Exibido na Mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2025, “O Riso e a Faca” foi uma jornada épica tanto para os realizadores quanto para o público. Do lado de lá da tela, um desafio logístico para o diretor português Pedro Pinho gravar uma produção na Guiné-Bissau e no deserto da Mauritânia entre fevereiro de 2022 e janeiro de 2024 com uma equipe global, incluindo, nomes conhecidos do cinema brasileiro como o diretor de fotografia Ivo Lopes Araújo (“Tatuagem”, 2013), a montadora Karen Akerman (“O Lobo Atrás da Porta”, 2013) e o editor de som Pablo Lamar (“A Flor do Buriti”, 2024).
Na trama, o engenheiro ambiental Sérgio, português que viaja para uma metrópole na África Ocidental onde vai trabalhar num projeto rodoviário entre o deserto e a selva. Lá, ele desenvolve um relacionamento íntimo com dois moradores da cidade, Diára e Gui. Este último personagem é vivido pelo ex-jogador de vôlei, poeta residente em Barcelona e agora ator, o brasileiro Jonathan Guilherme, um dos principais destaques de Cannes neste ano.
Já do lado de cá da tela, o público pode viver uma experiência desafiadora e altamente positiva com um épico decolonial de 3h31. No dia após a primeira exibição, consegui fazer esta entrevista exclusiva e deliciosa com Pedro e Jonathan.
Cine Set – Como foi a experiência em Cannes e a recepção ao filme?
Jonathan Guilherme – Foi uma experiência literalmente nova para mim e bastante emocionante. Extasiante, inacreditável, inigualável, imbatível. Acho que posso me sentir um super-herói por ter passado tudo o que vivi para chegar aqui no festival. Somente me vem palavras boas, olhar para o céu e agradecer e dizer que sou escolhido, especial, vivendo isso ao lado de pessoas especiais como o Pedro. Não poderia ter começado melhor; todo o tempo que esperei fez sentido.
Pedro Pinho – Foi um momento muito bonito e emotivo. Esperamos muito tempo para conseguir ficar juntos ali. Viver aquilo e ter este desfecho foi algo belo.
Cine Set – De que forma ter uma equipe tão global com profissionais europeus, sul-americanos e africanos contribui para a realização do filme? Quais foram os maiores desafios culturais provenientes desta diversidade?
Pedro Pinho – No nosso caso, foi algo ótimo até por conta com a generosidade inabalável de muita gente. O fato de falarmos a mesma língua ajuda bastante por ser possível compreender todas as dinâmicas no set. As gravações não foram fáceis: seis meses de filmagem com viagens, deslocamentos intensos, dificuldades do dia a dia como ter onde dormir ou comer aquilo que tivesse disponível. A capacidade de resistência e a coragem da equipe foram incríveis.
Cine Set – Jonathan, você foi ex-jogador de vôlei, mas, já tem um tempinho trabalhando como ator. Gostaria de saber sobre o desafio de encarar um longa-metragem tão desafiador como “O Riso e a Faca”.
Jonathan Guilherme – O grande feito deste filme foi incorporar o personagem da maneira como quiser. Fiz o que os meus ancestrais e a minha alma pediram naquele momento. Isso foi muito bem entendido não apenas pelo Pedro, mas, também pela Kate (Saragaço-Gomes, supervisora de script), Filipa (Reis, produtora), a montadora Rita Peçanha e toda, toda equipe. Isso fez me encontrar em frente às câmeras através dos olhos deles.
Foram seis meses difíceis sim, eu nunca tinha ido à África, não tinha ideia onde ficava a Guiné-Bissau nem em qual ponto do mapa poderia encontrar aquele país, mas, ao chegar, senti que era de lá. Comecei a viver com o povo de lá e, hoje, eu sou de lá. Criou-se um vínculo, anterior a este corpo carnal. Foi a maior experiência da minha vida até agora. As dificuldades são poucas perto das benções que vêm através disso.
Cine Set – “O Riso e a Faca” faz um estudo do protagonista, mas, também traz questões políticas e culturais. Como você conciliou o trabalhar entre estes dois aspectos?
Pedro Pinho – O objetivo principal era trazer para a intimidade toda esta dimensão política, observando como elas se cruzam. Para isso, a metodologia que gosta de utilizar é que os atores tragam suas subjetividades ao filme. Com isso, as gravações se tornam uma discussão aberta, uma conversa longa entre várias possibilidades, olhares, discursos e perspectivas, tentando captar esta riqueza através da câmera e do som. Algo que digo sempre é que os atores são roteiristas também de “O Riso e a Faca”.
Cine Set – Aproveitando a deixa do Pedro: o que entrou da subjetividade do Jonathan na personagem?
Jonathan Guilherme – Da subjetividade entrou bastante minha poesia. Ela é algo que exploro muito para me sentir vivo. Ontem assisti ao filme pela primeira vez e amei ver que sou um poeta na tela do cinema. Todas as teorias que lancei ali terei as respostas 30 anos à frente.
Neste momento, não tenho respostas para elas nem acho que terei atualmente. A política terá que mudar muito para eu poder respondê-las de forma positiva.
Cine Set – A grande pauta hoje no cinema brasileiro é a regulamentação do streaming. Pedro, como isso tem sido debatido em Portugal?
Pedro Pinho – Apesar de ser uma pessoa com uma grande paixão por ver filmes nas salas de exibição até porque acho que é lá onde podemos encontrar a totalidade da linguagem do cinema, não se pode ignorar o streaming. Temos esta versão de “O Riso e a Faca” que irá estrear no Brasil, em Portugal e ao redor do planeta, mas, também estudamos uma abordagem de distribuição para o streaming. Não posso revelar os detalhes, mas, será algo diferente do que estamos acostumados a ver. Será um presente; quem viu a poesia de Jonathan, Cléo, Sérgio, com certeza, irá gostar muito.












