O mais recente filme dos estúdios Disney, Branca de Neve, deixa bastante a desejar, oferecendo uma experiência decepcionante que parece carecer de consistência em vários aspectos. Desde o início, fica claro que a produção não soube equilibrar sua homenagem ao clássico, com uma série de escolhas que mais confundem do que encantam. A trama, que tem grande potencial, é ofuscada por arcos mal explorados e uma direção que não consegue tirar proveito do material que tem à disposição.
Uma das primeiras decisões questionáveis do filme é a escolha de apresentar a protagonista com seu traje tradicional de Branca de Neve logo no início. O que poderia ser uma revelação interessante ou até uma construção mais gradual da personagem se torna um simples “fan service”, que, a meu ver, desvaloriza a narrativa. Até em cenas de ação, a personagem utiliza o famoso figurino, o que faz com que ela se destoe cada vez mais dos outros personagens. Infelizmente, a produção não soube explorar isso de forma inteligente.
Além disso, os arcos dos outros personagens deixam muito a desejar. O Caçador, um personagem essencial no conto original, é reduzido a minutos de tela e depois desaparece sem maior explicação. O Príncipe, uma figura central na história, também sofre uma transformação estranha, sendo retratado como uma espécie de “Robin Hood”, sem a profundidade necessária. Por mais que a Disney venha tentando adaptar, nos últimos tempos, seus contos em live-action de forma mais moderna, aqui as mudanças não parecem adicionar nada de relevante à história, e a falta de desenvolvimento dessas figuras torna o filme ainda mais raso.
A escolha de Gal Gadot para o papel da Rainha Má é uma das maiores decepções do filme. Em diversos momentos, como na clássica citação: “Espelho, espelho meu”, a atriz não consegue transmitir a imponência e a malícia que se espera de uma das vilãs mais icônicas dos contos de fada. Em algumas cenas, parece que a atriz nem se esforça para entregar uma compreensão mais profunda da personagem, o que prejudica a construção do antagonismo necessário para impulsionar a história.
Desde o início, quando foi anunciada a escalação de Rachel Zegler para o papel principal, muitos fãs ficaram insatisfeitos por a atriz não ter a fisionomia padrão da personagem. Ademais, a intérprete possui ascendência latina, o que faz com que ela se diferencie bastante da protagonista, conhecida por ter a pele muito branca no conto.
Mas, nesse quesito, a Disney acertou em cheio: Rachel Zegler entrega uma performance bastante cativante. Ela consegue transmitir com muito êxito a doçura que esperamos de uma Branca de Neve, ao mesmo tempo em que a personagem se empodera em cenas de julgamento e superação. Zegler se destaca ao trazer uma beleza que foge dos estereótipos das princesas, oferecendo uma versão mais autêntica e contemporânea da personagem. Ela é o grande ponto positivo do filme, sendo a razão pela qual ainda conseguimos nos conectar com a fábula.
A direção do filme, assinada por Marc Webb, me pareceu excessivamente teatral. Embora a obra seja um filme musical e Hollywood persista neste movimento de trazer a atmosfera dos musicais clássicos para seus novos filmes nos últimos anos, ainda assim, é possível aplicar uma linguagem cinematográfica nas coreografias, como vemos, por exemplo, em La La Land. Apesar de os números dançantes terem seu charme, não há uma transformação audiovisual convincente, ainda mais com tantos figurinos coloridos. Quando os créditos subiram, senti como se tivesse assistido a uma peça da Broadway gravada, em vez de uma obra cinematográfica que aproveitasse as possibilidades da comunicação com o cinema.
Branca de Neve não consegue cumprir as expectativas criadas por sua premissa e seu elenco. A falta de profundidade nos arcos dos personagens, a direção que não soube explorar a parte musical e a fraca interpretação de Gal Gadot tornam o filme uma experiência frustrante. No entanto, Rachel Zegler brilha como a protagonista e entrega uma performance que é o único alicerce que mantém o filme minimamente interessante. Mesmo assim, a obra se perde em suas próprias escolhas criativas e não consegue atingir a grandeza que o conto clássico merece.














