Cenário típico: Copacabana, bairro de classe média da Zona Sul do Rio de Janeiro, entre a praia mais famosa do mundo e a favela. Um contraste característico da Cidade Maravilhosa, que pode ser usado para fomentar uma certa histeria pequeno-burguesa em torno da segurança pública. E basta um olhar de relance para “Vitória” para entendermos que é isso o que está em jogo aqui, embora o filme de Andrucha Waddington se esforce ao máximo para parecer “isentão”.
Assim, a história de Dona Nina (Fernanda Montenegro), que, cansada da violência corriqueira na frente do apartamento, decide registrar tudo em sua câmera de vídeo, vem embalada para agradar aos dois lados da disputa política. Antes, no entanto, é preciso tratar do que está no cerne do filme.
Fernandona, bisbilhotando através das persianas, é uma espécie de versão nonagenária do típico voyeur de Palmieri. A diferença é que o mundo de perversão que ela vislumbra, esse mundo regado a canções como “Dança da Motinha” (a história se passa em 2005), não é aquele da perversão sexual e das fantasias tórridas — apesar dos curtos shorts jeans usados pelas “tchutchucas” do morro. Não, trata-se apenas de uma favela, espaço que a plateia do filme não se permite acessar, e que aqui ganha um caráter espetacular com base num imaginário batido o bastante para que o público possa bradar na sala de cinema: “É! É assim mesmo!”
Ao mesmo tempo, como forma de acenar a um certo progressismo de fachada, o filme se utiliza dos condôminos do prédio de Dona Nina, que lhe servem de antagonistas nas cenas em que aparecem, para ocupar o papel de reaças de primeira. Se isso fosse um filme de Kléber Mendonça Filho, eles provavelmente seriam assinantes da Veja.
Há também a presença de Linn da Quebrada como uma das vizinhas, figura disruptiva em meio à brancura normativa das reuniões de condomínio. E há, finalmente, a criança favelada com quem Dona Nina trava uma amizade, e cujo arco trágico sintetiza bem o problema deste filme: o lugar-comum que ele ocupa no que tange à representação de um certo imaginário do favela movie.
Claro que nem Dona Nina nem ninguém merece ter marcas de bala nas paredes. Mas que essa seja a história da moradora de Copacabana que vê a violência florescer onde antes era pura beleza idílica, e não de uma das milhares de mulheres da favela dividindo espaço com fuzis e bocas-de-fumo, diz muito sobre o contrato que se espera estabelecer com o público.
Ou seja: “Vitória” se coloca na posição estratégica perfeita para ser consumido por um público de classe média frequentador de shopping centers. Dito e feito: a sessão no Shopping Boulevard, em Vila Isabel, bairro de classe média que abriga o Morro do Borel e o Morro dos Macacos, estava tomada pelo público branco de terceira idade.
Não é inusitado que os moleques dos morros desçam para o shopping, usando shorts e chinelos de dedo, para desgosto dos consumidores bem vestidos. A presença de Fernandona no papel principal, portanto, legitima uma certa histeria da população de bem que frequenta o ambiente agradável e climatizado desse “boulevard”, que, de público, não tem nada.
Até porque as ações de Nina, sob a efígie da justiça ante a impunidade, podem ser facilmente aplaudidas por qualquer um, inclusive pelas vovozinhas golpistas que detonaram o Palácio do Planalto. E se há uma unanimidade no país, ela é Fernanda Montenegro. Não se trata de dizer que a atriz ou que Dona Nina são neofascistas, mas sim que o filme, bebendo de um imaginário francamente conservador sobre a favela, dialoga amigavelmente com esse público.
Se o longa acomoda Linn da Quebrada, é apenas em prol de um suposto apartidarismo — mesmo que faça questão de mostrar o nome morto da personagem em seu RG, sem nenhum motivo específico. Trata-se de criar uma salvaguarda das mais cínicas para si, enquanto tenta não incomodar demais o seu público-alvo.
E assim “Vitória” estabelece sua relação com o Outro, ou seja, tudo o que está fora de sua plateia branca. Exemplo da dicotomia: dentro do apartamento de Nina (que passará a se chamar Vitória apenas no final do filme, tornando o título do longa confuso na maior parte da projeção), reina o bom gosto, com LPs de Milton Nascimento e Nelson Cavaquinho. Mas, assim que abre sua janela, a velhinha precisa lidar com a inconveniência do batidão do funk e do batuque do pagode romântico. Somos nós contra eles.
Não se enganem com o suposto apartidarismo da empreitada, com a desculpa esfarrapada do “mas é uma história real”, com o bom-mocismo do repórter preto que ajuda Dona Nina ou da pobre criança favelada que serve apenas para ser corrompida pelo crime. Este é um filme reaça, e que sequer se dá ao trabalho de executar sua estrutura de thriller corretamente. O clímax, por exemplo, com sua busca desenfreada pelo paradeiro de Nina, é uma bagunça: já sabemos que ela está longe de casa durante a operação, de modo a não correr perigo iminente. E, de todo modo, qual era o risco que ela correria estando em casa no momento da invasão policial? O de uma bala perdida? Esse ela já vinha correndo todos os dias. Etc., etc.
E o reacionarismo do projeto acaba tomando ares de comédia involuntária com algumas das decisões histriônicas de Fernanda Montenegro. Por exemplo, quando se abraça à sua sacola de fitas de vídeo, evidências coletadas da sua janela, para protegê-las do antro de corrupção policial ao seu redor. Ou quando, enquanto registra a imagem de uma criança ingerindo cocaína, começa a exclamar em off: “É droga! É droga!” Não que uma criança usando pó não seja chocante; é só que a imagem é usada apenas para alimentar a dicotomia caricata entre a velhinha de bem e a perversão do morro.
Por isso, as tentativas do longa de complicar esse retrato soam todas tão cínicas. Não há nada pior que aturar um reaça dissimulado.















