Existe uma série muito melhor escondida dentro de Habeas Corpus. A premissa é interessante, o universo jurídico brasileiro oferece conflitos naturalmente dramáticos e a discussão sobre erros judiciais, desigualdade e abuso de poder poderia render uma narrativa realmente instigante. O problema é que a produção parece não confiar na própria história. Em vez de deixar que os conflitos se desenvolvam pelas ações dos personagens, o roteiro frequentemente escolhe o caminho mais fácil, artificializando diálogos, forçando coincidências e transformando situações que poderiam ser complexas em explicações bastante óbvias. 

A série acompanha Inez (Marjorie Estiano), professora de Direito que, depois de um episódio traumático em sua carreira, reúne um grupo de alunos para investigar a condenação de Jonathan, um homem que afirma ser inocente. A partir daí, Habeas Corpus tenta equilibrar investigação criminal, drama jurídico e conflitos pessoais. É uma combinação promissora, mas que não tem um resultado potente. 

O maior problema está justamente no roteiro. Há uma quantidade incômoda de conveniências narrativas, revelações que chegam no momento exato em que a trama precisa avançar e personagens que parecem existir mais para cumprir uma função na história do que para realmente possuir uma personalidade própria. Algumas das conexões entre os personagens são tão convenientes que deixam de causar surpresa e passam a denunciar a presença do roteirista por trás da cena. 

Não é que uma série de investigação não possa trabalhar com coincidências ou reviravoltas. O problema é quando o espectador percebe a engrenagem funcionando. Em Habeas Corpus, muitas descobertas não parecem resultado de uma investigação inteligente, mas de uma necessidade do roteiro de levar os personagens até determinado ponto. 

Além disso, há momentos em que a série parece incapaz de simplesmente apresentar uma situação e permitir que ela produza seu próprio impacto. Tudo precisa ser sublinhado, explicado ou acompanhado de uma reação que indique a importância daquele acontecimento. Isso torna algumas cenas excessivamente artificiais, especialmente quando os personagens precisam verbalizar sentimentos ou informações que o próprio espectador já foi capaz de compreender. 

Essa artificialidade aparece também na tentativa de aproximar o núcleo jovem do público. Kim, em particular, usa gírias que soam forçadas e deslocadas, como se o roteiro tivesse decidido inserir determinadas expressões apenas para reforçar sua juventude ou criar uma identificação imediata com os espectadores mais novos. O problema é que essas falas não parecem nascer da personalidade da personagem nem da situação em que são ditas. Em momentos inadequados, acabam chamando mais atenção para o esforço de parecer contemporânea do que para a própria cena. 

E é justamente no núcleo jovem que os incômodos são mais gritantes. Os estudantes de Direito deveriam ser uma das forças da série, afinal, são eles que colocam o espectador dentro daquele universo e conduzem boa parte da investigação. Porém, muitos deles parecem construídos a partir de arquétipos muito básicos. Falta individualidade, profundidade e, principalmente, naturalidade nas relações.

Os diálogos entre os jovens frequentemente soam como diálogos escritos para jovens, e não como conversas que jovens realmente teriam. Em vez de personagens com conflitos próprios, algumas figuras acabam funcionando como porta-vozes das ideias que a série quer apresentar. 

Também é inevitável que Habeas Corpus seja comparada a How to Get Away with Murder. As duas produções partem de uma professora de Direito que reúne estudantes ao redor de um caso criminal e combinam investigação, conflitos acadêmicos e dilemas pessoais. A comparação, portanto, não surge apenas por uma semelhança superficial de gênero, mas pela própria estrutura narrativa e pela dinâmica entre a mentora e o grupo de alunos. 

Ainda assim, a diferença de execução é bastante evidente. Enquanto a série de Viola Davis investe em personagens mais marcantes, relações carregadas de tensão e uma narrativa assumidamente melodramática, mas consciente de seu próprio exagero, Habeas Corpus não encontra sua voz. Falta à produção brasileira a mesma segurança para transformar seus excessos em estilo. O que em How to Get Away with Murder funciona como intensidade, aqui muitas vezes parece apenas conveniência ou exagero. 

É curioso, portanto, que justamente o elenco mais experiente consiga contornar melhor essas limitações. Marjorie Estiano é provavelmente o maior exemplo disso. Sua Inez ganha camadas principalmente pelo modo como a atriz constrói a personagem, brilhantemente em suas dualidades. Vladimir Brichta também consegue conferir um carisma a um personagem que não conseguimos odiar. 

Essa diferença entre os núcleos é significativa. Os atores mais experientes parecem compreender que não precisam explicar tudo para comunicar alguma coisa. Já boa parte dos personagens jovens parece presa à literalidade do roteiro. Quando a atuação depende demais de um texto que já é pouco natural, a artificialidade simplesmente fica mais evidente. 

Isso não significa que o problema esteja exclusivamente nos atores. Pelo contrário. Quando diferentes personagens apresentam dificuldades semelhantes de naturalidade, é difícil colocar toda a responsabilidade sobre o elenco. Direção de atores, construção das cenas e, principalmente, o próprio texto também precisam entrar nessa conta. 

Ainda assim, existem pontos positivos. Habeas Corpus escolhe discutir um tema relevante e pouco explorado pelo drama jurídico brasileiro. A seletividade do sistema de Justiça, a influência da classe social, a violência policial e a possibilidade de uma condenação injusta são questões que possuem enorme potencial dramático. 

O problema é que a produção está mais interessada em dizer ao público que está discutindo questões importantes do que em construir situações capazes de fazer o espectador pensar sobre elas. 

A série tinha material para ser muito mais sofisticada do que é. Em vez de confiar nas ambiguidades do universo jurídico e nas contradições de seus personagens, prefere entregar respostas de maneira mastigada. O resultado é uma obra que até consegue prender a atenção, mas que não provoca o espectador na mesma proporção que sua premissa promete.

No fim, Habeas Corpus funciona melhor quando seus atores mais experientes conseguem emprestar complexidade a personagens que o roteiro nem sempre sabe desenvolver. Quando depende do texto e, principalmente, do núcleo jovem, a série evidencia seus maiores problemas. É uma produção com uma boa ideia central, alguns bons atores e assuntos relevantes, mas que falha justamente naquilo que deveria sustentar tudo isso: a dramaturgia.