Uma das coisas mais difíceis para um ator deve ser interpretar um outro ator interpretando um papel. Mais complicado do que isso, só mesmo quando se é um ator interpretando uma versão de si mesmo interpretando um papel. Claro, Riz Ahmed não interpreta a si mesmo em “Bait”, série que criou e ajudou a roteirizar. Mas é indiscutível que o projeto parece ter uma alta carga pessoal para seu astro.
Aqui, Ahmed é Shah Latif, um outrora promissor ator cuja ambição e talento não renderam o bastante nem mesmo para o aluguel atrasado do seu flat. Embora o hoje oscarizado Ahmed (o ator tem um Oscar como um dos realizadores de um curta premiado) esteja longe desse tipo de imbróglio com o senhorio, há diversos paralelos entre o astro e sua desafortunada contraparte fictícia.
Vejamos: vindo de uma família paquistanesa bem conectada, Ahmed teve uma bela educação de elite. Latif, a quem vemos em flashbacks frequentando algum tipo de colégio tradicional, também. Ahmed, além de ator, tem um passado como rapper. E adivinhem só: Latif também.
Mas não é só a arte que imita a vida. Em “Isca”, Shah Latif tem a oportunidade da sua carreira ao ser cotado para o papel de James Bond. Seu teste é trágico, mas ele apela para as fofocas da internet para criar um furor midiático em torno do seu envolvimento no projeto, em um esforço desesperado por relevância. E agora, depois do sucesso da série, é o nome do próprio Ahmed que começa a ser cotado como 007 — pelo menos entre os fãs.
O que será do agente britânico mais famoso do cinema, não sabemos. De todo modo, essa está longe de ser a preocupação central da série. Parte sátira ao showbiz e suas ramificações internéticas, parte tragicomédia existencial sobre identidade, “Isca” nunca se satisfaz em ser uma coisa só. A empreitada por vezes ameaça desmoronar, mas nunca perde nosso interesse.
E o que há de mais interessante aqui é tudo que envolve a experiência como paquistanês na terra da (falecida) rainha. É a dinâmica familiar, por exemplo, que dá as caras durante o Eid al-Fitr, o fim do Ramadã, em que os Latif demonstram que nosso protagonista não é a única pessoa vaidosa e orgulhosa no clã.
Nesses momentos, o comediante Guz Khan se destaca como o primo trambiqueiro, irmão de criação, com quem Shah tem um complicado bromance. O pai durão, a mãe coruja e a prima-irmã zoomer completam esse retrato de família. Curiosamente, a toxicidade e a gritaria chegam a nos fazer lembrar uma outra série sobre famílias complicadas: “The Bear”.
Some isso ao aspecto metalinguístico à la “The Studio” (com direito a um episódio, o quarto, filmado como uma série de planos-sequência), e podemos ficar com a impressão de que não é apenas Shah tendo uma crise de identidade. Antes, há momentos em que “Bait” parece tentar se encaixar no panorama atual das séries de prestígio com um pouco de afinco demais.
E é mesmo o tal do quarto episódio o mais fraco dos seis, formal e narrativamente. Nele, Shah tenta fazer as pazes com uma ex-namorada, uma jornalista que acaba de publicar um artigo acusando-o de ter se vendido aos branquelos de Hollywood. É quando toda a especificidade que vinha tornando o projeto especial dá lugar a uma dinâmica de comédia romântica das mais requentadas. O fato de os planos-sequências terem se tornado um clichê desde que se tornaram muito mais fáceis de rodar em digital também não ajuda.
Felizmente, “Isca” se permite o prazer de se aventurar por outras sendas. Assim, de um momento para outro, a série lança mão de algum floreio estilístico inesperado, como quando um parente de Shah entra em cena como um super-herói de Bollywood. Ou quando um episódio é rodado como um thriller de ação, mostrando um cada vez mais paranóico Shah correndo desesperadamente por Londres, enquanto carrega uma cabeça de porco dublada por Patrick Stewart na bolsa. Sim, a frase que você leu está certa.
Esse ímpeto aventureiro permite que o projeto conserve o seu bem-vindo senso de inesperado, mesmo após acenar para o que já conhecemos. O que significa dizer que, no fim das contas, “Isca” descola um cantinho para chamar de seu no concorrido cenário da TV e do streaming.
Mas é um lugar que não deixa de guardar certa ambivalência: afinal, depois da alardeada aquisição dos direitos de Bond pelo careca mais rico do mundo, o fato de termos uma série sobre a corrida midiática em torno do próximo 007 em sua própria plataforma de streaming é um nó hiper-capitalista tão grosseiro que chega a ser ofensivo. Ahmed, é claro, está jogando o jogo: ele tem uma história pessoal para contar, mas sabe que o preço a ser pago é ser tragado pela máquina.
É uma cisão que não deixa de aproximá-lo ainda mais de seu protagonista em crise de identidade. É verdade que o último episódio de “Isca” tenta desatar o nó identitário com um pouco de pressa demais. Mas mesmo que o resultado seja dúbio, o que fica é a impressão unívoca de que Riz Ahmed, com o olhar intenso e um paletó sobre o peito estufado, daria um baita James Bond.















