Adanilo e Rosa Malagueta representaram o elenco amazonense de “O Último Azul” no Festival de Berlim 2025.

O drama dirigido por Gabriel Mascaro na disputa pelo prêmio máximo do Festival de Berlim foi gravado em 2023 nas cidades de Manaus, Manacapuru e Novo Airão, contando com grandes nomes do audiovisual local, além de rostos nacionalmente conhecidos como Rodrigo Santoro e Denise Weinberg.

Em conversa com a Natália Bocanera, a dupla falou do que representa para os artistas amazonenses e para o próprio Estado todo este espaço no filme.

Cine Set/Coletivo Crítico – Como atores amazonenses, de que forma vocês enxergam a representatividade local em O Último Azul e, de modo geral, no cinema brasileiro?

Adanilo – Há pontos importantes de serem demarcados. Desde A Festa da Menina Morta e A Febre, não havia um filme como este que nos deixasse protagonizar as nossas próprias histórias. Aqui, temos um elenco com 19, 20 atores amazonenses, o que é algo muito grande. Isso é importante para demarcar este território como protagonistas de nossas existências. Esta é a beleza da arte: o Gabriel vem com a história, e a gente chega com a propriedade do que é a nossa vida para dentro disso.

Rosa Malagueta – Das nossas raízes, do que nós somos. Somos o Brasil dentro destes vários ‘Brasis’. São muitas linguagens, mas temos um diferencial por estar ali na floresta, longe de tudo. Quando isso chega para a gente, o mundo conhecerá quem somos. Hoje estamos aqui em Berlim, e amanhã circularemos por muitos e muitos eventos ao redor do mundo. O planeta vai conhecer a Amazônia, nossos rostos. Será difícil nos esquecer.

Cine Set/Coletivo Crítico – É uma história que poderia ser contada em qualquer lugar do Brasil, mas a escolha pela Amazônia traz um peso importante.

Adanilo – Sim. Estava falando com o Rodrigo (Santoro) que a Amazônia acaba virando um personagem. É um lugar muito forte; você não consegue escapar. Fizemos juntos Castanho, um curta que dirigi e escrevi, e ao realizá-lo, eu queria muito sair do maravilhamento amazônico. A pretensão não era fazer algo belo. Acabou que não consegui (risos), mas tudo bem. Por ser de lá, posso brincar com esses recursos, mas é difícil filmar e não pensar nesta exuberância colossal de um templo a céu aberto.

Cine Set/Coletivo Crítico – Mas o filme tem uma pegada meio assustadora com os assuntos que propõe, não?

Adanilo – Sim, meio Black Mirror, pois é inevitável, quando se fala de distopia, não pensar na série. Porém, O Último Azul traz um contraponto de ser muito doce, leve e sereno. Isso foi o que mais impressionou no filme; é como navegar em um rio calmo.

Rosa Malagueta – Apesar de ser um filme triste, ele consegue, ao mesmo tempo, te emocionar e oferecer uma calmaria. Senti isso quando assisti pela primeira vez aqui em Berlim.

Adanilo – Esta sensação acho que tem a ver com as escolhas dos personagens.

Rosa Malagueta – Sim, ela passa driblando todo mundo para conseguir voar – isso mesmo sem asas. No fim das contas, somos dois caboclos da Amazônia neste grandioso festival, um dos maiores do mundo. Para mim, uma mulher de 57 anos com 40 anos de carreira, é surreal.