É de consenso geral que a pandemia deixou marcas na vida de todos nós. Existe um antes e depois de 2020 bem pontuados na nossa memória e, em alguns casos, no nosso corpo e na nossa alma. O realizador amazonense James Bentes parte desse pensamento para tentar retratar uma juventude marcada pela Covid-19 e por uma parte de si que ficou pelo caminho.
“Antes de Hoje” acompanha três jovens que se conhecem na noite de ano novo de 2019, cheios de esperança e sem saber que aquele era o último suspiro de normalidade antes das mudanças e incertezas trazidas pela pandemia. A narrativa se passa em Iranduba, cidade natal do diretor, e utiliza a praia e os bares do beiradão como cenários, que complementam a ideia de antes e depois da juventude retratada.
Apesar de não oferecer desenvolvimento aos seus personagens, Bentes os apresenta como arquétipos da juventude. Enquanto Júlio (Yago Andrade) está saindo da adolescência e se permitindo novas experiências e sensações, a atendente do bar (Sarah Margarido) parece mais cética e pensativa sobre como gerir a vida, ao mesmo tempo em que carrega um ar estoico, muito propenso da geração Z. Em contraponto a ambos, está a personagem interpretada por Julia Kahane. Intensa, despreocupada e leve, a personagem rouba a cena e eclipsa os dois jovens que a acompanham. Uma característica que se estende a sua intérprete.
Esse magnetismo se evidencia nas tomadas feitas no carro na estrada de Açutuba. A direção de fotografia de Williams Ferry me incomoda devido a câmera tremida nos ambientes fechados, mas a solução encontrada por ele e Bentes para gravar esses jovens indo ao encontro da ilusão de liberdade é um dos grandes trunfos do filme. A alternância entre captar o carro na estrada sob a perspectiva de alguém que tenta ultrapassá-lo e internamente por meio de uma câmera Tekpix enriquece a trama. Por um lado, somos observadores dessa juventude, como um carro que anda em paralelo rumo ao mesmo destino. Por outro, a câmera interna realmente mergulha na perspectiva desses jovens e não deixa a qualidade imagética da produção cair. A escolha de colocá-la nas mãos de Kahane acentua seu carisma.
O curioso é o quanto sua ausência em cena cria um grande vazio na narrativa, o qual reflete diretamente na proposta de Bentes de falar sobre como a covid interrompeu a juventude e os sonhos. O diretor não explora o que houve com a personagem, porque prefere se debruçar sobre o casal formado por Andrade e Margarido; que nitidamente não estão em sintonia e também não tem química contracenando juntos. Se a ideia do realizador era mostrar a lacuna deixada pela amiga que se foi, ele consegue alcançar essa sensação com êxito, apesar do incômodo palpável entre eles. Mas se queria nos vender um casal que sobreviveu a pandemia, a fragilidade que há nos diálogos entre eles acentua como a falta de desenvolvimento não nos permite conhecê-los ou criar identificação sobre o que acontece com eles.
“Antes de Hoje” entra naquele grupo de filmes que busca retratar as sequelas sociais tanto coletivas quanto individuais da Covid-19, mas a produção é um tanto anêmica, uma vez que tudo é muito superficial e deixado nas entrelinhas para que o espectador compreenda esses sonhos interrompidos, que estão bem longe de serem realmente mostrados na tela para nós, ficando tudo muito no plano da ideia. Platão adoraria, mas esta crítica não; e clava o filme como uma tentativa de olhar sobre as marcas da pandemia na juventude amazonense, nunca uma concretude.













