De “Beleza Americana” a “Anora”, Caio Pimenta elege os melhores vencedores de Roteiro Original do Oscar entre 2000 a 2025.
25. CRASH – NO LIMITE
O pior vencedor de Melhor Roteiro Original dos últimos 25 anos é o pior entre todos das categorias de roteiro unificadas.
“Crash – No Limite” venceu o prêmio na cerimônia de 2006. O roteiro de Paul Haggis e Bobby Moresco busca criar um mosaico sobre a intolerância nos EUA a partir de uma série de atitudes e personagens preconceituosos. Tudo, porém, fica pelo caminho com os personagens e os próprios temas que busca trabalhar, servindo apenas de exemplos e nunca retratados com a devida profundidade que cada um deles deveria.
E pensar que naquele ano havia o excelente “Boa Noite, Boa Sorte”, um drama jornalístico contundente sobre a liberdade de expressão e o papel da imprensa em períodos sombrios para a democracia, e ainda o cínico “Match Point”, um dos melhores trabalhos do Woody Allen naquele período.
24. BIRDMAN
“Birdman” fica na penúltima posição desta lista. O roteiro assinado por quatro nomes, incluindo o diretor Alejandro González Iñarritu, adota uma postura agressiva e incisiva para criticar toda a indústria do entretenimento dos EUA. De Hollywood aos críticos, não deveria ficar pedra sobre pedra, mas, na maior parte do tempo, não passa de arrogância e presunção atirando em alvos fáceis sem aprofundar mesmo aquilo que deseja.
Para não dizer que é um desastre, acho as sacadas com referências à carreira do Michael Keaton muito boas. Mas só. A sensação que tenho é que “Birdman” foi um surto da Academia contra o domínio da Marvel na época nos cinemas mundiais e quiseram dar esta cutucada. Esta pose crítica, entretanto, não durou muito tempo, afinal, três anos depois lá estava “Pantera Negra” indicado a Melhor Filme. Fora que a zoeira de “O Estúdio” me parece bem mais direcionada do que toda a raiva do Iñarritu trazida aqui.
23. GREEN BOOK
Para além das polêmicas sobre ficcionalização do relacionamento dos dois protagonistas na vida real, “Green Book” é daquela escola de roteiros que busca trazer os males do racismo da forma mais didática para os brancos. Se não chega a ser equivocado como “Histórias Cruzadas”, o trabalho de Peter Farrelly, Brian Currie e Nick Vallelonga adota sempre uma linha confortável de abordar a temática racial, apostando mais na amizade e desenvolvimento dos personagens centrais para evitar tensões maiores.
Levando em consideração que “Fé Corrompida” não tinha a menor chance de vitória em 2019, o melhor dos indicados ali era “A Favorita” – tenho sérias restrições a “Roma” e ao roteiro do Alfonso Cuáron. “Green Book” acabou vencendo muito mais pelo momento.
22. BELFAST
Alguém lembra que “Belfast” existiu? E ganhou Melhor Roteiro Original em 2022?
A Academia devia uma estatueta após tantas tentativas do Kenneth Branagh e ela veio por este roteiro no limite do burocrático. Trabalhando as memórias da infância do autor ao lado da amável família, o roteiro nunca parece se arriscar realmente a se aprofundar nas relações e quem de fato eram aquelas pessoas, ficando a versão oficial e agradável dos fatos. Está tudo ali e não está ao mesmo tempo.
Este resultado é ainda pior quando lembramos que a temporada de 2022 oferecia a possibilidade de premiar finalmente o Paul Thomas Anderson com “Licorice Pizza”.
21. BELEZA AMERICANA
“Beleza Americana” envelhece como vinho com o passar do tempo. Não que o roteiro do Alan Ball seja ruim como um todo ao satirizar a suposta perfeição do modo de vida norte-americano com a relação desgastada passiva-agressiva do casal protagonista sendo excelente. O problema é quando precisa ampliar para os demais personagens, especialmente, os mais jovens que se tornam meras caricaturas que o roteiro jamais consegue acessar.
Para você ver como é a questão do hype é algo extremamente momentâneo, “Beleza Americana” concorria contra “Magnólia”, este sim um mosaico de personagens excelente, “O Sexto Sentido”, um suspense simples na forma, mas, construído à perfeição pelo M. Night Shyamalan, e “Quero Ser John Malkovich” com toda a loucura e criatividade do Charlie Kaufman. Naquela mesma temporada, “Matrix”, das irmãs Wachowski, foi esnobado.
De todos estes cinco filmes, hoje, o menos lembrado é justamente o ganhador.
20. O DISCURSO DO REI
Estigmatizado de forma justa por estar longe de ser dos ganhadores de Melhor Filme mais lembrados, “O Discurso do Rei” pode ter vários defeitos, mas, não considero que o roteiro do David Seidler seja um deles. Longe de ser brilhante, claro, mas, acho que faz o bé-a-bá do filme histórico ainda com boas pitadas de humor.
E o texto ajuda muito o trio de protagonistas – Colin Firth, Helena Bonham Carter e Geoffrey Rush – a terem os melhores momentos de “O Discurso do Rei”.
O problema ali é outro e atende pelo nome do diretor Tom Hooper.
19. MILK
Já que estamos na linha do convencional, chegou a hora de falar de “Milk”. O Dustin Lance Black consegue apresentar bem a luta do histórico político californiano e da movimentação de apoio aos direitos LGBTQIAPN+ e da resistência a ele na época, Em certos momentos, o roteiro insinua que pode ser mais intimista, mas, hesita. Sorte ter a presença de Sean Penn em uma das atuações mais surpreendentes da carreira.
Passa longe de ser o meu favorito como deixa clara esta 19a posição, mas, não é uma escolha que acho absurda por parte da Academia. As melhores opções ali eram “Na Mira do Chefe”, do Martin McDonagh, e o excelente roteiro de “Wall-E”. Ainda assim, não vejo absolutamente nada de tão especiais assim em ambos para ficar revoltado com a escolha.
18. PEQUENA MISS SUNSHINE
Pode ser uma coisa minha admito, mas, passo longe de ser dos maiores fãs de “Pequena Miss Sunshine”. Ainda assim, vejo a capacidade de construir personagens com tamanha personalidade e cada um sendo bem desenvolvido com seus respectivos momentos de destaque, alternando drama e humor de forma muito dosada, como o maior mérito do Michael Arndt.
Isso fica nítido na maneira como o elenco consegue explorar todas as nuances dos personagens. Levando ainda em consideração que todos os outros indicados possuem maiores ativos nos respectivos filmes do que seus roteiros, acho um resultado ok está vitória de “Pequena Miss Sunshine”.
17. DJANGO LIVRE
A próxima escolha talvez choque um pouco vocês. Quem esperava ver Quentin Tarantino no TOP 5, sinto muito decepcionar.
“Django Livre” sempre soou para mim como uma repetição daquilo que deu certo dentro da carreira do diretor/roteirista. Afinal, “Bastardos Inglórios” é a mais original das obras de Tarantino com um jogo divertido de uma releitura da Segunda Guerra Mundial. O ganhador de 2013 chega com uma missão parecida em relação à questão da escravidão nos EUA, adaptando-se ao western.
Claro que há sacadas brilhantes e personagens memoráveis, especialmente, os interpretados por Samuel L. Jackson e Leonardo DiCaprio, mas, ainda assim, fica aquele gostinho de dejá-vu. Meu favorito daquela temporada era o Mark Boal em seu registro investigativo, jornalístico se casando com a ficção no corajoso “A Hora Mais Escura”.
16. BELA VINGANÇA
“Bela Vingança” fica na 16a colocação do meu ranking. Sim, o final é bagunçado, quase estragando todo o filme, porém, o roteiro da Emerald Fennell ecoa como um grito de desespero ao machismo. Isso, entretanto, feito com muito deboche e sarcasmo.
Este é um caso curioso de um filme que, mesmo quando erra e se precipita, o faz como sendo algo fruto de seu tempo, da urgência de um discurso entalado por tanto tempo que, quando sai, enfrenta dificuldades naturais. Fora que “Bela Vingança” quando acerta, especialmente na primeira parte, é algo muito poderoso e com uma mira excelente. Gosto demais mesmo reconhecendo todos os seus problemas.
15. ASSASSINATO EM GOSFORD PARK
Para fechar esta primeira parte da lista, aparece o Julian Fellowes com “Assassinato em Gosford Park”. Poderia ser mais um drama de época britânico executado com a precisão e elegância típica do país, mas, o humor fino e as observações inteligentes e cirúrgicas sobre aquele universo sufocante das classes sociais britânicas elevam a qualidade do roteiro.
Isso quando se encontra com a direção de Robert Altman e um elenco tão talentoso somente pode se tornar este grande filme. Naquela temporada, havia o ótimo roteiro do Christopher Nolan de “Amnésia” e o Wes Anderson avançando no seu estilo com “Os Excêntricos Tenenbaums”, mas, não trocaria a vitória de “Gosford Park”.





















