O norueguês Tommy Wirkola é especialista em pastiches. Em 2007, “Kill Buljo”, totalmente derivado de “Kill Bill”, foi um sucesso em sua terra natal. Sua empreitada seguinte foi mais ambiciosa: com uma tacada, criou um pastiche dos filmes de zumbi e de Segunda Guerra com “Zumbis na Neve”. A ida para Hollywood era inevitável.

Lá, ele tem labutado em filmes esquecíveis como “João e Maria — Caçadores de Bruxas” (lembram desse?) ou, mais recentemente, “Noite Infeliz”. São projetos que oferecem um pacote pronto de violência e humor juvenil mascarados como “ousadia”. Tudo bastante basal, mas com um irritante ar de auto-indulgência pseudo-transgressora.

“Ataque Brutal” não parece possuir, de primeira, aquele mesmo clima engraçadinho, com copiosas piscadelas na direção do espectador. Mas conserva aquilo que talvez seja a matriz do cinema de Wirkola: a derivação.

Porque, para o espectador iniciado nos filmes de animais matadores, a nova produção distribuída pela Netflix prontamente traz à mente o longa “Predadores Assassinos”, de 2019. Se naquele filme tínhamos a ameaça dupla de um furacão somado a inúmeros jacarés no sul dos EUA, em “Ataque Brutal” temos a ameaça dupla de um furacão somado a inúmeros tubarões no sul dos EUA. Troca-se o bicho assassino, mantém-se o mote.

Mas é uma comparação injusta, porque o longa de 2019, produzido por Sam Raimi e dirigido por Alexandre Aja (famoso pelo longa francês extremo “Alta Tensão”), era simples, eficiente e direto. Estávamos colados a dois personagens em praticamente uma mesma locação por 90 minutos. Era uma obra que fazia o que tinha que fazer e se mandava logo depois.

“Ataque Brutal”, por sua vez, introduz uma rocambolesca estrutura com múltiplos personagens que precisam lidar com o furacão Henry. Enquanto a costa da Carolina do Sul está sendo fustigada por poderosas ondas oceânicas, hordas de tubarões esfomeados aproveitam a ocasião para fazer uma boquinha. No meio disso tudo, ficamos com meia dúzia de personagens com os quais não nos importamos, incluindo um sonolento Djimon Hounsou como um biólogo marinho.

Daí em diante, o longa avança a bocadas preguiçosas pelo espetáculo da desgraça alheia. Como nenhuma sequência de suspense funciona, limitamo-nos a assistir corpos sendo trucidados uns após o outro. Lá pelo terceiro ou quarto braço decepado, a coisa já perdeu a graça. Há ainda uma tentativa de suspense envolvendo uma personagem em trabalho de parto, mas não é o bastante para dar um choque no sistema.

Não, o que choca mesmo é a incompetência de “Ataque Brutal”. Em termos de geografia das cenas, de continuidade, de estabelecimento claro das situações, o longa é uma tragédia. Personagens aparecem inexplicavelmente no quadro entre takes, situações escalonam sem que entendamos o que acontece e assim por diante. Não se sabe o que é mais assustador: que dois montadores tenham sido necessários para criar algo tão débil, ou que uma multinacional como a Netflix aceite ostentar tamanha inaptidão em seu catálogo.

Mas talvez seja estratégico: “Ataque Brutal” praticamente te desafia a não o assistir em velocidade 2x, distraindo-se com tarefas domésticas ou com o feed no celular. Daí os diálogos reiterativos, as caracterizações basais, o total descaso com a progressão das cenas. Faz sentido, então, que a Sony, que originalmente planejava lançar esta bomba nos cinemas, tenha gentilmente cedido seus direitos ao streaming de Ted Sarandos.

Vez ou outra, Wirkola se arrisca com um movimento de câmera mais elaborado, com um plano um pouquinho mais longo, com algum tipo de dinâmica dentro do quadro. Mas seus esforços são invariavelmente traídos pela montagem atroz e pelo roteiro estúpido, de sua própria autoria, aliás. Em pensar que os pobres tubarões saem como os vilões da história, enquanto os verdadeiros culpados nadam em suas piscinas luxuosas em Hollywood.