como representante na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Internacional. Também estará no Festival de Toronto.  

Vale lembrar que Lee Chang-dong já conhece muito bem a sensação de sair de Veneza com um prêmio: em 2002, Oasis ganhou o Leão de Prata de Melhor Direção, além do prêmio FIPRESCI. 

Amor Possível precisa estar muito próximo do topo da lista. É também um dos filmes que já chega com uma trajetória internacional muito bem desenhada: Veneza, Toronto, outros festivais e, quem sabe, a corrida pelo Oscar. 

COMPANY, de CASEY AFFLECK 

Casey Affleck volta à direção com “Company”, seu terceiro longa como cineasta e o primeiro desde 2019. 

O filme é descrito como um suspense gótico ambientado em uma noite de inverno de 1975. Uma mulher misteriosa chamada Evelyn aparece sem ser convidada em uma reunião e começa a contar histórias que atravessam diferentes gerações. Essas narrativas envolvem um casal de agricultores, um jovem andarilho e uma série de assassinatos brutais. 

Nick Nolte e Ben Mendelsohn estão entre os nomes do elenco. Chama a atenção que em uma edição de Veneza marcada por apenas um filme dirigido por mulher na disputa do Leão de Ouro tenhamos o Casey Affleck selecionado após todas as acusações que sofreu. 

Em um júri com uma presidente mulher, me parece improvável que possa sair vencedor. 

NELSON-SAN, VOCÊ MATOU PESSOAS?, de SHIN’YA TSUKAMOTO 

Novo filme do diretor japonês Shinya Tsukamoto, “Nelson-san, você matou pessoas?” traz a história do personagem-título, um rapaz de Nova York que entra na Marinha dos EUA aos 18 anos e embarca para a guerra do Vietnã. Ao retornar profundamente traumatizado, ele se torna um ativista antiguerra.  

Rodney Hicks interpreta Nelson, enquanto Geoffrey Rush também está no elenco. O próprio Tsukamoto escreve, dirige, fotografa e monta o filme.  

“Nelson-san” pode ser uma forma de homenagear uma gigantes do cinema com décadas de experiência e serviços prestados para o cinema, além de passar uma mensagem pacifista em tempos tão bélicos como os atuais.  

Por outro lado, a ideia de voltar à guerra do Vietnã, temas de infindáveis filmes, soa cansativa demais com risco de ser um mais do mesmo, independente das ótimas intenções. Admito que não boto muita fé nele. 

PRIMETIME, de LANCE OPPENHEIM 

Robert Pattinson é um dos atores que mais despertam expectativa nesta temporada e ele chega a Veneza com “Primetime”, de Lance Oppenheim. 

Baseado em uma história real, o filme acompanha o jornalista Chris Hansen em 2006, quando ele tenta criar um programa que transforme a exposição de criminosos em um fenômeno televisivo. A produção aborda a criação de To Catch a Predator, programa que se tornou um hit da televisão americana.  

A recepção em Veneza irá definir os rumos de Primetime na escala de prioridades da A24 na temporada de premiações. Afinal, o estúdio já conta com O Convite, a cinebiografia elogiada de Anthony Bourdain e The Debut.  

Um Leão de Ouro o posicionaria muito forte para o Oscar, capaz, inclusive, de brigar por Melhor Filme e fortaleceria Robert Pattinson para tentar a vitória em Melhor Ator. 

A ESTRANHA, de PAOLO STRIPPOLI 

Paolo Strippoli chega à competição com A Estranha, seu quarto longa e sua primeira participação na disputa pelo Leão de Ouro. Jasmine Trinca interpreta Anna, uma mulher que aparece inesperadamente no apartamento da filha, Alice, durante uma tempestade. Ela revela que a história da família foi construída sobre uma mentira e que, anos antes, fez um pacto com um homem misterioso para salvar a perna da garota depois de um acidente. 

A Estranha marca a primeira presença do Strippoli na disputa pelo Leão de Ouro. O trailer traz um tom de suspense, todo estilizado e muito mistério. Veneza vem se mostrando um espaço mais pop que outros festivais europeus nos últimos anos, o que pode ajudar o filme. 

Por outro lado, a Itália não vence em Veneza desde 2013 com Sacro Gra. O longa do Gianfranco Rosi, entretanto, era um documentário. Se trazer apenas para as ficções, a última conquista do país ocorreu em “Assim é que se ria” em 1998. A situação realmente não está das melhores para o cinema italiano. 

ACONTECERÁ ESTA NOITE, de NANNI MORETTI 

Acontecerá esta noite é outro candidato italiano. Este, porém, chega com mais hype, afinal, marca o retorno de Nanni Moretti a Veneza após 37 anos. Daquela vez, Palombella Rossa foi exibido na Semana da Crítica, logo, esta é a primeira vez que ele concorre ao Leão de Ouro. 

Estrelado por Louis Garrel e Jasmine Trinca, o longa acompanha personagens cujas vidas se cruzam durante uma noite, formando um mosaico de relações, solidão, desejos não expressos e busca por pertencimento. 

Moretti tem uma larga parceria com Cannes, mas Acontecerá esta Noite não ficou pronto a tempo do evento francês. Muito disso em decorrência de um infarto que ele sofreu em 2025. Com isso, o processo de finalização foi um pouco mais lento. 

O marco deste reencontro e Moretti ser, ao lado de Paolo Sorrentino, um dos nomes mais populares do cinema italiano na atualidade, apresentando o filme em casa, pode contribuir para uma narrativa que o júri da Maggie Gyllenhaal não consiga escapar. Chega fortissímo para o Leão de Ouro. 

OLHAR PARA TRÁS, de HIROKAZU KORE-EDA 

Para fechar esta primeira parte, Hirokazu Kore-eda volta a Veneza com “Olhar para Trás”, adaptação live-action do mangá de Tatsuki Fujimoto. 

A história acompanha Fujino, uma estudante do ensino fundamental que acredita muito em seu talento para desenhar mangás, e Kyomoto, uma garota reclusa que não frequenta as aulas e passa o tempo desenhando. As duas desenvolvem uma amizade a partir da paixão pelo desenho e acompanham, durante 13 anos, caminhos marcados por criação, amizade, perda e amadurecimento. 

É a segunda adaptação do mangá para o cinema. A primeira aconteceu em 2024, em formato de animação com Look Back. O diretor de Assunto de Família e Monster tem uma habilidade muito particular para transformar relações aparentemente simples em histórias emocionalmente devastadoras. 

E Olhar para Trás ainda terá uma segunda parada importante: Toronto. Caminho forte mirando este período de festivais. Por outro lado, Koreeda decepcionou bastante em Cannes com Sheep in the Box, drama que não foi para lugar nenhum na França. 

Veneza irá mostrar se foi apenas um lapso ou se o diretor japonês ainda realmente em má fase. 

O VALE IMAGINÁRIO, de WERNER HERZOG 

Werner Herzog tem uma longa relação com o Festival de Veneza. Participou pela primeira vez da disputa pelo Leão de Ouro em 1991, conquistou o prêmio da crítica em 2005 e, no ano passado, recebeu um prêmio honorário do próprio festival.  Agora, retorna à competição com O Vale Imaginário. 

O filme acompanha duas irmãs gêmeas, interpretadas por Kate Mara e Rooney Mara. Elas possuem uma conexão tão profunda que compartilham a maneira de falar, os sonhos e até mesmo uma obsessão pelo mesmo homem. A história é baseada no caso real das irmãs Freda e Greta Chaplin e deve explorar uma relação marcada por obsessão, dependência e identidade. 

O Vale Imaginário chama atenção pelo nome de Herzog, mas tenho dúvidas sobre sua capacidade de avançar muito além de Veneza. Se vencer o Leão de Ouro, consigo imaginar um caminho parecido com o que aconteceu com Jim Jarmusch e Pai Mãe Filho Filha: uma grande vitória dentro do festival, mas sem necessariamente se transformar em um fenômeno da temporada de premiações. 

Até porque Herzog teve uma relação bastante limitada com o Oscar. Sua única indicação aconteceu em 2009, na categoria de Documentário, por Encontros no Fim do Mundo. 

15/18, de CÉDRIC KAHN 

Saindo de um dos veteranos da competição, vamos para o novo filme do francês Cédric Kahn. 

Em 15/18, o diretor acompanha a rotina de uma unidade francesa de psiquiatria para adolescentes. A história se concentra em um médico e sua equipe, responsáveis por manter o delicado equilíbrio daquele ambiente. 

Tudo muda quando Lucia, de 17 anos, é levada de volta pela polícia. A chegada de um novo paciente passa então a ameaçar a estabilidade de toda a enfermaria. 

Ainda que festivais como Veneza possam surpreender, 15/18 não parece ser um candidato forte para a vitória no Leão de Ouro. Chega correndo bem por fora até pela força dos outros competidores. 

WOMAN UNKNOWN, de MAY EL-TOUKHY 

Woman Unknown foi o único filme dirigido por mulher presente na lista inicial do Festival de Veneza 2026. A produção dinamarquesa é comandada por May el-Toukhy. É o primeiro filme dela desde o elogiado Rainha de Copas, lançado em 2019, e também sua primeira participação no Festival de Veneza. 

A trama acompanha Marie, uma ex-empregada doméstica que prepara um jantar extravagante para celebrar seu noivado com o patriarca de uma família. Mas, conforme os preparativos avançam, aspectos ocultos de seu passado começam a surgir e ameaçam destruir completamente a celebração. 

Considerando que o júri deste ano é presidido por Maggie Gyllenhaal, não descartaria completamente a possibilidade de o filme receber algum reconhecimento importante. Não necessariamente como uma resposta política à seleção, mas Veneza também é um espaço onde os prêmios podem funcionar como um posicionamento. 

DAU, de ILYA KHRZHANOVSKY 

Agora chegamos provavelmente ao filme mais ambicioso — e também mais polêmico — desta edição.  Estou falando de Dau, do diretor russo Ilya Khrzhanovsky. 

E antes mesmo de falar da história, basta olhar para alguns números para entender a dimensão do projeto: são 3h15 de duração, com material originalmente filmado entre 2008 e 2011 e novas gravações realizadas em 2024. 

A história se desenvolve principalmente dentro de um instituto de pesquisa soviético fechado, onde a hierarquia científica, os privilégios e a vigilância constante definem a existência diária de seus habitantes. A narrativa acompanha quatro décadas, entre 1928 e 1968, enquanto Dau tenta encontrar liberdade em meio a uma estrutura cada vez mais opressiva. 

Mas o filme chega a Veneza cercado por polêmicas. O governo ucraniano acusa o filme de ser uma propaganda do regime de Putin, além de questionamentos envolvendo o protagonista Teodor Currentzis e possíveis financiamentos ligados ao governo russo. Alberto Barbera, diretor artístico de Veneza, rebateu essas críticas afirmando justamente que o filme denuncia regimes totalitários e sua interferência na liberdade dos cidadãos. 

A grande questão é saber se Dau conseguirá escapar dessas polêmicas e será abraçado pela ousadia de seu projeto. 

IL FUOCO CHE TI PORTI DENTRO, de EDOARDO DE ANGELIS 

Il fuoco che ti porti dentro marca a segunda participação de Edoardo De Angelis na disputa pelo Leão de Ouro. A primeira aconteceu em 2023, com Comandante. 

O filme acompanha Antonio, que construiu uma vida de sucesso em Milão e passou anos afastado da mãe, Angela. Mas a chegada dela para o Natal transforma um jantar familiar em um verdadeiro campo de batalha emocional. Ressentimentos, mal-entendidos e conflitos acumulados ao longo dos anos começam a ressurgir, mudando completamente a relação entre mãe e filho. 

O detalhe mais interessante é que a personagem Angela, interpretada por Vanessa Scalera, foi inspirada na própria mãe do diretor. Pelo perfil da personagem, existe um enorme potencial para que ela entre forte na disputa pelo prêmio de Melhor Atriz em Veneza. 

BUNKER, de FLORIAN ZELLER 

Outro diretor que chega a Veneza tentando reafirmar sua força é Florian Zeller. Depois do enorme sucesso de Meu Pai, vencedor de dois Oscars, o cineasta teve uma recepção bem menos entusiasmada com Um Filho. 

Agora, com Bunker, ele tem uma oportunidade importante de mostrar que seu sucesso anterior não foi apenas um ponto fora da curva. 

O filme acompanha um arquiteto contratado para projetar um luxuoso bunker de sobrevivência para um bilionário do setor de tecnologia. O trabalho, porém, começa a gerar um conflito moral. 

Enquanto ele tenta enxergar o projeto apenas como uma oportunidade profissional, sua esposa passa a vê-lo como um reflexo de uma sociedade dominada pelo medo, pela desigualdade e pela insegurança em relação ao futuro. Depois de 17 anos de casamento, antigas frustrações e diferenças de valores vêm à tona. 

Javier Bardem e Penélope Cruz lideram o filme em um momento particularmente positivo para os dois. Ela vem prestigiada pela passagem em Cannes com A Bola Negra e pelo sucesso de O Convite, enquanto ele também recebeu muitos elogios em Cannes por El Ser Querido. Stephen Graham e Paul Dano completam o elenco. 

Bunker tem potencial para crescer muito em Veneza e avançar para a temporada de premiações. Mas a desconfiança em torno de Florian Zeller ainda existe. 

RETORNO A BUENOS AIRES, de MARCO BECHIS 

A competição deste ano também conta com uma participação brasileira através da coprodução Brasil-Itália. Retorno a Buenos Aires é dirigido por Marco Bechis, conhecido por trabalhos como Terra Vermelha e Garage Olimpo, e estrelado pelo ator italiano Adriano Giannini. 

Depois de 33 anos, o médico italiano Mariano Guerra precisa retornar à Argentina para testemunhar o julgamento dos ex-militares responsáveis por seu sequestro e tortura durante a ditadura. A história possui uma dimensão ainda mais pessoal porque o próprio Marco Bechis foi preso político durante a ditadura argentina. 

O lançamento acontece justamente quando o início da ditadura argentina completa 50 anos. 

Retorno a Buenos Aires corre por fora na competição. O tema é muito forte e possui uma dimensão política evidente. Mas recentemente vimos Ainda Estou Aqui ser reconhecido em Veneza pelo roteiro ao trabalhar uma memória igualmente traumática das ditaduras latino-americanas. 

A BIT OF LIGHT, de ALI ASGARI 

O iraniano Ali Asgari retorna a Veneza depois de ter apresentado três trabalhos na mostra Horizontes. Desta vez, ele chega à competição principal com “A Bit of Light”.

A história acompanha um médico iraniano que, depois de ser preso e perder o consultório, perde também a fé no futuro e decide acabar com a própria vida. Mas um último dia ao lado da família começa a colocar essa decisão em dúvida. 

É um argumento bastante duro, mas que parece seguir uma tradição importante do cinema iraniano: partir de uma situação cotidiana e transformar a experiência individual em comentário sobre a sociedade. Chega menos badalado, mas, pode surpreender. 

NAZA, de RACHEL SZOR E YUVAL ABRAHAM 

E chegamos a outro filme que certamente terá um enorme peso político dentro de Veneza. 

Naza foi incluído na competição depois do anúncio oficial da seleção e é dirigido por Rachel Szor e Yuval Abraham, a mesma dupla responsável pelo documentário vencedor do Oscar Sem Chão. 

Filmado à noite a partir dos telhados de Tel Aviv, o documentário investiga as vítimas civis das operações militares de Israel em Gaza e os sistemas por trás dos assassinatos seletivos de palestinos. 

É inevitável fazer uma comparação com A Voz de Hind Rajab, que teve uma repercussão gigantesca em Veneza no ano passado. O filme se transformou em um dos grandes acontecimentos daquela edição e muita gente considerou injusta sua derrota para Pai Mãe Filho Filha. 

Naza pode buscar uma repercussão semelhante. Mas existe também um desafio: até que ponto o júri estará disposto a premiar novamente uma obra que retorna à mesma tragédia? 

Além disso, o cenário geopolítico mudou e o conflito em Gaza passou a dividir atenção com outras crises internacionais. Mesmo assim, se sair premiado de Veneza, Naza certamente se credencia como um dos nomes fortes na disputa pelo Oscar de Melhor Documentário. 

WILD HORSE NINE, de MARTIN MCDONAGH 

Para fechar, talvez o filme com maior potencial de transformar Veneza em uma plataforma para a temporada do Oscar. 

Estou falando de Wild Horse Nine, novo longa de Martin McDonagh. 

O diretor de Na Mira do Chefe, Os Banshees de Inisherin e Três Anúncios para um Crime retorna agora com um projeto que reúne um elenco impressionante e uma história ambientada em um momento politicamente explosivo da América Latina. 

O filme acompanha dois agentes da CIA enviados para a Ilha de Páscoa em 1973, pouco depois do golpe de Pinochet no Chile. A dupla precisa lidar com conspirações recentes e fantasmas de seus próprios passados.  O elenco reúne Sam Rockwell, John Malkovich, Parker Posey, Steve Buscemi e Mariana di Girolamo. 

Dependendo da recepção em Veneza, Wild Horse Nine pode entrar imediatamente na corrida pelo Oscar de Melhor Filme.

Se vencer o Leão de Ouro ou sair do festival com críticas extremamente positivas, passa a ser um dos grandes nomes da temporada, ao lado de filmes como A Odisseia e A Bola Negra. 

Por outro lado, um fracasso em Veneza pode ser extremamente prejudicial. Já vimos filmes chegarem ao festival com enorme expectativa e praticamente desaparecerem da temporada depois de uma recepção decepcionante, como aconteceu com Maria, em 2024, e Casa de Dinamites, em 2025. 

Por isso, mais do que apenas um candidato ao Leão de Ouro, Wild Horse Nine pode ter em Veneza o momento decisivo de toda a sua campanha rumo ao Oscar.