Relacionamentos no ambiente de trabalho permeiam o imaginário das pessoas. A sensação de se envolver com alguém que seja seu chefe ou seu funcionário cria um jogo de poder provocativo e fetichista. O desejo proibido é combustível para instigar uma dinâmica de sedução nas relações. Nesse ponto de partida que Paixão de Escritório entra. Protagonizado por Jennifer Lopez e Brett Goldstein, a comédia romântica até possui temas relevantes, mas menospreza eles para seguir a fórmula já batida do gênero. 

Respeitando um elemento crucial, o filme explora bem as realidades e personalidades opostas do casal logo de início. A cena inicial mostra em uma montagem paralela as reações divertidas de ambos em um encontro, porém em contextos diferentes. Além disso, Paixão de Escritório estabelece a mulher exercendo o cargo superior ao homem na trama, nesse caso, a relação da CEO Jackie Cruz (J.Lo) e seu novo advogado Daniel Blanchflower (Goldstein), lembrando um pouco a dinâmica de A Proposta, de 2009. Essa dualidade vai ressaltar a intenção de satirizar o mundo corporativo, questionando certos paradigmas.

O primeiro deles é sobre a mulher inserida no ambiente de trabalho ocupando um cargo alto e a forma como ela precisa mascarar fragilidades e humanidade para ser levada a sério. Jackie é vista como uma workaholic sem compaixão e rígida pelos funcionários. Ela também se coloca em um papel de submissão ao pai, ficando à sombra de uma figura masculina para tomar decisões em relação aos rumos da empresa. Da mesma forma, a melhor amiga e braço direito da protagonista comunica essa imagem da mulher fissurada no trabalho ao ponto de mesmo grávida não abandonar o ofício para cuidar de si mesma. O roteiro de Goldstein e Joe Kelly, porém, sequer risca a superfície do tema, desenvolvendo-o da maneira mais previsível possível.

Outro ponto que Paixão de Escritório traz sem muitas pretensões de aprofundar é nas relações amorosas no trabalho. Embora o conflito central seja esse, o roteiro cria situações que não parecem autênticas. O perigo dos dois serem descobertos inexiste na obra pois não se aproveita as possibilidades que isso pode gerar. A produção ainda flerta bem timidamente sobre fetiche, algo que poderia gerar um conflito interessante para a narrativa, mas que é só mencionado em um momento específico. 

Conhecido por Mamma Mia e Ingresso para o Paraíso, o diretor Ol Parker segue toda a checklist das comédias românticas. Fica nítido a falta de vontade de promover alguma novidade ao gênero ao utilizar ao máximo cada clichê e conveniência. Protagonistas opostos, momentos românticos melosos de casal, passagem com música para evidenciar o aumento da proximidade deles, cenários paradisíacos, fotografia limpa e até aquela declaração de amor do ato final estão presentes. Entretanto, o diretor erra ao apelar para momentos absurdos que destoam da leveza proposta do filme como uma cena de parto bem gráfica, um cumprimento envolvendo ereção e as cenas durante os créditos finais.

Em relação à química do casal, ela funciona até bem, muito mais pela segurança de Jennifer Lopez. Experiente no gênero, a atriz valoriza ao máximo sua Jackie Cruz ao saber expor suas fragilidades nas ocasiões certas, unindo com seu lado sedutor, dominador e uma jovialidade impressionante. Ela administra bem o peso de lutar em um espaço dominado por homens, bem como a busca por viver sem julgamentos. Mesmo que o roteiro mostre rasamente a frieza da personagem, Lopez compensa com charme. Por outro lado, Brett Goldstein consolida Daniel como um galã rústico inseguro e abobalhado, porém não constrói um charme complementar ao de Lopez, o que deixa o ator escorado na performance dela. Eles têm uma dinâmica de amor fofa e aconchegante pelo contraste das individualidades, porém não abraçam algo mais visceral.

Formal e inofensivo, Paixão de Escritório é aquela adição da Sessão da Tarde da Netflix. Uma produção que se mostra satisfeita com a própria mediocridade e que serve como mais um número na estatística da estagnação criativa das comédias românticas americanas ao reproduzir todos os cacoetes do gênero. Mesmo se acovardando em tocar mais profundamente em temas atuais, Jennifer Lopez garante um pouquinho de elegância nesse entretenimento passageiro.