A frase acima, de Goethe, citada por Freud no seu clássico “Mal-Estar na Civilização” (publicado em 1930), nos remete à insustentável permanência da felicidade.

Insustentável pois nos confronta com uma alegria que deveria ser fluida, as perdas inevitáveis e a pressão de ser feliz a qualquer custo. Papel este que por sinal as redes sociais vem fazendo de forma devastadora e adoecedora.

Este pareceu-me um pano de fundo para a série Pluribus, do tão premiado Vince Gilligan, de Breaking Bad.

Rhea Seehorn encarna uma escritora azeda e ranzinza que parece debochar do ser humano através de seus romances, visto a ironia com a qual trata seus fãs. Sendo uma das poucas pessoas no mundo que está fora do Pluribus – a unidade de consciência coletiva, Carol Sturka se recusa a aceitar o que deveria ser individual como doutrina de como se comportar, uma espécie de seita.

O inferno é o outro

A frase célebre do filósofo e escritor existencialista francês Jean-Paul Sartre diz muito sobre se relacionar. Algumas teorias de personalidade defendem a ideia de que nosso eu, parte de quem somos, é formado pelo outro. E não haveria como ser de outro jeito. A partir de quando nascemos , somos influenciados por vários fatores externos que ditam como devemos ser e agir. Escola, religião, família, amigos dentre outros. Diria que não há livramento destas influências, mas, sim, administração do que fica e do que sai, daquilo que não me pertence. O que acontece é uma escolha de quem vou depender, já que na nossa condição de ser humano é fundamental a presença do outro.

Em Pluribus, é muito curioso como este outro se faz presente de formas diferentes, em Carol e no paraguaio Manoulos, outro humano não infectado . Um é afetado pela forma emocional e outro pela forma física. Manoulos, ao se recusar a aceitar qualquer tipo de ajuda da unidade, acaba se machucando gravemente e mesmo sem querer, recebe ajuda. Caso contrário, simplesmente morreria.

Carol, por sua vez, contemplando tudo ou quase tudo que uma solidão brutal permitiria, implora que a unidade volte, depois de a terem abandonado por má disciplina.

Destaco aqui a repetição da gravação automática da unidade que Carol é obrigada a escutar toda vez que precisa de algo. Uma simples e chata mensagem de telefone permite uma empatia direta com a impaciência da personagem.

Livre-arbítrio

Em Cidade dos Anjos (1999), um anjo caído diz a Seth, vivido por Nicolas Cage: Deus deu a esses idiotas – no caso, nós, o maior dos dons, e não daria à nós anjos, seus servos diretos? O anjo pergunta qual dom, e a resposta vem simples, com uma piscadela de olhos: o livre-arbítrio.

Privilégio tão desperdiçado pela humanidade, é o que talvez a série explore de melhor. Como usufruir do direito à vida quando algo coletivo dita tudo e como se deve fazer? O que é comum na unidade é a abolição da consciência reflexiva. Inclusive, alimentar-se de restos de outros humanos é apenas uma ocorrência fugidia.

O showrunner acerta em cheio quando disse humildemente que a série vem em vista à falta de criatividade na TV. É ótima para quem quer algo diferente com o mínimo de reflexão crítica da humanidade.

No momento deste texto, Rhea Seehorn já foi vencedora do Critics Choice . Aposto todas minhas fichas que ela merecidamente também leva o Globo de Ouro no próximo domingo, 11 de janeiro, e o Actors Awards no dia 1 de março.

A série termina com gancho para a segunda temporada, com o auge do livre-arbítrio em foco. Como Carol, continuo acreditando no indizível da humanidade. E na defesa e que todas emoções são bem-vindas, mesmo paradoxais, confusas e intensas. “Se meus anjos me deixassem, temo que meus anjos também fugissem” (Rainer Maria Rilke).