Genuinamente macabro e cínico na mesma medida, Buddy (2026) transforma a fórmula dos programas infantis em matéria para o horror. A estrutura é conhecida: um personagem bonzinho ajuda os coadjuvantes a resolver problemas cotidianos, enquanto cada situação termina com uma lição de convivência. É o modelo de Barney, de Mickey e de tantos outros personagens que fizeram da repetição uma parte fundamental do entretenimento infantil. Casper Kelly parte desse repertório para construir um universo cuja aparente inocência se torna cada vez mais difícil de sustentar.
A repetição estabelece as regras desse mundo e prepara o terreno para que suas contradições apareçam. Em vez de recorrer a uma artificialidade ostensiva para anunciar que há algo errado, Kelly deixa que o desconforto surja das próprias situações. Reconhecemos os códigos daquele programa, antecipamos suas respostas e esperamos que os conflitos sejam resolvidos conforme a cartilha habitual. Quando essa lógica começa a falhar, a familiaridade passa a trabalhar contra o espectador. O horror não depende de um elemento estranho que invade um universo aparentemente normal, mas da deformação de algo que já conhecemos.
Delaney Quinn é fundamental para sustentar essa diferença. Sua atuação é viva e cheia de personalidade, especialmente na maneira como a personagem passa da disposição para brincar ao medo de quem percebe uma ameaça sem conseguir compreender sua origem. A atriz trabalha essa mudança com o corpo, os gestos e o olhar, sem depender apenas de expressões de espanto. Sua personagem se torna os olhos e os ouvidos do espectador, reconhecendo sinais de perigo antes de conseguir organizá-los em uma explicação. A presença da menina também torna mais convincente o contraste entre as criaturas e a realidade em que estão inseridas.
Essa combinação entre humor, televisão e horror já aparecia em trabalhos anteriores de Kelly. Em The Scooby-Doo Project (1999), o especial de Halloween aproximava os personagens da animação da linguagem de A Bruxa de Blair (1999), enquanto Too Many Cooks (2014) deformava a abertura de um seriado até transformar a repetição televisiva em uma experiência inquietante. Em Buddy, o procedimento ganha uma configuração própria: a linguagem infantil deixa de ser apenas uma referência cômica e passa a organizar a experiência de horror. A mesma inclinação para o grotesco aparece em Fun Size, segmento dirigido por Kelly para V/H/S/Halloween (2025), embora aqui a relação entre a fórmula televisiva e o desconforto tenha maior peso na estrutura do filme.
Há também uma proximidade com as creepypastas sobre episódios perdidos de desenhos animados, personagens conhecidos e versões cruéis de universos aparentemente inofensivos. Como nas histórias que alimentaram o imaginário da série Channel Zero, o reconhecimento é parte do efeito: quanto mais sabemos sobre as imagens que estão diante de nós, maior pode ser o desconforto quando elas passam a obedecer a outras regras. Buddy explora esse repertório sem depender exclusivamente da surpresa. Sua força está em fazer com que a promessa de diversão se torne motivo de desconfiança.
O problema surge no terço final, quando o filme acelera para apresentar respostas a diferentes mistérios. As revelações são interessantes e preservam o gosto de Kelly pelo absurdo, mas a concentração de explicações ameaça transformar a disparidade entre as criaturas e o mundo real em uma sucessão de informações difíceis de assimilar. O ritmo que antes favorecia o acúmulo de tensão cede espaço à pressa, diminuindo o tempo necessário para que as situações produzam todo o seu efeito. Não é uma questão de exigir respostas mais convencionais, e sim de perceber como a maneira de apresentá-las enfraquece parte do desconforto construído até ali.
Buddy demonstra uma compreensão afiada do potencial macabro escondido nas imagens da cultura infantil, mas nem sempre consegue organizar as próprias invenções com a mesma precisão com que estabelece suas regras. A repetição, que inicialmente transforma a familiaridade em ameaça, perde força quando o desfecho se ocupa de explicar tantas coisas de uma só vez. Ainda assim, permanece o mérito de converter uma fórmula concebida para tranquilizar e divertir em um mecanismo de desconfiança. O filme é mais perturbador quando permite que a brincadeira continue por tempo suficiente para que o espectador perceba que já não sabe como ela vai terminar.














