Sérgio Andrade comandou três dos principais longas-metragens dos últimos 20 anos do cinema amazonense – “A Floresta de Jonathas”, “Antes o Tempo não Acabava” e “A Terra Negra dos Kawá”. Com obras selecionadas para os tradicionais festivais de Berlim e Brasília, o diretor e roteirista é um dos principais representantes deste terceiro ciclo do audiovisual do Estado após a era de Silvino Santos e do cineclubismo da década de 1960.
Após um período de hiato realizando curtas e documentário, Sérgio retorna aos longas de ficção em 2025. “Iluminação” é o novo projeto do cineasta com gravações marcadas para agosto deste ano. O filme, porém, será realizado em circunstâncias excepcionais: o cineasta atravessa um delicado problema de saúde e não poderá comparecer presencialmente nas filmagens previstas para ocorrerem em Presidente Figueiredo, Iranduba, nas ruínas de Paricatuba e em partes de Manaus.
Para esta missão, Sérgio contará com o apoio de dois grandes amigos e diretores com longa trajetória no audiovisual amazonense: Flávia Abtibol e Zeudi Souza estarão à frente no set de filmagem ao lado de uma equipe estimada em, pelo menos, 50 profissionais. Já o colega poderá acompanhar o trabalho de casa a partir de equipamentos que vão transmitir tudo o que acontece em tempo real.
CINEMA DE ÉPOCA AMAZONENSE
Depois de trabalhos ambientados nos dias atuais abordando questões indígenas e da situação urbana de Manaus, Sérgio Andrade realiza em “Iluminação” sua primeira obra de época. A trama se passa em 1908, período em que a capital amazonense vivia os últimos momentos do auge do ciclo da borracha que enriqueceu de forma nunca mais vista toda a região.
O protagonista é Youssou (Amaury Lorenzo), um engenheiro elétrico, filho de um inglês com uma africana, que se une a Hermídia (Miramaia), uma indígena, em uma jornada épica pela floresta amazônica. Seu objetivo é concluir a conexão elétrica da cidade, mas no caminho, eles terão que enfrentar fenômenos sobrenaturais, como o espírito do Jurupari, e um misterioso ser metamorfo, Cattus (Daniel Moss).
De acordo com a produção, a obra não apenas aborda o desenvolvimento da eletrificação, mas também toca na luta contra as maldições ancestrais da Amazônia, com o intuito de iluminar não apenas os caminhos físicos, mas também libertar os espíritos da escuridão. “Não queremos mostrar uma Amazônia do atraso, mas, sim do desenvolvimento, do avanço, seja da cultura, da natureza. Este novo trabalho é um filme que converge com as obras anteriores do Sérgio, seja na relação com a floresta e no aspecto territorial. Ele é um cineasta muito coerente com suas obras na forma de retratar a Amazônia”, declarou Abtibol.
ELENCO COM DESTAQUE NACIONAL E ESTREANTES AMAZONENSES
Conhecido no Brasil inteiro pelo trabalho na novela Terra e Paixão, da TV Globo, como Ramiro, Amaury Lorenzo será o protagonista de “Iluminação”. O mineiro de Congonhas encontra no Amazonas seu primeiro papel como destaque principal de um elenco para um projeto para as telonas – em 2025, ele estrelou o telefilme “Vítimas do Dia”, lançado diretamente na Globoplay.
Em coletiva para a imprensa, Zeudi Souza revelou que Amaury estava nos planos da equipe de “Iluminação” desde o início do projeto, mas, o convite oficial veio apenas no Festival Folclórico de Parintins 2025. O ator, entretanto, quase não conseguiu acertar as agendas para conciliar com as gravações no Amazonas. “Estou escalado para a nova novela das 9 e, quando você está em um projeto como este, fica um ano inteiro gravando direto. Meu personagem, porém, ficará três semanas sumido, o que acabou abrindo este espaço nos meus horários. Será a época em que estarei fazendo o longa”, declarou Amaury.
Miramaia e Daniel Moss encaram desafios semelhantes: estrear nos cinemas logo em um longa-metragem. De origem tikuna, ela foi descoberta durante oficinas de cinema realizada pela equipe do último documentário dirigido por Flávia Abtibol no Parque das Tribos, o pioneiro bairro indígena da capital amazonense. “Dois meses depois que fiz esta atividade, a Flávia retornou à comunidade e, de repente, me convidou para fazer o filme. Foi um susto, mas, fiquei feliz e muito grata”, disse.
O mundo do cinema estava na contramão do caminho profissional de Daniel Moss: afinal, ele já foi dono do Local Hostel, um dos mais conhecidos do setor em Manaus, e ainda era instrutor de yoga. Foi a partir da amizade de Sérgio que o convite inesperado surgiu para fazer “Iluminação”. “Cai no projeto de paraquedas. Foi um convite pessoal do Sérgio. Ele disse que já me imaginava participando desde quando escrevia. Aos poucos, ele foi me convencendo e decidi me jogar com coragem e preparação que a equipe proporcionou”, revelou.
O elenco ainda conta com participações dos atores amazonenses Adanilo, Jocê Mendes e Ismael Farias. Uma curiosidade é que Zeudi Souza revelou que convites chegaram a ser realizados para Matheus Nachtergaele e Renata Sorrah, mas, por questão de agenda, a participação de ambos não foi concretizada no filme. “Iluminação” será feito com recursos da Lei Paulo Gustavo e ainda não tem data para chegar aos cinemas brasileiros.
















