A diretora Gabriela Amaral Almeida, responsável pelo ótimo thriller brasileiro O Animal Cordial (2017), encara agora um novo desafio: dirigir o remake nacional de O Quarto do Pânico, suspense dirigido por David Fincher em 2002. Para a cineasta, o projeto chamou atenção por questões que vão além do gênero. “O que mais me atraiu foi o embate entre o feminino e o masculino e a maternidade, sobretudo o que é esperado do feminino”, afirma. Gabriela chega a definir o longa como “o mais feminino” da filmografia de Fincher.
A trama acompanha uma mãe, interpretada por Ísis Valverde, que se muda com a filha para uma casa equipada com sofisticados sistemas de segurança. A aparente proteção é rompida quando o local é invadido por três assaltantes, vividos por Marco Pigossi, André Ramiro e Caco Ciocler. O confronto pela sobrevivência se concentra no chamado “quarto do pânico”, um cômodo blindado, projetado para situações extremas, que se torna o principal refúgio das personagens.
Produzido pela Floresta, empresa da Sony Pictures Television, com licenciamento do Telecine, o filme também se destaca por inverter um fluxo comum da indústria. Gabriela observa que “a gente vê muito os EUA se apropriarem de filmes menores, do ponto de vista do valor de produção, e recontando essas histórias com os ‘anabolizantes’ do sistema norte-americano”. Segundo ela, fazer o caminho inverso é uma forma de reafirmar a potência do cinema brasileiro dentro do gênero.
Ísis Valverde destaca que a ambientação do filme carrega um forte subtexto simbólico. “A casa funciona como um símbolo do corpo feminino, e o quarto do pânico como um útero”, afirma a atriz, que também é mãe. Para ela, a história revela “essa força da natureza capaz de fazer tudo para proteger a própria filha”, mesmo diante de uma ameaça fisicamente e numericamente superior. Ísis acrescenta que a equipe buscou “chegar à essência da história”, evitando a dependência de grandes efeitos visuais.
Do lado dos antagonistas, o trabalho de composição também foi guiado pela escuta e pelo processo coletivo. Caco Ciocler destaca que os ensaios tiveram papel central na criação das personagens. “A Gabi tem essa generosidade de não chegar sabendo de tudo. Foi um exercício de generosidade de todos nós, através da tentativa e do erro”, diz o ator, que define seu desafio como encontrar um equilíbrio entre ser “assustador e inteligente ao mesmo tempo”.
André Ramiro ressalta que sua personagem é construída a partir da sensibilidade. Para ele, trata-se “do mais humano dos criminosos” e até “o mais feminino dos três”, em razão da paternidade. “A condução da Gabriela foi fundamental para trazer esse olhar feminino”, afirma. Marco Pigossi completa a leitura ao comparar o trio a “um cão de três cabeças”, marcado por personalidades contrastantes que colocam em xeque a própria eficiência da ação criminosa.
O roteirista Fabio Mendes também destaca a atualidade do material. “Apesar do avanço tecnológico, a criminalidade urbana só cresceu”, afirma, reforçando a relevância do conflito central da trama. Gabriela concorda e aponta que, no fundo, o filme trata da luta de classes, visível tanto na relação entre os criminosos quanto no confronto deles com a protagonista.
Exibido no Festival do Rio em 2025, O Quarto do Pânico chega ao streaming em fevereiro de 2026, no catálogo da Globoplay, dentro da aba Telecine, como mais uma aposta no fortalecimento do cinema de gênero brasileiro a partir de uma leitura autoral e contemporânea.














