Selecionado para o Festival de Gramado 2025 entre 1090 inscritos de todo o Brasil, “Boiuna” é produção nortista carregada de identidade em sua definição; seja como obra enraizada de solo paraense, seja ao tratar sobre o imaginário amazônico, seja na marca de um cinema intenso e forte da talentosa diretora Adriana de Faria.

Totalmente gravado no Pará, “Boiuna” apresenta a história de Mara (Jhanyffer Santos), uma adolescente que se muda com a mãe da capital Belém para o interior. Neste novo local, cercado pela floresta e por mistérios locais, ela se depara com lendas e experiências que colocam em xeque sua relação com a natureza e as outras garotas da região. Como pano de fundo da trama, a lenda da cobra-grande, decorrente do próprio nome da obra – palavra de origem do tupi-guarani “mboi” (cobra) + “una” (preta), Boiuna é uma enorme serpente negra, de proporções gigantescas, que habita os rios e igarapés da Amazônia.

“Boiuna” foi selecionado entre mais de 670 curtas brasileiros para o Festival de Gramado 2025. Foto: Laís Teixeira

Em uma interessante entrevista ao Cine Set em que revelou as minúcias sobre “Boiuna”, Adriana conta que a ideia para o filme surgiu a partir da convivência de anos com uma mãe e uma filha, duas mulheres ribeirinhas que transitavam entre Belém e o interior da capital. Foi a partir deste contato que se fez a compreensão da distância muito além da geográfica entre Adriana para com essas mulheres. 

“Sendo uma mulher do centro urbano amazônico, minha vida era outra e aos poucos fui percebendo que a distância entre nossas vidas não era apenas a do rio, mas todo um contexto social que se impõe para essas meninas e mulheres”, disse. Tendo em vista esses aspectos, é significativa a jornada de concepção da história, pois o processo de construção audiovisual decorre de uma inspiração real, da humanização encontrada dos elementos vivenciados outrora, aqui abraçados e recompostos de maneira singular e presente para a ficção.

PROCESSO LONGO PARA ‘BOIUNA’

Curta foi gravado com recursos da Lei Paulo Gustavo. Foto: Laís Teixeira

O desejo de realizar “Boiuna” não é novo; Adriana teve a ideia da história em 2018, pouco depois de se formar em Comunicação Social pelo Centro Universitário do Estado do Pará. No ano seguinte, embarcou para Cuba, onde realizou o curso de curso de Iniciação Documental na tradicional Escuela Internacional de Cine y Televisión. Na ilha caribenha, rodou “Ari y Yo”, curta lindo e cheio de sensibilidade sobre a relação dela com a garotinha do título. Ao voltar para o Brasil, conquistou três categorias no Festival Olhar do Norte 2020.

Mais adiante, em 2023, lançou “Cabana”, curta-metragem gravado no Pará ao lado das atrizes Isabela Catão e Rosy Lueji, apresentando uma visão da Cabanagem pelos olhos de mulheres da época. O filme foi ainda mais longe ao ganhar o prêmio de Melhor Curta Nacional do Festival do Rio.

Adriana de Faria dirigiu os premiados “Ari y Yo” e “Cabana”.

Mesmo com todos estes êxitos, “Boiuna” não saiu do radar de Adriana: neste período, o projeto foi sendo desenvolvido em laboratórios de roteiro e, após tentativas em editais, conseguiu ser aprovado em um certame com recursos da Lei Paulo Gustavo. “Acredito que esse tempo foi necessário não apenas para o amadurecimento do roteiro como para minha própria carreira. Sem essas duas obras, jamais teria a competência para realizar o Boiuna da maneira como o fiz”, declarou.

Com o recurso em mãos, Adriana afirmou o interesse dela estava em trazer um lado mais humano e realístico sem quebrar com a seriedade do profissionalismo das atrizes. “Sempre soube que queria um elenco híbrido com atrizes profissionais e meninas sem prévia experiência. Em 2022, conduzi uma entrevista com a Jhanyffer Santos, que é sobrinha da mulher para quem fiz o filme. Na época, ela tinha 13 anos e várias semelhanças com a personagem da Mara, gostei de como era inteligente e ousada. Disse a ela que um dia teria o dinheiro para fazermos o filme e, em 2024, retomei o contato, fizemos um teste e assim foi. Naquele mesmo ano, conduzi um teste com a Naieme, que foi pensada primeiramente em razão da semelhança física com a Jhanyffer, mas que depois me encantou pela vulnerabilidade com que conduziu seu teste para a personagem da Jaque, o que se comprovou ainda mais ao longo dos ensaios e no próprio set, junto da preparação da amazonense Isabela Catão, que também interpreta a prima Cris”.

PERMANÊNCIA NO NORTE E RECONHECIMENTO NACIONAL

“Boiuna” marca retorno do cinema paraense a Gramado. Foto: Laís Teixeira

Representar o Pará no Festival de Gramado 2025, um dos mais tradicionais do cinema brasileiro, marca também uma escolha acertada de Adriana de Faria. Afinal, a tendência para um realizador audiovisual no Norte do Brasil foi sair da região. “Por muito tempo, me disseram que eu deveria ir para o Sudeste, pois lá haveria mais oportunidade para trabalhar como roteirista. Por falta de coragem e dinheiro, fiquei em Belém. Aprendi a fazer cinema na escassez, a buscar o conhecimento onde não tinha”.

Com “Boiuna”, a diretora estabelece e finca novamente seus pés em solo amazônico, respirando em evocar luzes nas histórias e realidades intrínsecas de povos e culturas que aqui vivem.  “Acredito que meus três trabalhos têm em comum essa insistência de realizar. E ao decidir ficar, me deparei com esse lugar onde vivo, com as histórias que ainda não foram contadas e com aquelas que eu mesma não conheço. Essa curiosidade pelas pessoas e por esse território me levam adiante”.

Amazonense Isabela Catão também está no elenco de “Boiuna”. Foto: Laís Teixeira

Adriana admite que representar o Pará em Gramado traz responsabilidade a ela e ao filme, sendo uma possibilidade de honrar toda a equipe, o elenco e as encantarias amazônicas. E completa dizendo das portas que podem se abrir para o audiovisual nortista com as presenças de “Boiuna” e do amazonense “Os Avós”, de Ana Lígia Pimentel. “Gostaria que essa fosse uma maneira de abrir caminhos para os que virão depois de mim. Quero que essa passe a ser a regra não só para esse, mas para os diversos festivais do país onde o cinema nortista ainda é subrepresentado. Assim como os outros onze curtas, estamos concorrendo às categorias pelo Kikito e essas indicações são a afirmação da potência da nossa cultura e da qualidade de nossos profissionais. Fico na torcida para que a gente volte com um deles para casa”.