Como um truque, uma estrutura de poder pode ser imperceptível se você não olhar atentamente. Rose, novo longa de Markus Schleinzer que estreou na Berlinale desse ano, é um filme que encara de frente tanto a força de uma dessas estruturas de frente quanto o alto preço de desafiá-la. Capitaneado por uma atuação magnética de Sandra Hüller (que, como reportado pelo Cine Set direto do Festival de Cannes, está tendo outro ano incrível), o drama usa de rigor estético para falar de um dos lados mais abjetos da humanidade.

Para fazer isso, ele usa da estrutura do conto folclórico: a história da protagonista é enquadrada (e narrada) como um relato compartilhado por camponeses. Nele, Rose (Hüller) chega a um povoado alemão no século XVII e rapidamente ganha o respeito local administrando uma fazenda e se casando com uma moça do vilarejo. Até aí, tudo bem, só que Rose faz tudo isso se passando por homem e, com a pressão da comunidade para que seu casamento gere um filho, a manutenção de seu disfarce vira uma luta por sobrevivência.

O roteiro, escrito por Schleinzer e Alexander Brom, abre o longa descrevendo Rosa como “uma enganadora do povo e do país” (tradução livre) – e em termos técnicos, ela de fato é – e procede a contar boa parte da história logo de pronto. Fazendo isso, ele remove o fator suspense da trama e se foca no contraste entre as versões da história: enquanto os intertítulos e narração contém o ponto de vista dos aldeões, os visuais contém o de Rose. A verdade, ele sugere, é algo que mora nas entrelinhas.

Essas decisões narrativas colocam o filme em diálogo com um claro predecessor: “A Fita Branca”, de Michael Haneke – outro drama histórico sobre as perniciosas dinâmicas sociais de um vilarejo alemão (coincidentemente, um em que Schleinzer trabalhou na equipe de casting). A conexão fica ainda mais clara considerando a austera fotografia em preto e branco que ambos os filmes partilham. No entanto, em comparação, Rose é um filme mais humanista e trata seus personagens principais de maneira mais sensível.

Essa abordagem é particularmente notada no tempo que a narrativa dedica à relação entre Rose e sua esposa Suzanna (Caro Braun). O contraste da liberdade que uma tem e outra não, por conta de seus diferentes papeis de gênero, é acachapante. Isso, no entanto, não impede a formação de um tipo de sororidade entre elas, especialmente quando Suzanna descobre o segredo de Rose e, finalmente, quando o resto do vilarejo descobre também.

Como personagem, Rose é um banquete para qualquer intérprete. Pessimista, ela vê a vida como apenas uma série de mentiras e perseguições. Suas tentativas ambiciosas (e eticamente duvidosas) de se firmar na comunidade e conseguir estabilidade financeira vêm do desespero de quem não tem nada a perder. A performance contida de Hüller – que lhe rendeu o Prêmio de Melhor Atriz no evento alemão – reflete uma mulher praticamente perdida dentro do esconderijo de si mesma.

Em 2026, os debates sobre as questões de gênero continuam acalorados e mulheres que refutam convenções sociais continuam sofrendo uma série de violências tanto físicas quanto simbólicas. Rose é sobre uma mulher que as refutou pelo puro pragmatismo da possibilidade e pelo desejo de ser mais. Claro que você pode vê-la apenas como uma charlatã, mas… você está olhando atentamente?