É difícil não gostar de Guillermo Del Toro. Falo do del Toro pessoa, não do diretor. Sim, porque cada entrevista e declaração parece revelar um homem afável, de fala lúcida e calorosa, com aquela sua voz rouca adornada pelo sotaque mexicano que, em nosso caso, traz o sujeito para perto.

Já o Del Toro diretor é mais complicado. Sem meias palavras, o sujeito é brega para burro, o que definitivamente pode ser uma questão para alguns. Ele não resiste a um pôr-do-sol iluminando tudo em contraluz, muito menos aos violinos chorosos e aliciantes na trilha.

A questão é que isso por si só está longe de ser um problema. Ele é, afinal, um melodramático — e nós latinos entendemos uma coisa ou outra de melodrama: trata-se de um sistema que trabalha única e exclusivamente a partir da reiteração. Não basta que um personagem nos diga em off que está prestes a “atravessar para um novo mundo”; ele deve também passar pelo batente de uma porta enquanto a câmera espelha seu movimento, atravessando a parede para acompanhá-lo.

Da mesma forma, não basta que Victor Frankenstein (Oscar Isaac, em uma performance histriônica e levemente irritante) seja um anjo blasfemo da morte. Não: as vielas por onde ele pisa também devem estar encharcadas de sangue, assim como sua torre. Suas luvas devem ser vermelhas e as portas de seu castelo, também. E sua mãe, memória traumática em sua vida, deve ser apresentada usando um esvoaçante véu vermelho.

Acho tudo isso ótimo — culpe o sangue latino, se quiser. Del Toro, que tem o olho de uma fashionista, se deleita com o figurino e o design de produção de seu mundo. A torre de Frankenstein é um petardo gótico. Qualquer um dos vestidos usados aqui por Mia Goth deixaria os críticos da Fashion Week ouriçados. Definitivamente, não é esse o problema de del Toro.

Seu pecado consiste simplesmente em não ser um roteirista dos mais inspirados. Uma coisa é ser óbvio, reiterativo. Outra coisa é achar que, só porque seus personagens se expressam por meio da pompa vitoriana, seus discursos incessantes deixam de ser o que são: meras platitudes.

Como suas criações são bem básicas, cabe aos atores a tarefa de injetar alguma vida no drama. Quando o elenco falha, o resultado é um melodrama aborrecido como “A Colina Escarlate”. “Frankenstein” já começa com uma vantagem em relação àquela primeira incursão pelo gótico vitoriano: é que o sci-fi filosófico e sobrenatural de Mary Shelley é uma história bem mais interessante do que qualquer que fosse a pataquada sobre amores mórbidos daquele primeiro filme.

Infelizmente, o elenco desta nova produção é irregular. Oscar Isaac, já dissemos, mergulha fundo demais no histrionismo. Como Del Toro não dá o menor espaço para qualquer senso de diversão na loucura do médico, o resultado são olhos esbugalhados e um sotaque britânico almofadinhas — e só. Mia Goth, coitada, não tem muito o que fazer nas mãos de seu diretor, restrita ao papel da pura e amorosa Elizabeth. Resta-lhe apenas seguir os desígnios do roteiro que a tornam mero contraponto conceitual à morbidez do cientista louco.

Nossa sorte é que Jacob Elordi, o monstro e o coração do filme, está fenomenal. Seus tremeliques nas mãos (tão esguias, tão elegantes, com a graça de um bailarino), sua postura tortuosa, sua voz sussurrante e cavernosa — fisicamente, é uma performance formidável. Mas Elordi vai além: ele consegue, sabe-se lá como, vender todo o drama de pai e filho, criador e criatura, que está no cerne da trama. Está tudo nos olhos.

Del Toro, ao mesmo tempo que tem impulsos bombásticos e operáticos, se deixa levar por uma certa pretensão classuda que acaba por anular o espetáculo — torna-o insípido. Esse sempre foi seu mal. Mas com Elordi, o melodrama do mexicano ganha vida — como se atingido em cheio por um raio durante uma tempestade infernal.