Se tem um animal na ficção que se adapta aos cenários e premissas mais imprevisíveis para atazanar a vida das pessoas é o tubarão. Peça essencial do cinema B, o subgênero ‘Sharksploitation’ conquistou sua legião de ávidos fãs ao longo do tempo. Com frequência, filmes dessa temática aparecem, tanto nas telonas como nos streamings. Disponível na Amazon Prime, A Boca do Diabo é um amontoado de clichês trabalhados sem um pingo de inspiração. Nem mesmo a presença das estrelas teen Kathryn Newton e Lana Condor salvam a obra a sobreviver ao marasmo constrangedor.
Antes de mais nada, a própria premissa parece requentada de um outro longa: Medo Profundo: O Segundo Ataque (2019). Uma caverna escura é um cenário que ambos os filmes compartilham. Uma dupla de protagonistas jovens precisando sobreviver em um lugar hostil enquanto lidam com a ameaça de um tubarão. Toda essa semelhança traça um perigoso comparativo entre as produções, diminuindo ainda mais a singularidade do projeto.
Para piorar a situação, a inverossimilhança domina cada canto da narrativa. Começando com os personagens que abusam de comportamentos estúpidos e exagerados. Além de dolorosamente superficiais, eles criam uma antipatia imediata pelas suas atitudes imaturas e da falta de humanidade. A relação tóxica entre eles afasta qualquer sentimento de empatia. Como um filme de sobrevivência, essa construção é essencial para que o público se importe com eles e A Boca do Diabo faz questão de falhar nesse aspecto. O tempo gasto para estabelecer cada um dá lugar a um passeio enfadonho.
Ainda por cima, o filme busca trazer um tema contemporâneo dentro da história que se desenvolve de maneira tão dissimulada: as amizades tóxicas. O arco da protagonista Sara (Kathryn Newton) lida diretamente com isso. Toda a negligência que ela sofre por seus amigos não tem peso dramático algum, se tornando algo tão insignificante para a história, afundando toda a construção dramática que Newton propõe. É como se o trauma não tivesse sido nada demais. Nesse ponto, A Boca do Diabo perde a maior oportunidade de dar um peso para a protagonista e fazer o público se importar com ela.
A tensão é sabotada pela natureza dos diálogos artificiais e inconvenientes, parecendo uma paródia involuntária. As decisões equivocadas que os personagens tomam em certas situações quebram qualquer conexão com a realidade. A personagem da Lana Condor centraliza as burrices da narrativa e desafia constantemente a paciência do público. A ineficiência do roteiro destrói qualquer esforço de construir uma sensação de apreensão e temor.
Dirigido por Jeff Wadlow, conhecido por Kick Ass 2 (2013) e A Ilha da Fantasia (2020), ele cumpre todo o manual do subgênero religiosamente. Entretanto, sua incapacidade de construir um ambiente claustrofóbico e desolador elimina todo o suspense das aparições do Tubarão. As cenas de ataque do animal não têm impacto e todas as mortes são telegrafadas e bastante previsíveis. Jeff também fabrica emoções vazias nas relações dos personagens, especialmente na amizade das protagonistas.
Sorrateiramente, o diretor mascara a baixa qualidade técnica, incluindo o CGI tosco do tubarão e da água com uma iluminação precária da caverna. Mesmo assim, é perceptível o modelo 3D do tubarão interagindo no cenário. Ele também exclui uma violência mais explícita, sem sangue ou desmembramentos na tela, suavizando a agressividade das mortes. Coroando todos os absurdos, a resolução final subverte a lógica física, num embate final mirabolante para forçar um final feliz.
No fim das contas, A Boca do Diabo é uma prova de resistência à personagens insuportáveis. Mesmo com todas as ferramentas e características do subgênero para trabalhar, a direção falha em entregar tensão e diversão, que resolveram nem aparecer no filme. O Tubarão se torna a grande vítima da narrativa, precisando livrar o mundo de pessoas tão antipáticas. Visitar a Boca do Diabo é uma enorme jornada monótona do que uma luta pela sobrevivência.














