Mel Brooks vê o cinema como um grande parque de diversões para o deboche. Conhecido muitas vezes como o “Pai das Paródias”, o novaiorquino do Brooklyn tem o dom de transformar qualquer gênero de filme em alvo de piadas e entretenimento. Ele instaurava um caos cômico como ninguém, assim como sabiamente equilibrava o humor inteligente e o absurdo em suas obras com muita irreverência.
Através do ridículo, prestava uma homenagem para cada gênero e estilo que parodiava. Além disso, utilizava o humor para dialogar com o momento da indústria cinematográfica e criticar a ganância humana. Para Brooks, o riso era uma forma de celebração da história do cinema.
Parte de um seleto grupo de artistas que conquistaram o EGOT (Emmy, Grammy, Oscar e Tony), Brooks construiu uma carreira muito versátil, exercendo as funções de ator, roteirista, produtor, diretor, comediante e dramaturgo. Em 1974, presenteou o cinema com dois grandes clássicos da comédia como Banzé no Oeste e O Jovem Frankenstein, ambos em parceria com Gene Wilder.
A partir daí, se tornou uma referência quando o assunto era paródia. Na década de 1990, as obras de Brooks já não tinham o mesmo brilho de antigamente, seu desgaste criativo ficava evidente até que em 1995 dirigiu seu último filme. Apesar disso, ainda se manteve presente dentro da indústria atuando, escrevendo e produzindo filmes.
Para celebrar os 100 anos de Brooks neste 28 de junho de 2026, o Cine Set preparou um ranking dos filmes que dirigiu, do pior ao melhor para prestar uma homenagem ao seu legado.
11º Lugar – Drácula Morto, mas Feliz (1995)
O último filme representa todo o cansaço criativo de Brooks nos anos 1990. Implorando por risadas, a obra se contenta com um humor apelativo, genérico e forçado em várias ocasiões. O diretor lida com a produção com indiferença, tanto na direção no modo piloto automático como no roteiro óbvio e sem inventividade. Emulando a estética dos filmes de Terror da Hammer, Brooks falha em ficar preso dentro da estrutura do filme parodiado (no caso Drácula de 1931), sem se esforçar em brincar com as possibilidades cômicas que tem nas mãos. Nem mesmo a presença carismática de Leslie Nielsen salva a obra da decadência. O restante do elenco não consegue se destacar positivamente, sendo Peter Macnicol simplesmente insuportável. Com lampejos microscópicos de diversão, o longa serve como uma despedida amarga de Brooks.
10º Lugar – A Louca Louca História de Robin Hood (1993)
Dentro da lenda clássica de Robin Hood, Brooks comete o erro de padronizar sua comédia. O objetivo é zombar do arquétipo do herói, transformando-o em uma figura atrapalhada como forma de quebrar aquela valentia característica. A criatividade dá lugar à reciclagem, com um humor preguiçoso e batidas cômicas previsíveis. A sagacidade é escassa, com algumas boas piadas, mas sua direção transmite um cansaço aparente, sem vontade de atingir grandes ambições. O protagonista Cary Elwes se esforça para tornar a narrativa menos monótona e Mark Blankfield rouba a cena em alguns momentos. Aquém da qualidade que consagrou Brooks, A Louca Louca História de Robin Hood é uma produção menos inspirada e formulaica, que leva o conceito de “uma comédia qualquer” à risca.
9º Lugar: Banzé na Rússia (1970)
Antes de mergulhar nas paródias, Brooks constrói uma aventura que oscila entre o familiar e o estranho. Adaptado de um romance russo de 1928, a obra parte de uma premissa acessível com uma intenção de priorizar o tom aventuresco. O roteiro exibe um contexto político que não evolui ou ganha contornos interessantes, apenas na parte final do longa. A direção de Brooks busca equilibrar o humor com o drama, mas a dramaticidade não atinge um êxito emocional. Tecnicamente, os cortes bem secos incomodam, pois as cenas ficam sem uma ligação fluida. Apesar disso, o elenco se destaca com boas interpretações de Frank Langella, Ron Moody, Dom DeLuise e a pequena participação do diretor. Mesmo tropeçando um pouco na condução, Banzé na Rússia ainda é um filme diferente e curioso da carreira de Brooks.
8º Lugar: Que Droga de Vida! (1991)
Após tantas paródias consecutivas, Brooks surpreende ao apostar em uma história fora da sua zona de conforto. Em uma carga mais sóbria, Brooks experimenta uma comédia dramática sobre empatia, desigualdade social e amizade. A ganância e o tratamento com as pessoas sem teto ganham a atenção do roteiro, que ressalta essa crítica social com honestidade. A direção transparece uma leveza, mas perde força quando recorre ao humor escrachado, diminuindo um pouco o impacto do longa. O protagonista de Brooks é repleto de nuances e uma atuação que se difere do seu habitual. Ainda assim, os coadjuvantes também têm seu espaço para brilhar como Lesley Ann Warren e Howard Morris. Mesmo que a trama de redenção seja bem batida, o longa é uma sessão da tarde agradável que permitiu ao diretor respirar novos ares dentro da comédia.
7º Lugar – A História do Mundo: Parte 1 (1981)
Até os grandes momentos da história humana tiveram a presença de Brooks e sua trupe. Estruturado em formato de blocos e satirizando os grandes épicos do cinema, o projeto passa a sensação de mais do mesmo bem feito. Depois de grandes filmes e com uma carreira consolidada, Brooks estaciona na segurança e sem muitos riscos com um filme tecnicamente ambicioso, porém com um humor rotineiro e derivativo. Ainda assim, seu talento impera com piadas e cenas verdadeiramente engraçadas. O elenco formado por nomes como Harvey Korman, Don DeLuise, Madeline Kahn, Cloris Leachman e o próprio Brooks esbanjam timing cômico preciso e interações burlescas. A narração de Orson Welles é uma sacada muito boa como forma de brincar com o vozeirão do artista. Mesmo eficiente, Brooks demonstra que não está mais em seu auge.
6º Lugar – S.O.S. – Tem um Louco Solto no Espaço (1987)
Há muito tempo, em outra galáxia muito, muito distante, Brooks criava a sua versão descerebrada e cafona de Star Wars. Sem pudor algum, ele ridiculariza o máximo que pode a história de George Lucas, com piadas bobas e disparatadas, caçoando até do baixo orçamento. No entanto, por trás dessa comicidade estúpida, ele constrói uma metalinguagem autoconsciente e afiada, criticando o sucesso comercial de franquias, apontando uma tendência à frente do tempo. Enquanto brilha neste departamento, a trama do filme não recebe a mesma atenção, com uma narrativa desleixada. A performance de Rick Moranis como Darth Helmart confere momentos hilários no longa. Desajustado e tolo, essa sátira sci-fi comunica com irreverência a magnitude do fenômeno Star Wars sob a ótica de Brooks.
5º Lugar – Alta Ansiedade (1977)
Nem mesmo o renomado diretor Alfred Hitchcock escapou das mãos de Brooks. Em uma abordagem mais psicologicamente jocosa, ele se diverte prestando uma homenagem à assinatura do mestre do suspense e ao gênero como um todo. A direção exibe cuidado técnico ao reproduzir os enquadramentos característicos do cineasta. A grandiosidade dos cenários e as cores extravagantes atiçam a sensação do irreal, brincando com a percepção e desconfiança. Como protagonista do longa, Brooks entra no clima exagerado, abusando das caras e bocas. Entretanto, o roteiro desliza em alguns aspectos como nas motivações dos vilões, na personagem feminina mal desenvolvida e no clímax atropelado. Alta Ansiedade atinge um equilíbrio competente entre a caricatura clássica de Brooks e uma carta de amor ao mestre do suspense.
4º Lugar – A Última Loucura de Mel Brooks (1976)
Com muita graciosidade e dinamismo, Brooks exalta a magia complexa do cinema mudo. Através de uma metalinguagem engenhosa, o diretor explora referências e piadas sobre os bastidores de uma produção cinematográfica e da luta para a realização de um longa-metragem. As participações especiais de grandes estrelas do cinema da época dão um tempero especial ao filme. Todos os elementos entram em sintonia com o tom da obra, como a trilha sonora, montagem e do trabalho de som, em uma sinergia perfeita. Replicando a ingenuidade do cinema mudo, Brooks cria variedades situacionais com muito controle e rapidez, sempre coordenado em cada bloco da narrativa. O trio de protagonistas Mel Brooks, Marty Feldman e Don DeLuise demonstram uma fisicalidade harmônica e uma química complementar. Com suas particularidades, eles têm êxito tanto juntos quanto individualmente. Em mais uma empreitada alegre, Brooks reverência e contempla a fase muda do cinema com muito amor e respeito.
3º Lugar – Banzé no Oeste (1974)
Escancarando a hipocrisia repugnante do ser humano, Banzé no Oeste é um estudo inteligente e subversivo sobre o preconceito. Criando uma trama ambientada no Velho Oeste, Brooks satiriza o gênero Western com muita classe, quebrando muitas convenções do estilo com muita criatividade. O roteiro aproveita do seu humor exagerado como ferramenta para a índole insurgente da história, lidando principalmente com o racismo, tornando a temática forte e incisiva. As piadas ácidas são muito bem empregadas para transbordar o cinismo da humanidade, em que a ganância, corrupção e o oportunismo andam em sintonia. O absurdo é trabalhado como maneira de mostrar o preconceito como algo vazio e estúpido. Cleavon Little oferece uma atuação repleta de animação e carisma ao seu personagem e conquista o público como o herói negro protagonista. Como de praxe em suas comédias, Brooks utiliza a caricatura para convidar o público a rir e zombar daquelas figuras retrógradas e a trilha condensa o tom aventuresco e irônico do longa. O ato final imprevisível e caótico quebra a lógica estabelecida, em que a realidade e a ficção se entrelaçam numa metalinguagem que mostra o quanto o real e o absurdo estão mais próximos do que se imagina. Mesmo que algumas piadas tenham envelhecido mal, a obra continua com seu charme insano e pitoresco.
2º Lugar – O Jovem Frankenstein (1974)
Em mais uma parceria com Gene Wilder, Brooks encontra no terror um palco para seu humor inigualável. Com sabedoria, ele usa os clichês do gênero a favor da narrativa histérica. Os recursos de onomatopeias, névoas e relâmpagos adquirem uma função cômica, que resgata a sensação de um filme da década de 30. O mais interessante é que o longa funciona como um filme legado e uma continuação distorcida do clássico Frankenstein, de 1931. Mesmo assim, o roteiro trata sobre existencialismo de um jeito sutil na figura do monstro. A direção busca enquadramentos fechados nas expressões histriônicas dos personagens e nos planos abertos, evidenciando os cenários e o castelo. A atmosfera de horror também é construída pela fotografia em preto e branco, que contribui para a imersão. As piadas se desenvolvem de um jeito simples, leve e bobo, mas também com uma perversão nas entrelinhas. O elenco escolhido é um show à parte, com destaque no protagonismo magnético de Gene Wilder, na esquisitice hilariante de Marty Feldman e na seriedade galhofa de Kenneth Mars e sua mão falsa. Com alto astral, a comédia prova sua qualidade pelo uso consciente e esperto do humor, ficando uma referência de como fazer paródias refinadas.
1º Lugar – Primavera para Hitler (1967)
Em seu primeiro trabalho na direção, Brooks ousa com uma comédia ácida dentro de uma temática polêmica. Mirando em um humor transgressor, a narrativa banaliza o nazismo, imbecilizando a idolatria e aqueles que a seguem. A ideia da ridicularização através do caricatural é usada com inteligência e com o objetivo de enfraquecer símbolos tiranos. Em outra linha, o roteiro aborda o universo das produções teatrais com muita originalidade, expondo a ganância e as maracutaias que existem no meio. A imprevisibilidade da arte surge como um ponto crucial sobre responsabilidade artística. Gene Wilder e Zero Mostel garantem uma interação antagônica, representando a dualidade moral da trama. Wilder constrói um personagem gentil e ingênuo enquanto Zero traz uma pessoa ambiciosa e de caráter questionável. Através da relação dos dois, Brooks comunica o fracasso como negócio numa crítica contundente à obsessão pelo dinheiro. O final abre vários pontos de reflexões pertinentes que permanecem assustadoramente atuais, seja na natureza humana como no poder de influência da arte. Vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original, “Primavera para Hitler” é um relato pessoal de Brooks sobre como trata suas próprias feridas.






















