Não é sempre que se vê um longa começar com a cartela “Inspirado em pesquisas reais“. Mas este é “Oceânico“, um filme que impõe uma dura missão a si mesmo: tratar do nada emocionante mundo da pesquisa científica com a urgência de um thriller.
Infelizmente, o diretor Guilherme Coelho não é Michael Mann, e “Oceânico” não é “O Informante“. Na verdade, longe das vigarices da indústria tabagista, o filme se confina ao inócuo território da pesquisa com psicotrópicos. Adyr (Ana Carbatti) está interessada nos efeitos da ayahuasca no tratamento da dependência química, mas, quando interesses privados assumem a direção do hospital universitário onde trabalha, seus problemas começam.
Que problemas exatamente? Bom, sua pesquisa revolucionária acende cifrões nos olhos de todos, incluindo, o filme sugere, da milícia carioca. De fato, a coisa escala a tal ponto que lá pelas tantas Adyr e seu filho passam a sofrer ameaças de morte.
Pergunta-se: por que diabos uma cientista receberia ameaças de morte por seu trabalho sobre dependência química? Em que universo a milícia se envolveria com a direção de um hospital universitário? Quando foi que os milicianos decidiram diversificar seus investimentos para abarcar também patentes farmacêuticas?
Percebe-se que é tudo profundamente esquisito, portanto. Aos trancos e barrancos, o longa tenta abrir diferentes vias — há uma sôfrega cena envolvendo o racismo sofrido por Adyr, uma discussão acalorada sobre o falecido marido alcoólatra e assim por diante —, mas nunca acelera. E não ajuda em nada o fato do drama ser óbvio e didático: cada discussão, cada diálogo tem um doloroso caráter expositivo. Para um filme que se quer urgente, falta propulsão.
O estilo nervoso imposto por Coelho, com câmera na mão e tudo, parece uma tentativa de compensar os tropeços da sua articulação dramática, impondo-nos uma tensão que nunca se concretiza. Com um final estranhamente anticlimático, “Oceânico” revela-se a mais estranha telenovela: uma trama cheia de reviravoltas melodramáticas que tem como ponto de partida… imbróglios científicos em testes com ayahuasca. A vida acadêmica é dura, nem tanto.













