É natural que a Floresta Amazônica seja um pano de fundo recorrente nas produções audiovisuais da região Norte. Afinal de contas, mesmo no contexto urbano, a mata ainda exerce influência sobre quem vive na região, e isso logo se torna um prato cheio para o cinema nortista explorar em diferentes abordagens. Em “Poronga”, de Rafael Rogante, o lugar que a floresta ocupa é de opressão e sufocamento, tornando-se o cenário perfeito para acentuar as tensões entre dois seringueiros que, isolados do mundo, tentam sobreviver na mata.

O curta de Rogante empresta seu nome da poronga, a lamparina de lata típica usada pelos seringueiros fixada à cabeça, e que aparece ao longe logo nos primeiros segundos, em meio à escuridão da floresta. Dois seringueiros, um mais novo e outro mais velho, se deparam com o corpo morto de outro colega na mata, que sugere algum tipo de doença no ar. Ambos oram para o corpo e seguem em frente, tentando sobreviver na floresta, enquanto o mais velho constantemente repreende fisicamente o mais novo.

A partir dessa dinâmica, Rogante vai encadeando diferentes elementos para acentuar a tensão entre a dupla e a opressão que o mais velho exerce sobre o mais novo e que a própria floresta exerce sobre os dois. A razão de aspecto 4:3 comprime os personagens em quadros mais apertados, e a trilha sonora contínua, de tons épicos, mantém no ar um certo tom de suspense. É quase um filme mudo do século XIX, referência declarada do diretor. Por isso, não há diálogos entre os dois protagonistas, a não ser os momentos em que o mais velho entoa um Pai Nosso.

À medida que o curta avança, o mais interessante em “Poronga” é o subtexto que Rogante constrói sobre homossexualidade e culpa cristã. O mais velho lança olhares ao mais novo enquanto a câmera explora de forma homoerótica o corpo do homem sem camisa, mas esses olhares são sempre seguidos por momentos de oração ou agressão. A repressão fica ainda mais simbólica pela estatueta de um Cristo sem cabeça que o mais velho carrega consigo. Finalmente, o desejo reprimido que insiste em querer sair é sufocado até virar, literalmente, febre.

Essa exploração do desejo é o ponto alto de “Poronga”, que se aproxima de uma espécie de “O Farol” (2019) em plena Amazônia: dois homens, um espaço vasto e ao mesmo tempo claustrofóbico e um desejo que não se pode nomear. É um bom retrato sobre corpo, fé e repressão, e que deixa um gosto de quero mais de como essa ideia poderia ser ampliada e levada às últimas consequências.