Nós, seres humanos, odiamos um mistério não solucionado, perguntas sem resposta. Especialmente na ficção: em livros ou filmes, muitas vezes fazemos questão das coisas bem explicadas e fundamentadas, porque na vida real as coisas não fazem sentido e não temos respostas. Por isso alguns de nós exigem significado das histórias, para compensar.
A Hora do Mal, novo trabalho do diretor/roteirista Zach Cregger – o mesmo do interessante, mas irregular Noites Brutais (2022) – é construído como um daqueles mistérios irresistíveis. O filme mostra o que acontece numa comunidade frente a um fato inexplicável: Numa madrugada, 17 crianças de uma mesma turma da escolinha municipal de uma cidadezinha americana qualquer levantaram das suas camas, saíram correndo de suas casas e desapareceram no meio da escuridão. As semanas se passam, as autoridades investigam, mas ninguém descobre nada.
O “gancho” para fisgar o espectador, o filme tem. Mas não contente com isso, o roteiro de Cregger é inteligente a ponto de abordar o mistério pelo ponto de vista de diferentes personagens, e às vezes as histórias deles se cruzam – Cregger já tinha tentado algo parecido no seu filme anterior, mas aqui a amarração é bem mais efetiva. A Hora do Mal é praticamente o Magnólia (1999) do terror, e é interessante notar como o filme, estruturalmente, busca inspiração em dramas com muitos personagens, como o já mencionado filme de Paul Thomas Anderson, ou voltando mais no tempo, alguns de Robert Altman.
É um filme de clima – muitas vezes bizarro – e nem tanto de jumpscares, embora um ou outro apareçam de vez em quando. O clima é construído pela cinematografia, e Cregger e o seu diretor de fotografia Larkin Seiple criam imagens desconcertantes – as crianças correndo pelas ruas no meio da escuridão sendo a maior delas – e colocam o público no meio da ação junto com os personagens em diversos momentos. A câmera cai junto com um corpo no chão, ou treme com a batida da porta de um carro se fechando. Há pontos de vista de criativos e uma estranheza na história, que o filme nunca perde de vista.
Se em Noites Brutais o público mergulhava nas profundezas – literais – de uma casa que servia como Airbnb, em A Hora do Mal o foco é ampliado para um subúrbio. Mas sem nunca perder de foco o entretenimento do público, ou do fato de que é uma história de horror, um conto de fadas bizarro. O filme explora o luto que a comunidade experimenta, sem no entanto chafurdar no tema ou tratá-lo de forma solene como muitos exemplares do “terror elevado” de hoje em dia o fazem. E surpreendente, é um filme muito engraçado em alguns momentos – as mudanças bruscas de tom de suspense para a comédia não deviam funcionar tão bem, mas funcionam, o que demonstra a competência da condução do diretor.
Também contribuem para isso as atuações precisas do elenco, da ótima Julia Garner – aqui energizada, ao contrário de como estava em Lobisomem (2025), seu outro filme de terror do ano – até o sempre poderoso Josh Brolin, além de Alden Ehrenheich, Austin Abrams e do garotinho Cary Christopher. Todos brilham no filme e dão vida a personagens que, verdade, não são lá os mais profundos ou interessantes, mas parecem verdadeiros dentro da estrutura de horror da história.
Afinal, são eles que tentam fazer sentido do mistério. E quanto a ele… A grande maioria dos filmes ou séries centrados num mistério falha na hora em que este é explicado. Aqui, não: curiosamente, em A Hora do Mal a história vai ficando cada vez mais ‘pirada’ – este é o termo – mesmo quando o espectador recebe (algumas) respostas, até chegarmos num delirante clímax ao qual ninguém deverá ficar indiferente, e que poderá trazer um sorriso para os fãs desse tipo de filme.
Porém, por mais que o final chute o proverbial balde, de um jeito corajoso como não vemos mais com tanta frequência no cinemão, é a primeira metade de A Hora do Mal, o gancho, o mistério, que mais deve ficar na memória. É o segmento do filme que explora como as pessoas tentam fazer sentido do inexplicável, e se não tiver explicação a gente inventa uma. É uma bela noção sobre a qual ancorar um filme, especialmente um que não tem vergonha de ser um passeio no trem-fantasma como este.













