Os velhos soviéticos já nos ensinaram: a montagem é possivelmente o aspecto mais importante da construção cinematográfica. E, enquanto muita gente (estudantes de cinema, espectadores e críticos) fica prestando atenção no roteiro ou nas atuações, de vez em quando um filme aparece para nos relembrar dessa noção básica. O do momento é o documentário Trilha Sonora para um Golpe de Estado, indicado ao Oscar 2025 na categoria.

O filme, dirigido por Johan Grimonprez, cria um retrato de um momento histórico do século XX, na virada da década de 1950 para a de 1960, quando o colonialismo e a Guerra Fria andavam de mãos dadas pelo planeta. O foco é o que aconteceu na República do Congo, quando o país declarou sua independência da Bélgica e passou a ser governado pelo líder Patrice Lumumba. Mas, é claro, as grandes potências não deixariam uma nação africana se autogovernar inteiramente, não quando há interesses econômicos em jogo.

E sabemos que uma das principais armas para ganhar corações e mentes na Guerra Fria foi a cultura. Então, ao longo de Trilha Sonora para um Golpe de Estado, ao som de muito jazz, vemos (e ouvimos) como figuras expressivas da música negra, como Louis Armstrong, Dizzy Gillespie, Duke Ellington e Nina Simone, foram cooptadas – pela CIA, na maioria das vezes sem que os artistas soubessem – para fazer shows em nações africanas, quando isso servia aos interesses americanos.

A intercessão entre música e política é central para a tese do filme, mas também surgem com destaque na narrativa nomes como Andrée Boulin e Malcolm X, personalidades notáveis na mobilização pelos direitos das mulheres na África e na luta pelos direitos civis nos Estados Unidos, respectivamente.

Trilha Sonora para um Golpe de Estado cria esse painel unicamente pelo uso da montagem. O filme inteiro é composto apenas de imagens de arquivo – muitas delas espetaculares, pela novidade e pela forma como se encaixam no tema – de shows de jazz, noticiários e pronunciamentos políticos, incluindo algumas citações bibliográficas para contexto. É aquele tipo de documentário capaz de deixar o espectador impressionado, só imaginando a quantidade de pesquisa que foi necessária para alcançar esse resultado final. O filme verdadeiramente pertence tanto a Grimonprez quanto ao seu montador, Rik Chaubet, que conseguiram tecer essa teia de acontecimentos de modo cinematográfico e sem recorrer à narração expositiva.

E há momentos em que a música e a política de fato convergem, às vezes até com bom humor, como quando figuras discutem se o premiê soviético Nikita Khrushchev tinha “ritmo” ao aparecer batendo os braços num pronunciamento na ONU; ou quando o “Ministério do Jazz” é apresentado.

Ainda assim, Grimonprez e Chaubet não perdem muito tempo apresentando as figuras que são vistas no documentário, o que o torna mais recomendado para quem já tem um mínimo conhecimento de jazz e também de história. E o filme não segue sua tese de forma linear: ele apresenta algumas idas e vindas no tempo e muitos personagens, então é um trabalho que requer atenção do espectador.

Isso, e mais a torrente de informações, acaba cobrando um preço: embora as imagens e o panorama político sombrio prendam a atenção, Trilha Sonora para um Golpe de Estado fica um pouco cansativo depois de um tempo, e a longa duração também contribui para isso – são 2h30.

Isso não atrapalha o brilhantismo do filme. Mas o documentário acaba fascinando principalmente por alguns momentos específicos, como quando vemos a mobilização para a criação dos Estados Unidos da África dentro da ONU – hoje, chega a doer ver essa promessa ainda não realizada – ou quando fica claro como a CIA usou Louis Armstrong numa das tentativas de assassinato de Lumumba. São momentos em que o assombro e o horror ficam claros para o espectador, com estranhos paralelos no nosso mundo presente.

É um filme sem dúvida muito elegante, capaz de criar curiosidade e indignação no espectador na mesma medida, e que, de certa forma, resgata a importância de Patrice Lumumba para a história do continente africano, ainda hoje manchada pelo sangue e determinada pelos interesses do capitalismo e dos países desenvolvidos. E o melhor de tudo: faz isso de maneira cinematográfica, usando a sua ferramenta principal para a construção de sentido e confiando na inteligência do espectador.

E a trilha sonora é uma maravilha também.