O Lobisomem sempre carregou uma aura mítica que assombrou a imaginação humana por séculos, com uma dualidade intrigante entre o lado humano e o bestial. No cinema, a criatura sempre transitou entre o temor e o fascínio, gerando várias histórias e oferecendo novas perspectivas sobre sua natureza aterrorizante.

A partir do ciclo de monstros da Universal Studios, com uma série de filmes de terror lançados entre as décadas de 1930 e 1950, O Lobisomem (1941) foi a primeira adaptação a fazer um mergulho profundo nas sombras psicológicas da fera. O filme reuniu os principais elementos da licantropia (fraqueza à prata, a lua cheia, o pentagrama, o instinto assassino etc.), que seriam imortalizados pelo cinema de horror nas décadas seguintes. O elenco virtuoso, com Claude Rains, Bela Lugosi e Lon Chaney Jr. (como o lobisomem), ajudou a dar um peso dramático funcional à história, mostrando o contorno trágico da maldição da criatura.

Quase 60 anos depois, tivemos a primeira refilmagem da obra homônima, lançada em 2010, com o mesmo título e dirigida por Joe Johnston, e com elenco formado por Benicio Del Toro, Emily Blunt e Anthony Hopkins. Apesar de problemas de produção na época (demissão de diretor próximo ao início das filmagens, orçamento estourado e atrasos no cronograma), O Lobisomem (2010) é um filme com mais acertos do que erros e que se destaca por ser uma releitura corajosa, principalmente por mergulhá-lo no estilo retro, reciclando a atmosfera gótica do cinema de horror das décadas de 30 e 40.

Finalmente, em 2025, chegamos à terceira adaptação, desta vez nas mãos de Leigh Whannell, que teve o cuidado de reatualizar a criatura bestial ao contexto urbano e transformar sua jornada trágica em um drama familiar psicológico e sangrento sobre acerto de contas.

Na nova versão, Blake Lovell (Christopher Abbott, de Pobres Criaturas) herda a casa de seu pai desaparecido e dado como morto. Com problemas no casamento, ele convence a esposa Charlotte (Julia Garner, de Ozark) a dar um tempo da cidade e conhecer a nova residência, localizada na zona rural de Oregon, junto com a filha do casal. Ao cair da noite, eles são atacados por uma criatura estranha que ronda o ambiente.

Uma releitura básica e pouco envolvente

É uma pena que Leigh Whannell, nesta sua segunda empreitada de reimaginar os filmes clássicos de monstros da Universal, não atinja as mesmas proporções intimistas de O Homem Invisível (2020), que ele mesmo dirigiu.

Seu olhar contemporâneo sobre O Lobisomem não permite que o filme fuja do básico, sustentado por várias boas intenções, mas que se reduzem a uma adaptação convencional e sem grandes atrativos, exceto por alguns bons momentos aqui e ali.

Verdade que Whannell tenta ajustar a mitologia da licantropia (não há intenção de aprofundar questões sobre folclore ou algo do tipo) do filme clássico ao drama familiar, focado na paternidade e masculinidade fragilizadas pelos traumas familiares do passado, causados pela superproteção tóxica e a inabilidade de comunicação.

O problema dessa nova versão é que tudo relacionado à análise dos laços familiares — o quanto a educação e o cuidado entre pais e filhos fazem diferença na criação de uma pessoa — se desenvolve com um drama familiar óbvio em seu teor emocional, a partir de uma narrativa vazia que não se esforça em ir além do mero estabelecimento de personagens genéricos.

A própria ameaça do lobisomem é tão vazia que mal causa comoção ou provoca medo, algo bem diferente do ponto de vista aterrorizante da violência doméstica tóxica que Whannell alcançou habilmente em O Homem Invisível.

Um recorte interessante, mas vazio de ideias

Eu, particularmente, gosto da ideia de Whannell de trazer para este novo recorte a licantropia como produto de uma doença, com o protagonista, vivido de forma eficiente por Christopher Abbott, “deformando-se” na besta, semelhante a Seth Brundle (Jeff Goldblum) em A Mosca. É uma ideia que insinua o medo do mal pela transformação física do monstro e que, nas entrelinhas, representa o temor pela morte.

No entanto, a partir desses conceitos, O Lobisomem nunca agrega reflexões efetivas ao seu terror. Não há uma discussão realmente eficaz nos dilemas enfrentados pela família enquanto lida com a transformação do pai em um lobisomem, muito em razão da artificialidade com que o roteiro dimensiona os papéis de cada um. Com isso, a questão da transformação do monstro pouco importa para reconfigurar os conflitos dramáticos que surgem.

Pelo menos na composição visual de horror, o longa tem uma base que funciona minimamente bem e consegue dar dignidade ao projeto, principalmente com a boa atmosfera, o body horror competente e o corre-corre de bons sustos. No entanto, o filme é comprometido pela decupagem um tanto escura e pela pouca ambição de Whannell em extrair mais de algumas decisões visuais interessantes, como o ponto de vista da fera, que poderia ter sido mais bem explorado.

No final, O Lobisomem não chega a ofender, mas também é bem esquecível em seu retrato da besta humana. Faltou uma condução mais firme por parte do realizador para atingir aquilo que ele desejava ou, então, sistematizar de forma mais eficaz suas ideias. Como diria o grande Nelson Rodrigues: é bonitinho, mas ordinário.

Autor

  • Danilo Areosa

    Psicológo nas horas formais e cinéfilo compulsivo nas informais. É amante, colecionador e apreciador tanto do Cinema de Arte quanto dos Filmes B e de Horror. Ama Martin Scorsese, François Truffaut, Michael Mann e Alfred Hitchcock da mesma maneira que idolatra “Outsiders” como John Carpenter, George Romero, Dario Argento e Lucio Fulci. Afinal, como dito pelo genial Orson Welles: O Cinema não tem fronteiras, nem limites. É fluxo constante de sonhos.

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