Se ser artista é contrariar o tempo, quem melhor para falar sobre isso do que Francis Ford Coppola? É tentador não jogar a palavra “megalomaníaco” em um texto sobre “Megalópolis”. Sim, é uma aliteração irresistível, mas que não arranha nem a superfície da reflexão de Coppola sobre o próprio cinema e, como consequência, o tempo.
“Megalópolis” chega carregado pelo peso da finitude. A exibição em Cannes, logo após as mortes da esposa, Eleanor Coppola, e do mentor, Roger Corman, parece fincar ainda mais a reflexão que o diretor joga nos ombros do arquiteto vivido por Adam Driver. O pai de Sofia não deixa espaço para que o espectador sinta falta de suas garras de autor: o teaser que mostrou as primeiras imagens em movimento do filme, sem contexto algum (nota da autora: isso é ótimo), é tirado da abertura dessa fábula – categoria essa que Coppola faz questão de enfatizar ao colocá-la junto ao nome do filme.
Nesse cenário, o personagem de Driver parece um ser pequeno frente ao progresso e ao próprio destino em uma sociedade que é espelho do Império Romano. Essa pequenez não chega sem um pouco de ironia, visto que o ator tem uma carreira marcada por personagens que ganham tom desengonçado ou imponente pelo tamanho dele.
Em “Megalópolis”, a perspectiva é aliada. Idealizado por Coppola ao longo de 40 anos, o filme é espaço para o exercício de um autor que não dá sinais de cansaço ao desafiar a indústria mais uma vez. O velho Francis é o mesmo jovem que dava espaço entre um discurso sobre acreditar na América e a inevitável solidão da tragédia em seu filme mais famoso e também o mesmo cineasta um pouco calejado que levou às últimas consequências a realização de um épico sobre a guerra do Vietnã.
O fôlego de quem brinca com as cores da bandeira dos Estados Unidos para inebriar o espectador se mantém. É nesse fôlego que se sustenta o Coliseu moderno que ele monta para falar da embriaguez do sucesso e da falta de limites para quem tem ambição. E, nas mãos de um mestre, um elenco que soa aleatório ao ouvido mais desavisado parece captar perfeitamente a aura carregada de decadência. O destaque fica por conta de Aubrey Plaza, que cai como uma luva no papel da femme fatale e por vezes lembra a Madonna da fase Bedtime Stories, ou Elizabeth Berkeley em Showgirls – com direito a look VersaYce!
E a tal surpresa em Cannes, hein?
Sei que você que chegou até aqui quer que eu fale da tão discutida aparição de uma pessoa nos palcos das salas que exibiram o filme em Cannes. Dois meses após o ocorrido, ela ainda soa fresca na memória como um susto que virou mais fonte de admiração por um realizador que segue no intuito de provocar.
Em uma trama ligada no 220v e que reflete a ironia de um mundo sedento por heróis, “Megalópolis” por vezes parece o grito de um realizador que sempre brigou para não ser cooptado. Colocar uma interação surpresa e que parece impossível de ser replicada em outras sessões futuras do filme é também parte de uma reflexão sobre uma arte que ficou dependente de atrações.
Em um filme que lança mão de uma piada tão autorreferente que só tem graça porque vem de onde vem, as chances de cair de cara no chão são grandes. E fato é que “Megalópolis” talvez penda mais para a rejeição. Mas, em tempos de um cinema que fala de loucura e ambição com artifícios tão sanitizados, que delícia é ver alguém pirando tanto na imagem e nas possibilidades da arte. Ainda que o tempo passe também para Coppola, os deuses do cinema já se encarregaram de sua imortalidade.













