Enterre Seus Mortos é um filme que confronta o espectador desde os primeiros minutos. Mais do que contar uma história, ele propõe uma experiência sensorial de desconforto, um mergulho em um Brasil devastado, onde a morte é literal e simbólica. A narrativa acompanha personagens que vivem cercados por ruínas, tanto físicas quanto emocionais, e tenta encontrar sentido em meio ao colapso. Há um esforço visível em transformar o caos social e espiritual do país em imagem, som e corpo. O problema é que, ao tentar abordar tudo ao mesmo tempo: fé, luto, violência, desigualdade, natureza e culpa, o filme acaba se fragmentando. A densidade de temas é tanta que, em certos momentos, a mensagem se perde no excesso de símbolos e no ritmo errático da montagem. 

Ainda assim, há uma força incontestável na maneira como o diretor filma a morte. O gore, as carcaças de animais e os corpos em decomposição não aparecem como mero choque gratuito, mas como parte de um mundo que já apodreceu por dentro. Esses elementos criam uma sensação de repulsa que se mistura ao fascínio visual: é impossível desviar o olhar, mesmo quando a imagem se torna insuportável. A violência aqui é quase ritualística, uma metáfora daquilo que o país insiste em esconder debaixo da terra, mas que o filme se recusa a enterrar. 

A direção de fotografia reforça esse mal-estar com planos longos, cores secas e texturas que lembram terra, sangue e ferrugem. Tudo parece impregnado de sujeira e desespero. Há uma beleza sombria nesse universo, que em alguns momentos remete ao cinema de Glauber Rocha e a certo realismo mágico do grotesco, mas sem o mesmo equilíbrio entre forma e discurso. Quando o filme aposta no silêncio e nas imagens mais simbólicas, atinge seu ponto mais forte. Quando tenta explicar ou costurar todas as suas ideias, se torna um pouco confuso. 

As atuações contribuem para essa atmosfera tensa e quase litúrgica. Os personagens parecem mais espectros do que pessoas, presos em um tempo que não avança. É uma escolha coerente com o tom da obra, mas que também distancia o público da experiência emocional, ficamos observando a dor, mas raramente conseguimos habitá-la. 

No fim, Enterre Seus Mortos é um filme de excessos: de temas, de sensações, de imagens. Mas talvez seja justamente essa sua verdade, falar de um país que também é feito de excessos, de feridas abertas e de corpos invisibilizados. Pode não ser uma experiência fácil nem plenamente coesa, mas é um filme que provoca, incomoda e permanece. Mesmo com seus tropeços, há algo profundamente vivo em seu olhar sobre a morte.

Autor

  • Graduanda em Cinema e Audiovisual pelo Centro Universitário Belas Artes (SP), mas, acima de tudo, sou fascinada pela experiência de me perder diante da tela e explorar novas narrativas. Desde a adolescência, meus cadernos guardam anotações sobre filmes, um hábito que transformou meu olhar sobre o audiovisual em algo crítico e afetuoso.

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