Vivemos numa época em que o óbvio precisa ser dito: em tempos de desinformação e histeria nas redes sociais, estimuladas pelos próprios algoritmos, as pessoas parecem ter muito a dizer e sentem a necessidade imperiosa de não serem mal interpretadas. Isso tem afetado a produção artística e o cinema também. Hoje em dia, filmes parecem muitas vezes rejeitar qualquer sutileza e cineastas, aparentemente com medo de ambiguidades, se veem diante da necessidade de mastigar o discurso das suas obras, de modo que não haja dúvida sobre o que estão querendo dizer – o bom e velho “tema”, a mensagem do filme.
O que nos traz a este Leviticus, produção australiana de terror que já está fazendo barulho no circuito independente e junto aos fãs do gênero. Nele, o diretor/roteirista Adrian Chiarella cria uma história que é uma metáfora sobre a homossexualidade e como ela é reprimida, especialmente pelas instituições religiosas. Não é à toa que o filme toma seu título do livro do Levítico, da Bíblia, aquele com o versículo que diz: “Com homem não te deitarás, como se mulher fosse; abominação é”, e que ainda hoje é usado para legitimar preconceito e intolerância contra homossexuais.
Só que… a história é mesmo uma metáfora? Se ela própria se auto-explica, mais de uma vez, ela ainda tem qualidades metafóricas? Se a alegoria do filme, o “monstro”, tem seu significado tornado tão claro pela narrativa e pelos aspectos visuais do filme, ele ainda continua alegórico? Se é tudo mastigado para o espectador, ainda há espaço para a obra mexer com o público?
Leviticus conta a história de dois rapazes que vivem numa comunidade cristã conservadora. Naim (Joe Bird) e Ryan (Stacy Clausen) começam um relacionamento escondido, mas um dia Naim vê seu objeto de desejo com outro garoto. Com ciúmes, ele conta o fato para seu pai, um pastor, que acaba submetendo Ryan e o outro menino a um ritual religioso. Depois disso, uma entidade começa a perseguir os rapazes, assumindo a forma da pessoa que eles mais desejam.
Ao vermos o monstro de Leviticus em ação, imediatamente vêm à mente comparações com Corrente do Mal (2015), de David Robert Mitchell. E essa comparação é desfavorável ao filme de Chiarella, que não consegue criar uma atmosfera forte de tensão, desde a cena inicial, mais esquisita do que assustadora. Ao invés disso, o filme investe na estranheza das situações: vemos pessoas falando com outras que não estão presentes, comportamentos bizarros, e o mistério inicial é suficiente para manter a atenção. Há suspense, mas não o mesmo senso de pavor e de imprevisibilidade que Corrente do Mal criava.
O mistério é explicado lá pelo meio da história, e a partir daí acompanhamos Naim e Ryan tentando escapar do encosto que os persegue. E o monstro é a homofobia, e caso ainda haja algum espectador que não entenda o tema do filme, um dos meninos o deixa bem explicado, dizendo ao outro: “Isso é o que eles querem, que tenhamos medo um do outro”. Homofobia promovida pela religião.
Acima de tudo, o que sustenta o longa são os desempenhos de Bird e Clausen, muito bons, especialmente o primeiro. E o filme também conta com uma participação de Mia Wasikowska como a mãe de Naim, personagem que parece compassiva à primeira vista, mas acaba legitimizando o preconceito. Pena que as motivações dela são pouco exploradas e o resultado é uma figura rasa.
É louvável a tentativa do filme de trabalhar com medos reais dentro de uma narrativa de horror e de gênero. E, claro, ninguém aqui quer diminuir a homofobia e a intolerância religiosa como problemas sérios. Mas ao deixar tudo muito óbvio, ao explicar a sua própria alegoria, Leviticus diminui o seu uso de um dos arquétipos mais tradicionais do terror, o doppelganger, o duplo, a criatura que parece humana ou com alguém que amamos, mas na verdade não é.
Muitos espectadores deverão defender Leviticus, justamente pelas razões apontadas aqui: por tratar de tema importante e por explorá-lo de forma dramática. Mas arte que alardeia seu tema acima da sua própria expressão acaba sendo arte panfletária, que se comunica apenas com a sua bolha e não produz impacto, não fica com as pessoas. Leviticus é um filme mediano que pega um conceito interessante e o coloca acima de tudo, incluindo a sua narrativa e sua forma fílmica. Na história do gênero terror, já houve outros filmes que chutaram as sutilezas para longe e viraram clássicos; no entanto, eles tinham mais ambições além de pregar para os já convertidos. Leviticus, infelizmente, não parece ter muito em que se apoiar além do seu tema tratado com auto-importância.















