Dois irmãos brasileiros moram na periferia de Barcelona, e após perderem o pai, decidem transformar o carro que receberam como única herança em um serviço ambulante de mensagens surpresa. O negócio é um sucesso. No entanto, surge uma senhora – obcecada com a ordem e o civismo – que ameaça denunciar os irmãos por delito de desordem pública e contamina parte dos vizinhos contra eles.
A premissa acima é o fio condutor de “Bairro Purpurina”, projeto ainda em desenvolvimento do cineasta Aldemar Matias, que foi um dos cinco selecionados para um laboratório de desenvolvimento da Netflix, além de ser apresentado no início do mês de março no Festival de Málaga. Em entrevista ao Cine Set, Aldemar contou sobre a criação da história, o andamento do processo e suas expectativas.
Cine Set – De onde surgiu a ideia de ‘Bairro Purpurina’? É baseada em algum acontecimento real?
Aldemar Matias – Esse filme é o resultado de 10 anos morando entre Manaus e Barcelona.
Uma vez, dando aula de roteiro em uma escola de Barcelona, comentei que iria exibir um documentário filmado em La Paz, e um adolescente boliviano gritou: “tenho nojo da Bolívia”. Entendi rapidamente que ele estava numa fase de auto rejeição e só queria não ser o “panchito” do grupo, como os colegas costumavam chamar, de forma pejorativa, os latinos.
Já na trama do filme, há quem ataque impetuosamente o projeto dos dois irmãos, quem lhes impõe um limite territorial, quem os acolha, quem instrumentalize sua dor com paternalismo e quem organize uma assembleia pra decidir se eles podem ou não continuar o negócio no bairro, mas lhes negue o direito de opinar; tal como acontece quando a migração se torna o tema fetiche dos debates políticos, enquanto grande parte da população estrangeira não tem direito ao voto nas eleições.
O filme questiona a ideia de integração e de assimilação em um país alheio: aquela que te acolhe, mas te pede sutilmente que neutralize o sotaque, que fale mais baixo. Aqui, a purpurina funciona como uma alegoria do extravagante, de uma forma de viver em outro território sem se esconder, sem abaixar a cabeça.
Cine Set – Qual foi a sensação e suas expectativas do projeto ter sido um dos selecionados pela Netflix?
Aldemar Matias – O projeto foi um dos cinco selecionados para um laboratório de desenvolvimento da Netflix e da Dama (instituição de gestão de direitos de autor). Desses cinco, dois foram escolhidos após um pitching (apresentação oral rápida de um projeto para potenciais investidores) para produzir um teaser. Bairro Purpurina foi um deles. Já é um bom estímulo pra essa etapa inicial do longa-metragem.
Cine Set – Como tem andado o processo?
Aldemar Matias – Tá corrido! Tenho conciliado com a produção de uma série pra TV da Espanha (que concluo a realização em abril); e, com a Leão do Norte e a minha produtora Formiga de Fogo Filmes, já estamos ativando outras duas produções (uma série documental para a TV Brasil e outro longa de ficção) para serem realizadas em breve no Amazonas.
Já o processo no Laboratório foi bem produtivo. Houve assessorias para as etapas de escrita do argumento, de redação do dossiê e até preparação para o pitching. Bem intenso.
Ter esse tipo de acompanhamento logo no início do processo ajuda a detectar rápido o que funciona melhor na história, o que necessita de mais trabalho, o que precisa ser descartado etc.
Cine Set – E como foi sua passagem pelo Festival de Málaga?
Aldemar Matias – A apresentação em Málaga ocorreu na última segunda-feira (12) e foi uma boa vitrine para o projeto. O auditório estava cheio! Nunca havia participado desse festival. Junto com San Sebastián – que estive há 10 anos quando ‘El Enemigo’ recebeu um prêmio do júri – é um dos festivais mais relevantes da Espanha. É essencial pro “fôlego” do projeto formar essas alianças desde o princípio e entender a receptividade da história mesmo antes de ser filmada.












