O ator e rapper britânico Riz Ahmed retorna à televisão com Isca, nova série dramática que aposta em personagens ambíguos e emocionalmente complexos. Conhecido por trabalhos como O Som do Silêncio e The Night Of, Ahmed agora mergulha em um papel que tensiona identidade, representação e vulnerabilidade. Em entrevista ao Cine Set, o artista reflete sobre o peso de ser visto como porta-voz de uma cultura inteira e propõe um caminho mais honesto: falar apenas por si.
Na série, Ahmed interpreta Shah Latif, um personagem marcado por contradições, cujas decisões erráticas e fragilidades emocionais desafiam o espectador a constantemente rever suas próprias expectativas. Isca se constrói a partir dessa ambiguidade: ao mesmo tempo em que aproxima o público de Latif, também o afasta, criando um jogo de identificação e estranhamento. A narrativa acompanha sua trajetória em meio a dilemas pessoais e pressões externas, explorando temas como pertencimento, moralidade e identidade em um mundo que exige posicionamentos claros — mesmo quando eles não existem.
Disponível na Prime Video, Isca reforça a tendência de produções que privilegiam personagens imperfeitos e narrativas mais íntimas. Para Ahmed, o interesse não está em criar figuras exemplares, mas reconhecíveis: “mais do que gostar de um personagem, quero que as pessoas se identifiquem com ele”. É justamente nesse espaço — entre o desconforto e a empatia — que a série encontra sua força.
Cine Set (Caio Pimenta) – Realmente me chamou a atenção como Shah Latif carrega a responsabilidade de ser muito mais do que apenas ele mesmo ao ter a chance de interpretar James Bond; ele representa o Paquistão e a sociedade como um todo — algo semelhante, por exemplo, ao que acontece quando um brasileiro se destaca em Hollywood ou nos esportes. Como você vê essa pressão de uma pessoa representar países e sociedades inteiras que muitas vezes são consideradas “menores” dentro da cultura ocidental?
Riz Ahmed – É uma ótima pergunta. É algo com que eu luto bastante, e você está acompanhando essa minha jornada também. Em muitos sentidos, essa série é sobre tentar se afastar dessa responsabilidade — porque é impossível representar um bilhão de pessoas. Simplesmente não dá. E, na verdade, é até pouco saudável pensar que uma única pessoa pode fazer isso.
Claro, a gente carrega as expectativas e as esperanças de muita gente, as orações de muitas pessoas. Isso precisa ser levado a sério, precisa ser tratado com cuidado. Mas, ao mesmo tempo, eu acho que o que a gente costuma chamar de “normal” deveria ser outra coisa: em vez de tentar representar os outros, apresentar a si mesmo com honestidade.
Essa é a jornada que eu tento seguir — e é a jornada que eu tento construir com essa série. Eu não estou tentando fazer uma obra que represente ninguém além da minha própria mente, do meu próprio olhar. E é curioso, porque eu acho que, de certa forma, as pessoas preferem isso. Elas preferem quando você não tenta sustentar uma mentira ou falar por todo mundo.
Quando você fala por si mesmo, essa passa a ser a sua conexão com o público. Porque aí você se permite ser imperfeito, vulnerável, honesto — e talvez parecido com quem está assistindo. Acho que é nesse lugar que funciona melhor: quando alguém se apresenta como é, em vez de tentar representar qualquer outra pessoa.
Cine Set (Caio Pimenta) – Assistindo à série, é difícil dizer se devemos torcer por Latif ou sentir ódio por ele. Como é interpretar um personagem tão falho? Em algum momento, você se preocupou que o público pudesse desenvolver uma antipatia tão forte a ponto de desistir de Isca?
Riz Ahmed – Às vezes acho que a coisa mais difícil de fazer é ser honesto. E também acho que é justamente o que as pessoas mais querem. Acho mesmo que é o que elas mais querem.
A gente tem muito aquela ideia, quando está criando essas coisas meio “de outro mundo”, meio espaciais, de que dá medo, com certeza. Porque, sabe, eu tenho uma sensação de que, às vezes, a gente quer que as pessoas sintam aquilo que a gente sente quando está perto de quem ama… tipo: por que meu amigo não pode simplesmente ficar com raiva livremente? Por que meu irmão fica me perguntando se a gente se importa com ele, sabe?
Esse sentimento é interessante, me identifico com isso. Então pensei: se a gente conseguir ser honesto, já é incrível. E mais do que as pessoas dizerem “eu gosto desse personagem”, eu queria que elas dissessem: “eu me identifico com isso”. Eu me identifico com essa simplicidade das decisões ruins que ele toma, com esse cuidado, essa vulnerabilidade, essa estupidez.













