A relação entre ciência e saberes ancestrais conduz a narrativa de “À Sombra do Sol”, documentário brasileiro exibido no Hot Docs, um dos mais importantes festivais de cinema documental do mundo, realizado anualmente em Toronto, no Canadá.

Dirigido por Hugo Haddad e Isadora Canela, o longa acompanha a trajetória do professor guarani Germano Afonso, pesquisador que se tornou uma das principais referências nos estudos sobre astronomia indígena no Brasil. A obra parte de sua investigação sobre os conhecimentos dos povos originários a respeito do céu e de sua transmissão entre diferentes comunidades.

Ao retornar ao Brasil após um período no exterior, Germano dedicou-se a registrar e compreender esses saberes, frequentemente deixados à margem dos estudos científicos convencionais. O documentário acompanha esse percurso e os encontros que surgem ao longo da jornada.

Segundo os diretores, o projeto nasceu do contato direto com o pesquisador e de sua vontade de transformar anos de pesquisa em um longa-metragem. “Desde o início, fomos fisgados pelas histórias que ele contava e pela paixão com que falava sobre seu trabalho”, afirmam.

Mais do que um retrato biográfico, “À Sombra do Sol” utiliza a trajetória de Germano Afonso para refletir sobre memória, conhecimento e diferentes formas de compreender a relação entre humanidade e cosmos.

A produção do filme sofreu uma virada decisiva com a morte de Germano, vítima da Covid-19, ainda no início das filmagens. Sem seu principal guia, os diretores transformam o projeto em uma jornada própria, percorrendo diferentes territórios indígenas em busca das pessoas que mantiveram viva a pesquisa do professor. Em depoimento ao Cine Set, os diretores falam sobre a decisão de seguir sem Germano, a recepção no Hot Docs e algumas curiosidades do processo de gravação.

Isadora Canela – Quando o professor Germano morreu, a primeira coisa que atravessamos foi o luto. Isso aconteceu em plena pandemia, então foi muito difícil pensar em retomar o filme, revisitar as imagens ou voltar ao roteiro. Estávamos vivendo uma perda muito pessoal. O professor Germano não era apenas um personagem ou um pesquisador do projeto; era um mestre e um amigo muito querido.

Com o passar do tempo, fomos entendendo que esse filme era, de certa forma, a missão que ele deixou para nós. Um presente dessa relação. E ele realmente transformou nossas vidas: mudou o lugar onde moramos, a forma como construímos nossa casa, o jeito como olhamos para o céu e até como nos relacionamos com as pessoas.

Quando conseguimos retomar o trabalho, voltamos ao que havíamos escrito com ele lá atrás. Foi muito marcante perceber que a primeira frase enviada para o edital dizia: “Este é um filme sobre vida e morte, sobre céu e terra”. De certa forma, entendemos que a partida dele também fazia parte dessa história.

O filme acabou se tornando uma maneira de manter viva a presença do Germano e tudo aquilo que ele carregava consigo.

O primeiro longa-metragem dos diretores Hugo Haddad e Isadora Canela, teve sessões no festival canadense nos dias 28 e 29 de abril. 

Isadora Canela – Sobre a recepção no Hot Docs, ainda estou processando tudo. Mas o que mais me marcou foi que também foi uma recepção para nós. Foi a primeira vez que vimos o filme em uma tela de cinema, e isso foi muito emocionante. De certa forma, nos tornamos espectadores de um processo que atravessou nossas próprias vidas. E, de repente, pudemos compartilhar essa experiência com outras pessoas. Foi muito bonito ver o público se emocionar, conhecer o professor Germano, entrar em contato com o trabalho dele e olhar para o céu por outra perspectiva.

Hugo Haddad – Uma coisa interessante foi perceber a diversidade do público. É um tema que toca pessoas de diferentes origens e gerações, justamente porque fala de algo que nos une. Tivemos duas sessões lotadas. Na primeira, havia mais jovens e estudantes. Na segunda, percebemos um público mais velho, que demonstrou muito interesse pelos povos originários e pelos seus modos de vida. Foi especial ver pessoas tão diferentes assistindo ao filme e se conectando a ele de maneiras distintas. Embora seja um filme muito íntimo para nós, ele acabou alcançando também a intimidade de pessoas de outros lugares.

Isadora Canela – Um dos momentos mais bonitos aconteceu depois da primeira sessão. Uma pessoa da equipe do festival nos enviou um e-mail contando que, ao sair do cinema, olhou para a lua e para as estrelas. E eu sinto que esse é o propósito final do filme. Por mais que ele fale sobre a luta histórica dos povos originários e sobre diferentes formas de conhecimento, no fim das contas estamos falando sobre algo muito simples e essencial: olhar para o céu, estar presente, criar afeto e fortalecer nossa relação com o mundo ao redor.

Os diretores também ressaltam a importância de trabalhar com uma equipe predominantemente indígena durante a produção do documentário. Haddad ressalta que aprendeu muito sobre o cinema indígena, sobre o modo de fazer, principalmente com o diretor de fotografia, Alberto Tavares, cineasta guarani, que leva e dissemina essa forma guarani de fazer cinema, inclusive tendo sido aluno do professor Germano, que trouxe uma forma diferente de roteirizar uma história a ser contada.

Hugo Haddad – Desde o início, quando o professor idealizou o filme e começamos a escrever o roteiro com ele, uma coisa que sempre nos dizia era: “Deixem esse papel de lado, porque ele não vai adiantar muito. Não vamos escrever o filme que iremos filmar. Quem vai nos dizer qual é esse filme serão os próprios indígenas e os lugares por onde passarmos”.

Na época, acostumados à lógica tradicional de produção cinematográfica, isso nos causava insegurança. Tínhamos a impressão de que sair para filmar com tanta abertura poderia prejudicar o projeto. Achávamos que precisávamos ter uma estrutura muito bem definida antes das viagens para garantir material suficiente para um longa-metragem e uma narrativa coesa.

Depois do falecimento do professor, seguimos o percurso que ele havia planejado, visitando os lugares e encontrando as pessoas que ele tinha indicado. Foi durante essas viagens que percebemos o quanto ele estava certo. Tornou-se evidente que era impossível roteirizar esse filme de forma convencional.

Tudo o que havíamos escrito até então perdeu importância diante da experiência real. O filme passou a se construir a partir do que aquelas pessoas nos mostravam, das histórias que compartilhavam e das situações que elas próprias consideravam importantes registrar. Aos poucos, entendemos que nosso papel era muito mais ouvir e acompanhar do que conduzir.

Isso foi uma coisa que eu, pessoalmente, quero levar pra minha vida, pros próximos projetos que eu for fazer, que é antes de mais nada, entender não só o tema do filme, mas entender quais são as formas possíveis de contar essas histórias e como as pessoas que fazem parte dessa história contariam essa história.