A morte de Glória Menezes, aos 91 anos, nesta terça-feira (18), encerra uma trajetória de mais de seis décadas dedicada à atuação. Embora seu nome esteja profundamente associado à televisão brasileira — onde protagonizou novelas históricas e construiu personagens que atravessaram gerações —, sua relação com o cinema começou de maneira especialmente marcante: logo em seu primeiro filme, ela esteve em uma das obras mais importantes da história do cinema nacional.

Nascida em Pelotas (RS), em 1934, Glória iniciou sua carreira no teatro e chegou à televisão no fim dos anos 1950. Mas foi nas telas grandes que sua estreia ganhou dimensão internacional. Em O Pagador de Promessas (1962), de Anselmo Duarte, ela interpretou Rosa, esposa de Zé do Burro, personagem vivido por Leonardo Villar. O filme conquistou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, feito que permanece único para o cinema brasileiro.

A participação no longa também mostra como Glória chegou ao cinema já como uma atriz de grande presença. Segundo o UOL, ela substituiu Maria Helena Dias no projeto e demonstrou, logo na estreia, qualidades que ajudariam a transformá-la em uma das principais intérpretes brasileiras.

As artes acima reúnem seis trabalhos que ajudam a contar essa trajetória cinematográfica — do início nos anos 1960 à comédia que marcou seu retorno às telas décadas depois.

O Pagador de Promessas (1962)

O primeiro filme de Glória Menezes é também o mais emblemático de sua filmografia. Dirigido por Anselmo Duarte e baseado na peça de Dias Gomes, O Pagador de Promessas acompanha Zé do Burro, um homem simples que atravessa Salvador carregando uma cruz para cumprir uma promessa feita a Iansã.

Glória interpreta Rosa, mulher de Zé, em uma história que coloca em choque religiosidade popular, intolerância e instituições. O longa ganhou a Palma de Ouro em Cannes e chegou a ser indicado ao Oscar de filme estrangeiro, consolidando internacionalmente uma produção brasileira que já havia se destacado pela força de seu elenco e pela direção de Duarte.

Para uma atriz em seu primeiro trabalho cinematográfico, era uma estreia difícil de superar.

Máscara da Traição (1969)

Sete anos depois, Glória voltou ao cinema em Máscara da Traição, dirigido por Roberto Farias. No filme, interpreta Cristina, em uma história policial que envolve um casal e o planejamento de um assalto.

O trabalho representa uma mudança significativa em relação ao drama religioso de O Pagador de Promessas e evidencia uma característica que acompanharia a atriz durante toda a carreira: a disposição para transitar por gêneros e registros diferentes.

Independência ou Morte (1972)

Em Independência ou Morte, de Carlos Coimbra, Glória assumiu um papel histórico: a Marquesa de Santos, figura central na vida de Dom Pedro I, interpretado por Tarcísio Meira.

A produção apostava em uma reconstrução grandiosa do processo de Independência do Brasil e reunia um elenco de grandes nomes do cinema e da televisão. A presença de Glória ao lado de Tarcísio também reforçava uma parceria artística que já havia se tornado uma das mais conhecidas do país.

O Descarte (1973)

Um ano depois, Glória protagonizou O Descarte, novamente em uma chave bastante diferente. No filme, dirigido por Anselmo Duarte, ela interpreta Cláudia Land.

O longa rendeu à atriz reconhecimento específico por seu trabalho no cinema. Registros de sua trajetória apontam que ela recebeu, em 1974, o Diploma de Mérito dos Diários Associados de Melhor Atriz em Cinema pela atuação no filme.

É um dos títulos que ajudam a compreender que, apesar de sua enorme popularidade televisiva, Glória também construiu uma trajetória de reconhecimento no cinema.

O Caçador de Esmeraldas (1979)

Na aventura histórica O Caçador de Esmeraldas, dirigida por Oswaldo de Oliveira, Glória interpretou Maria Betim.

O filme transporta a atriz para uma narrativa de época ambientada no Brasil colonial, acompanhando a expedição de bandeirantes em busca de riquezas. O trabalho integra uma fase em que Glória já era uma estrela consolidada da televisão, mas continuava encontrando espaço para o cinema.

Se Eu Fosse Você (2006)

Depois de um longo intervalo longe das telas, Glória Menezes voltou ao cinema em Se Eu Fosse Você, de Daniel Filho.

Na comédia protagonizada por Tony Ramos e Glória Pires, ela interpreta Vivinha, mãe da personagem de Glória Pires. O filme se tornou um grande sucesso popular e apresentou a atriz a uma geração que talvez a conhecesse principalmente pela televisão.

A produção também representou uma retomada importante de sua relação com o cinema. Seu último trabalho cinematográfico veio em um momento bastante diferente daquele de sua estreia: mais de quatro décadas separavam Se Eu Fosse Você de O Pagador de Promessas.