Há cineastas que utilizam a velocidade para conduzir suas histórias. Eduardo Nunes prefere o silêncio. Em filmes como Sudoeste e Unicórnio, o diretor construiu uma filmografia marcada pela contemplação, pela força das imagens e pela atenção aos sentimentos que habitam os intervalos entre as palavras. Em Cinco da Tarde, seu novo longa-metragem, essa proposta encontra talvez sua forma mais íntima.
Protagonizado por Bárbara Luz e Sharon Cho, o filme acompanha o encontro entre duas jovens que compartilham experiências de perda, solidão e pertencimento. Exibido em festivais no Brasil, Europa e Ásia, o longa utiliza o luto como ponto de partida para investigar afetos, silêncios e conexões construídas no cotidiano. A fotografia em preto e branco, os enquadramentos em 4:3 e a observação paciente dos gestos reforçam a atmosfera delicada da narrativa.
Em entrevista ao Cine Set, Eduardo Nunes e Bárbara Luz falaram sobre o processo de criação do filme, desde a construção corporal das personagens até os ensaios que aproximaram as atrizes dentro e fora de cena. O diretor também detalhou as escolhas visuais do projeto, a relação afetiva com Niterói e a busca por um cinema capaz de comunicar emoções que nem sempre encontram tradução nas palavras.
Cine Set – Eduardo, em Unicórnio e Sudoeste, você já tinha mostrado a preferência por histórias com tempos mais estendidos, uma montagem sem tanta aceleração, um estilo mais contemplativo. Neste sentido, o que essa sua proposta de cinema se casou com a temática e o universo das personagens de Cinco da Tarde?
Eduardo Nunes – Não é um tipo de cinema fácil. É uma proposta que exige uma disposição do espectador para entrar em outro ritmo. Vivemos em uma época muito acelerada, cercada por múltiplas telas e estímulos constantes, então é natural que algumas pessoas se afastem desse tipo de experiência. Ao mesmo tempo, fico muito feliz quando alguém aceita desacelerar e entrar nessa outra percepção de tempo. Recentemente, revi o filme durante algumas pré-estreias e uma questão me chamou bastante atenção: a forma como o público tem reagido ao tema do luto.
Muitas pessoas comentaram que o mais bonito do filme está justamente no que acontece entre as falas. Nos olhares, nos silêncios, nos momentos em que as personagens não conseguem expressar aquilo que sentem. Isso me marcou porque toca diretamente na proposta do filme. A ideia sempre foi criar uma experiência de imersão no cotidiano da Meike e da Anabelle, acompanhando seus pequenos gestos e compartilhando aquele ambiente com elas. Uma crítica até comentou que as personagens bebem quase seis litros de suco ao longo do filme inteiro. Parece um detalhe banal, mas ele faz parte dessa construção de convivência.
Quando falamos de luto, estamos lidando com algo que nem sempre pode ser verbalizado. Muitas vezes, ele se manifesta justamente pelo silêncio, pela contemplação e pelos espaços vazios entre uma fala e outra. O filme procura comunicar esse sentimento por esses caminhos, permitindo que o espectador não apenas compreenda aquelas personagens, mas viva aquela experiência junto com elas.
Cine Set – Durante o Festival do Rio, a Sharon Cho diz que fazer o filme a ajudou a “falar muito com os olhos”. Na sua atuação, para além do olhar, chama muita a atenção pequenos aspectos da Anabel como aquela perna inquieta batendo no chão e até a maneira acelerada, quase invadindo a casa da Meiko. Como foi trabalhar estes elementos corporais para o filme?
Bárbara Luz – Faz tanto tempo que gravamos o filme que já não lembro de todos os detalhes do processo, mas me recordo de algo que surgiu durante os ensaios. Em determinado momento, eu cheguei a montar um gráfico dos estados emocionais da Ana Belga para visualizar melhor a trajetória da personagem.
Era uma ferramenta bem racional, quase uma planilha, que me ajudava a entender como ela se transformava ao longo da história. A partir disso, eu tentava encontrar uma tradução física para essas mudanças, compreendendo primeiro o que acontecia internamente para depois expressar isso no corpo.
Esse processo também foi possível porque tenho uma relação de muita confiança com o Edu. Nós nos conhecemos há muitos anos, desde a época dos testes de Unicórnio, quando eu ainda era muito nova. Ao longo desse tempo, construímos uma parceria que me dá muita segurança para experimentar e buscar caminhos para a personagem.
Nós ensaiamos bastante. Ele foi para Belo Horizonte, passamos muito tempo conversando e tentando entender todas as oscilações emocionais. No fim, acho que a construção veio desse conjunto de fatores. O trabalho corporal não surge isoladamente; ele é resultado da compreensão profunda da personagem e de tudo aquilo que ela vive ao longo da história.
Cine Set – Gostaria que vocês falassem sobre o peso dos ensaios para o resultado final. Quanto tempo vocês se preparam para as sequências mais extensas?
Eduardo Nunes – Com a Bárbara, tivemos muito tempo para amadurecer a personagem. O filme nasceu de um edital da Prefeitura de Niterói e seria rodado antes da pandemia, mas as filmagens acabaram sendo adiadas por quase dois anos. Nesse período, trocávamos mensagens, conversávamos sobre o projeto e íamos construindo a personagem aos poucos. A Sharon entrou mais perto do início das filmagens. Ela vinha de uma produção grande da HBO e chegou ao nosso set apenas uma semana antes de começarmos. Mesmo assim, algo que me deixou feliz foi ouvi-la dizer, depois, que se sentiu muito confortável durante o processo. Acho que isso é fundamental: criar um ambiente acolhedor para que os atores possam desenvolver seus personagens sem pressão excessiva.
Também tivemos algumas condições muito favoráveis. Trabalho com a mesma equipe há muitos anos; são profissionais e amigos de longa data, o que cria uma sintonia muito grande no set. Além disso, o filme possui poucas cenas, mas cenas longas, permitindo que os atores desenvolvessem as emoções de forma contínua, sem a fragmentação típica de produções em que cada momento é filmado separadamente.
Outro privilégio raro foi poder filmar praticamente toda a história na ordem em que ela acontece. Tirando algumas cenas externas, tudo o que acontece no apartamento foi rodado seguindo a cronologia do roteiro. Isso fez muita diferença porque permitiu que a relação entre as personagens evoluísse naturalmente ao longo das filmagens.
Por isso, muito do que vemos na tela nasceu da própria convivência entre as atrizes. Bárbara e Sharon não se conheciam antes do filme. A aproximação, a intimidade e o afeto entre as personagens foram surgindo ao mesmo tempo em que elas construíam uma relação fora de cena. Quando chegaram às últimas sequências juntas, havia também um sentimento real de despedida, e isso acabou sendo incorporado ao filme de forma muito orgânica.
Cine Set – E para você, Bárbara, de que forma este trabalho prévio foi fundamental para criar esta sintonia com a Sharon Cho?
Bárbara Luz – Esse processo foi essencial porque uma personagem não existe sozinha. Elas se constroem a partir dos contrastes, das semelhanças e da relação que estabelecem entre si. No caso do filme, essas duas personagens só fazem sentido quando observadas juntas.
Quando conheci a Sharon e começamos os ensaios, tudo começou a ganhar forma para mim. A personagem deixou de ser apenas uma ideia e passou a existir de maneira mais concreta. Foi muito importante descobrir quem ela era a partir desse encontro. E é verdade o que o Edu fala: fomos nos conhecendo durante os ensaios e, principalmente, ao longo das filmagens. A relação entre nós foi se desenvolvendo naturalmente, e isso acabou refletindo diretamente na dinâmica das personagens.
Um bom exemplo é a cena da dança no início do filme. Ela nem estava prevista originalmente. Surgiu durante o processo, a partir dessa convivência e da confiança que construímos. Quando decidimos fazê-la, percebemos que fazia sentido para a história. E foi uma das cenas mais gostosas de gravar.
Cine Set – Eduardo, gostaria que você falasse sobre a imagem, a direção de fotografia do Mauro Pinheiro Jr. Para além do preto e branco, impressiona o jogo de sombras e a dimensão que se dá àqueles apartamentos que se tornam enormes diante das personagens. Como foi trabalhar este aspecto da relação das protagonistas com os espaços que vivem cheio de memórias?
Eduardo Nunes – Aquele apartamento tem uma relação muito próxima com a minha própria experiência. Eu moro em um apartamento pequeno e vários elementos do espaço acabaram servindo de referência para a construção do cenário. Apesar disso, filmamos tudo em estúdio, em Botafogo. Tínhamos acesso à planta original do apartamento e buscamos reproduzir o ambiente com bastante fidelidade. Até a vista da janela foi recriada a partir de uma fotografia tirada do local real, já que a história daquele prédio também faz parte da narrativa.
A escolha pelo preto e branco surgiu por dois motivos. Primeiro, para criar um certo distanciamento da realidade. Depois, porque essa estética dialogava com o luto presente na história. Não é um preto e branco luminoso; predominam as sombras e as zonas escuras. De certa forma, é um filme mais preto do que branco.
Esse resultado também vem do trabalho do diretor de fotografia Mauro Pinheiro, com quem colaboro há décadas, e da direção de arte de André Beller e Marquinhos. Houve um cuidado muito grande na construção da luz dentro do cenário. As próprias paredes foram pintadas em tonalidades diferentes, mais claras próximas à janela e mais escuras nos ambientes internos, contribuindo para essa atmosfera.
Também optamos pelo formato 4:3 porque eu via esse como um filme profundamente intimista. É um enquadramento que valoriza os rostos e aproxima o espectador dos personagens. Os closes ganham uma força muito particular, porque a presença humana ocupa praticamente toda a tela.
Um amigo meu, o fotógrafo português Jorge Quintela, viu o filme e fez um comentário que me marcou. Ele disse que o longa tinha grandes paisagens, mesmo sem mostrar muitas paisagens. Para ele, cada rosto era uma paisagem. Acho que essa definição traduz muito bem o que buscávamos, e que encontramos isso nas interpretações da Bárbara e da Sharon.















