A voz de Alba Rohrwacher nos leva a um passeio pelas ruas de Nápoles. Localizada entre o Vesúvio e o Mar Mediterrâneo, a cidade é conhecida pela sua culinária e por representar culturalmente o sul da Itália – tanto por suas características positivas quanto negativas. O passeio a que somos convidados abarca tudo isso, mas, principalmente, é uma chamada à jornada feminina. 

A atriz italiana dá vida a voz de Elena Greco, uma autora que descobre que sua melhor amiga de infância sumiu. Mesmo com certo rancor por sua trajetória, Greco resolve investigar o que houve vasculhando suas memórias e como a amizade de ambas foi construída. É dessa forma que somos apresentados a Lenu e Lila, protagonistas da tetralogia napolitana e da série “A Amiga Genial”, e figuras que acompanhamos até a terceira idade; fluindo por situações e temáticas imprescindíveis ao que é ser mulher na contemporaneidade.

Faz algum tempo que planejo escrever sobre “A Amiga Genial”, adaptação da HBO da obra de Elena Ferrante. Meu primeiro contato com a série deu-se por meio dos livros e assumo que, embora tardiamente, aderi à febre Ferrante. Me tornei uma admiradora e disseminadora das palavras da autora italiana e, por isso, hoje trouxe alguns motivos que tornam o conjunto da obra – livros e série – um mergulho indispensável para compreensão da jornada feminina e, claro, da Itália.

1 – A Itália Nua e Crua

O senso comum sobre os cidadãos italianos, quanto à gesticulação, a voz alta e as vielas com varal de ponta a ponta, é um reflexo da visão geral sobre Nápoles. A cidade foi por muito tempo associada à violência, desordem e sujeira. Parte disso se deve a presença da máfia na região da Campânia e a realidade da cidade longe da rota turística com seu trânsito caótico, prédios históricos mal cuidados e pichações. 

“A Amiga Genial” mostra isso atrelado a personalidade de seus personagens. Enquanto caminham pelas ruas do bairro em que moram, as duas meninas são frequentemente expostas a violência seja por meio de sua representação física, como assassinatos ou o tratamento dado a mulheres, ou pela importunação sexual disfarçada de auxílio a meninas com menos condições financeiras.

As mazelas sociais ocasionadas pelo regime fascista estão presentes intensamente no começo da série. Conforme os anos avançam, percebemos que as mudanças políticas também influenciam o andamento da trama e da caracterização. Isso se reflete, por exemplo, na dicotomia de Lenu e Lila e como cada uma representa parcelas antagônicas da sociedade italiana. No final, da segunda temporada, por exemplo, enquanto uma teve acesso a informação, mas decidiu manter-se alheia a movimentação política; a outra vivencia as intempéries do sistema capitalista, o que determina seu posicionamento e as lutas que assume.

2 – Relações Femininas Reais

Como me tornei uma devoradora de obras de Ferrante, algo que me chama atenção na sua escrita – e que é adaptada com maestria a produção da HBO: as relações entre as mulheres. Por muito tempo a competitividade feminina era o padrão imposto pelo entretenimento e refletia recursivamente a vida real. O empoderamento alinhado à popularização do feminismo nas mídias e na arte através de movimentos como #MeToo, Time’s Up  fez com que este tipo de comportamento fosse revisto.

Ferrante, que também contribui com o roteiro seriado, demonstra essa revisão por meio do convívio de suas personagens femininas. Ao mesmo tempo em que há conflitos latentes entre todas elas, há sororidade, admiração e repulsa. Elas estão em constante desentendimento, mas há muito afeto nessa construção. Isso se torna mais marcante na intimidade familiar e geracional. Diferentemente do que muitos roteiristas hollywoodianos exortam quanto à sacralidade da maternidade, a produção evidencia o que realmente esse momento simboliza na vida de uma mulher: como a afeta, modifica sua forma de enxergar a vida e suas relações e a intriga quanto ao próprio corpo. 

É possível observar essas aplicações no relacionamento entre Lenu e sua mãe, banhada por afeto e antagonismo. Lenu tem medo de puxar a perna como a mãe e, por isso, a repele. Já a mãe, a acha arrogante por ter estudos e, por isso, lhe é indiferente. A relação delas é vista na maioria das famílias, os conflitos provêm de situações simples, mas que se tornam relevantes diante do conflito de gerações e do conhecimento do seu lugar na sociedade, sem os sonhos irreais e intransponíveis para os mais velhos. 

3 – Visão feminina e a síndrome de impostora

Os conflitos de “A Amiga Genial” se devem em grande parte à construção da figura feminina. As mulheres são o fio condutor narrativo, ainda que sejam subjugadas pela pressão patriarcal – devido ao tempo em que a história se passa e a cultura italiana -, suas personas são ativas e combativas, a tal ponto de quererem ser imitadas. Há características admiráveis – como a inteligência e sinestesia de Lila -, mas há realidade e identificação. Seus sonhos, dores e resoluções são palpáveis e genuínos.

O maior predicado identificável, no entanto, deve ser a síndrome de impostor vivenciada por Lenu. Desde cedo é possível observar a complexidade que envolve a personagem e seu sucesso enquanto acadêmica e escritora, ela não se sente suficiente nas posições em que ocupa, alimentando a sensação de ser uma farsa e indigna de suas conquistas, por isso paralisa, principalmente quando se põe em comparação com Lila, a amiga genial. 

Infelizmente, é muito raro não encontrar uma mulher que se sinta assim. Especialmente, as que vivem em ambientes patriarcalmente dominantes.

4 – A Direção e Construção Visual

Saverio Constanzo, showrunner da série, constrói um produto cinematográfico. O cineasta apaixonado pela produção de Ferrante transforma suas palavras em imagens neo-realistas – mesclando o estilo italiano a Nouvelle Vague francesa, trazendo tons ocres e verdes da periferia imobilizada pelas circunstâncias políticas pós-guerra. As mesmas contrastam com o azul vívido do mar de Ischia e das cores escuras que permeiam as ruas antigas de Nápoles. 

A direção consegue ressaltar, também, as qualidades de Margharita Mazzuoco (Lenu) e Gaia Girace (Lila). Isso faz com que seus gestos e ações, ainda que acanhados, apontem elementos da personalidade das personagens, com destaque para os olhares avaliadores de Lila e a presença quase invisível de Lenu, fruto da sua síndrome de impostora. 

Esses itens juntamente ao trabalho visual são sutis, mas determinantes para a dramaturgia. Embora tenha lido os romances, é como se visse a história se desenrolando pela primeira vez, como uma espécie de mágica. Um exemplo disso é a cena em que a família Sarratore sai do subúrbio de Nápoles, a emoção que transborda dos olhos da pequena Elisa Del Genio, a movimentação de câmera e a trilha sonora conferem um tom doloroso e onírico ao momento. Eternizando a primeira despedida de Lenu e Nino Sarratore. 

O acréscimo de Alice Rohrwacher (“As Maravilhas”) ao time de diretores na segunda temporada também auxilia a permear a dor que os sentimentos por Nino infligem à protagonista. A direção bucólica e com ares juvenis de Rohrwacher tornam a talaricagem – em bom amazonês – de Lila um episódio doloroso, porém fundamental para o amadurecimento de Lenu. Nem tão dramático quanto a despedida infantil, mas sem ser apenas uma mera situação adolescente. A diretora confere nuances sutis ao relacionamento do trio Lenu-Lila-Nino que ajudam na compreensão final da temporada e do que estar por vir.

5 – Elena Ferrante

Sei que citei muito o nome dela no decorrer das últimas linhas e você pode estar se indagando quem é essa autora que fala tanto sobre questões femininas e a Itália, mais precisamente Nápoles. Também gostaria de saber rsrsrs.

A identidade de Elena Ferrante é uma incógnita para todos. Uma das vozes mais apreciadas na contemporaneidade tem a fisionomia desconhecida, Ferrante não participa de eventos literários, não oferece palestras nem nada que precise ter sua presença física e até 2015 não oferecia entrevistas. Esse mistério certamente é uma das fagulhas que rondam suas obras.

Independente de quem seja, a escritora conquistou fãs de todo o mundo, inclusive personalidades como Hillary Clinton e essa crítica que vos escreve. Mal vejo a hora de continuar acompanhando os próximos passos de Lenu e Lila. 

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