O cineasta austríaco Michael Haneke está oficialmente aposentado. A informação divulgada por Markus Schleinzer, amigo pessoal do diretor, disse: “Ele fez dez filmes, como seu ídolo Robert Bresson, e está feliz”.
É compreensível: Haneke já está com 85 anos e seu último trabalho já tem quase 10 anos de lançamento. Ainda assim, o fim da sua carreira é triste para o cinema, afinal, perde-se um dos artistas mais mordazes das últimas décadas, um observador da natureza humana e suas contradições. Fez filmes difíceis, mas sempre expôs verdades humanas, muitas vezes de forma incômoda.
Para celebrar a carreira desse grande cineasta, apresento aqui a um ranking dos (na verdade) 12 filmes da filmografia de Michael Haneke, do pior para o melhor, na opinião deste que vos fala…
11. Happy End (2017)
Haneke é um daqueles raros cineastas que nunca fez um filme ruim. Mas fez, ao menos, um bem mediano, este aqui, seu último trabalho. A história e os conflitos da família Laurent nunca chegam a ter a força ou a acidez característica do diretor. Aqui, Haneke cria o cenário para um ótimo filme, mas nunca chega realmente a entregá-lo. De novo, não é um longa ruim, e o elenco, que inclui Isabelle Huppert, a atriz favorita do diretor, e também Mathieu Kassovitz e Jean-Louis Trintignant, está ótimo. Mas em se tratando de Haneke, a culpa é dele mesmo: o cineasta acostumou seu público a esperar um pouco mais.
10. Tempos de Lobo (2003)
Concebido como uma resposta aos filmes-catástrofe de Hollywood, Haneke cria aqui a sua versão de um longa apocalíptico. Temos, então, um filme opressivo, escuro e que não dá um descanso para o espectador, como o cineasta gostava de fazer. O problema é que Tempos de Lobo, apesar da inteligência narrativa do diretor, não mostra nada muito diferente do que vários filmes apocalípticos já mostraram. É outra obra que está longe de ruim, mas fica na parte de baixo dos trabalhos do diretor.
9. Código Desconhecido (2000)
Haneke, de vez em quando, gostava de descontruir a forma fílmica e a unidade dramática. Aqui, ele faz uso de várias histórias interligadas para falar sobre o caldeirão de xenofobia na França, com um acúmulo de conflitos e situações tensas. É um filme cerebral e que exige atenção do espectador, e não é fácil – mas talvez seja o longa de Haneke que mais peça por reapreciação no futuro. Além disso, tem outra das atrizes favoritas do diretor, Juliette Binoche, com quem ele voltaria a trabalhar.
8. 71 Fragmentos de uma Cronologia do Acaso (1994)
O terceiro longa da chamada “trilogia da frieza” do diretor é um estudo sobre o acaso, acompanhando 71 cenas de cidadãos austríacos antes de um massacre. Foi a primeira experiência de Haneke com desconstrução narrativa e o resultado é um mosaico que o espectador monta na cabeça, com um resultado muito interessante, e perturbador, claro.
7. A Fita Branca (2009)
Um dos filmes que deu a Palma de Ouro de Cannes a Haneke e concorrente ao Oscar em Melhor Filme de Língua Não-Inglesa, A Fita Branca é mais uma análise sobre a natureza do mal no ser humano, filmado em um belíssimo e austero preto-e-branco. Às vésperas de Primeira Guerra Mundial, estranhos acontecimentos colocam um vilarejo alemão em pânico e as crianças do lugar parecem estar envolvidas, nessa obra que é difícil – olha essa palavrinha de novo – e perturbadora. Em seus filmes, Haneke gostava de deixar a plateia desconfortável diante de verdades que ela talvez não quisesse confrontar ao entrar no cinema, e isso nunca foi mais verdade do que aqui.
6. O Vídeo de Benny (1992)
O segundo filme da trilogia da frieza é outra pedrada, um soco no estômago e na mente do espectador, numa obra que parece ter previsto a nossa cultura obcecada pela imagem. Na história, um jovem cinegrafista perde o contato com a realidade e comete um assassinato, e depois grava a confissão para os pais, num filme que nos mantém presos a um personagem para o qual a vida, se não for filmada, não é real. Assista e tome um sal de frutas depois.
5; Funny Games: Violência Gratuita (1997/2007)
Aqui Haneke estava no seu mais cruel: sua opinião sobre a cultura da violência no cinema foi, em 1997, seu primeiro filme a atrair grande atenção internacional, mostrando um casal sendo sequestrado e torturado por dois jovens delinquentes. Ele examina nossa identificação com as vítimas, quebra a quarta parede com o vilão falando diretamente conosco, e no final “rebobina a fita” numa cena que causou revolta na época. Essa história era tão importante para Haneke que ele a filmou duas vezes, e o remake com pezinho em Hollywood traz atores mais conhecidos do grande público como Naomi Watts e Tim Roth. Como são essencialmente o mesmo filme, ficam lado a lado no ranking e trazem a mesma aflição para o espectador sentir duas vezes, e refletir depois.
4. A Professora de Piano (2001)
A parceria Haneke-Huppert nasceu aqui e deu à atriz aquele que talvez seja seu melhor papel da carreira. Como a reprimida – e olha que isso é eufemismo – professora que se envolve com um aluno mais novo, Huppert se supera e conjura uma magia estranha aliada à direção cerebral e clínica de Haneke, explorando os efeitos que a supressão dos sentimentos e da sexualidade pode causar, em mais uma assistida desconfortável e tensa.
3. O Sétimo Continente (1989)
O filme inaugural da trilogia da frieza, e o primeiro trabalho para cinema de Haneke depois de anos na TV austríaca, é sua obra mais perturbadora – e em se tratando de Haneke, isso é uma afirmação de respeito. Inspirado num caso real que chocou a Áustria, o longa dramatiza o cotidiano de uma família que vai se isolando cada vez mais após uma mudança, até um final trágico. Haneke filma tudo com rigor e distância emocional, o que só amplifica a estranheza do que vemos. É o tipo de filme para se ver uma vez e nunca mais repetir, e esse é o maior elogio que se pode fazer à obra.
2. Caché (2005)
Contando com as atuações fantásticas de Juliette Binoche e Daniel Auteil, em Caché Haneke usa uma estrutura de filme de suspense para atrair o espectador, com o gancho de uma família que começa a receber fitas misteriosas mostrando a sua rotina. Com o tempo, essa estrutura dá margem a uma reflexão sobre preconceito, xenofobia e os demônios escondidos debaixo das fachadas das pessoas ditas “de bem”. Talvez seja o filme mais acessível do diretor, e por isso mesmo o espectador se sente mais perturbado quando ao final Haneke nos puxa o tapete.
1. Amor (2012)
O outro filme de Haneke que venceu a Palma de Ouro, e também o Oscar, é a sua maior obra-prima. Aqui, ele usa seu estilo clinico e frio de outra forma, temperado com empatia, para contar a história de um casal idoso – Emmanuelle Riva e Jean-Louis Tritignant, duas lendas, fantásticos em cena – cuja vida juntos começa a desmoronar quando a mulher passa a exibir sintomas de Alzheimer. Enquanto a maioria dos filmes se foca na doença, Haneke lida com as suas consequências, e fala sobre o peso do que realmente significa amar alguém que está desaparecendo aos poucos. É outro filme difícil, mas profundamente humano, e que talvez num mundo perfeito, todo mundo deveria assistir.






















