É tão fácil virar a cara para Pluribus: uma protagonista antipática reclamando de tudo e todos, episódios em que o máximo que acontece é um supermercado ser reabastecido, vilões bonzinhos, ritmo que passa longe do acelerado e nada daqueles ganchos típicos das minisséries de suspense de todo santo dia lançadas nos streamings semanalmente. Para os alarmistas clickbaits de plantão, basta lembrar que o criador é o mesmo de Breaking Bad para o rótulo de decepção colar e ficar.  

Só resta dizer o seguinte: não caia neste papo. Pluribus: é um tesouro raro do mundo das séries. Igual fizera nas temporadas finais da maravilhosa Better Call Saul, Vince Gilligan não tem a menor pressa para construir meticulosamente aquele universo de um mundo que simplesmente entrou em parafuso ao ver bilhões de pessoas tornarem-se uma única mente, todas felizes, em paz, superando qualquer tipo de divergência. A exceção são 11 pobres coitados espalhados ao redor do mundo, incluindo, a nossa protagonista Carol Sturka, uma autora de livros de fantasia. 

Qualquer outra produção com este ponto de partida iria explorar as causas desta transformação, os riscos para os 11 ‘sobreviventes’ e a luta deles para reverter o processo antes que sejam pegos. Mistérios e mistérios seriam inseridos a cada nova cena com aquele gancho esperto para o capítulo seguinte – Ruptura está aí para provar que não minto. Gilligan, entretanto, usa este ponto de partida para uma proposta mais ambiciosa sobre natureza humana, solidão, coletividade e individualidade. 

A escolha de Carol Sturka ser uma escritora não è à toa, afinal, a profissão artística, mais do que qualquer outra, precisa da troca com o outro para ter algum sentido de existir. Por mais que considere seu best-seller uma grande bobagem, a protagonista não pode impedir a maneira com que o livro toque o próximo a ponto de ser agradecida por uma leitora de tê-la salvado da depressão. Ao se ver sozinha no planeta, a personagem de Rhea Seehorn (mais uma vez, excelente) novamente se coloca em uma posição de superioridade intelectual perante aqueles novos seres unificados pela mente e até mesmo aos demais ‘sobreviventes’. 

A princípio, nossa escritora parece a voz sóbria no meio da loucura, afinal, abrir mão da individualidade, daquilo que nos define como ser único é algo impensável. Mas, como aponta Mr. Diabaté (Samba Schutte, excelente), estaria o mundo necessitando ser salvo sem racismo, violência, maior consciência ambiental e uma paz para aqueles que estão unidos? Gilligan joga com a estranheza para cutucar nossa desconfiança gratuita do outro – será que os Outros são realmente felizes? É possível ser realmente feliz, pleno? – e da nossa própria suposta racionalidade. Por outro lado, ao questionar se uma criança de 8 anos ainda é uma criança de 8 anos por ela ter conhecimentos avançados de medicina, Sturka levanta um intrigante ponto sobre um mundo que não é definitivamente preto no branco. 

O produto disso é a solidão com a qual Carol pensa ser capaz de suportar e estampada nas impressionantes imagens abertas de uma Los Angeles vazia sem carros, dos locais silenciosos, búfalos pelas ruas, das avenidas ao fundo apagadas para poupar energia e do silêncio incômodo. Este vazio, aliás, está no cerne de “Pluribus” e, por isso, o ritmo nada acelerado adotado por Gilligan, um contraponto à nossa correria, formam este antimundo tal qual o conhecemos.  

A metade final da primeira temporada foca justamente nesta necessidade de conexão com o próximo, lembrando Ela, ficção científica brilhante de Spike Jonze estrelada por Joaquin Phoenix. Gradualmente, todas as convicções da personagem de Seehorn caem por terra a ponto da intransigência do paraguaio Manousos (Carlos-Manuel Vesga), sujeito que cruza o continente americano para chegar até ela com o mesmo discurso de salvação do mundo, causar a estranheza que antes parecia o ponto de normalidade. 

Esta engenhosidade de Gilligan de transformar perspectivas, quebrar o trivial do que se esperar e colocar para jogo certezas fazem de “Pluribus” sempre um mistério a cada play de um novo episódio. Para tantas séries previsíveis com as fórmulas requentadas de sempre, eis um tesouro que não se vê todos os dias.