Envelhecer talvez consista em se tornar senhor de uma coleção de fatos inúteis, dispostos em porta-retratos e caixas de joias. É também muitas outras coisas, certamente mais felizes, mas “A Extraordinária Vida de Vera Valdez”, que está longe de ser um filme amargo, não pretende oferecer um retrato definitivo da velhice. Tampouco da sua retratada.

É uma decisão acertada do diretor Fabio Meira: tem-se a impressão de que, apertássemos demais o cerco, Vera Valdez escorreria por entre nossos dedos. E que presunção seria achar que um filme dá conta da vida, não?

Antes, o documentário costura um mosaico afetivo da ex-modelo da Chanel, musa de Louis Malle, flerte de Vinícius de Moraes (e que acabou casada com seu filho, Pedro) e dama do Teatro Oficina. Imagens de arquivo alternam-se a encontros com a equipe do filme; de uma imagem para a outra, a octogenária Vera parece mais e mais frágil, mas o ziguezague da montagem não tem interesse numa cronologia fácil do fim.

O que importa é acompanhar o fluxo das memórias. Vera pode iniciar um pensamento altiva e vigorosa, apenas para, no intervalo que se oculta na pequenez de um corte, terminar essa mesma fala já alquebrada, frágil, com o queixo batendo de frio — entre os dois momentos, sabe-se lá quanto tempo passou. O resultado é embasbacante, e Meira filma tudo com a mesma sensibilidade e franqueza que o acompanham desde “As Duas Irenes”.

Assim, “A Extraordinária Vida de Vera Valdez” vai operando por meio de contrastes. No centro de tudo, o rosto da atriz, que temos tempo de sobra para estudar: a face atravessada por linhas e sulcos, como flechas, a boca repuxada num sorriso sacana, com dois faróis brilhantes no centro de tudo, ornados por cílios alongados pelo rímel. 

Há de ser rímel, ou essa mulher tinha os cílios mais perfeitos de todos. Ademais, é mais charmoso pensar que, à parte o rosto desnudado pela idade, ela não abria mão desse simplório adorno para os olhos. Mistérios de atriz.

E então, mais um contraste: agora, entre seu corpo esquálido, que nunca se curva, mas frequentemente ameaça quebrar-se, e a cabeça de rainha, luminosa. Por não haver medida justa que dê conta de Vera, o filme trata a protagonista como um mistério a ser contemplado, mas não decifrado. Eis aí porque a câmera de Meira e sua diretora de fotografia, Heloísa Passos, apesar dos closes obstinados, resulta não invasiva, mas cheia de ternura.