A primeira coisa que notamos em “A Própria Carne” é que o diretor Ian SBF aprendeu alguns truques novos. Seu tempo como diretor meramente funcional de esquetes do Porta dos Fundos ficou para trás — ao menos, é o que ele quer nos mostrar. Aqui, em sua primeira empreitada no terror, somos recebidos logo de cara por rack focus dramáticos, slow motion, travellings, crash zooms, enfim, o pacote completo de nomes em inglês.
Em seguida, chama a atenção a economia narrativa — ao menos nos primeiros 10 ou 15 minutos de projeção. Nosso trio de protagonistas, desertores da Guerra do Paraguai, é apresentado já em ação: embrenhados na mata, dando cabo de um oficial para não serem fuzilados. É um início silencioso. Afinal, por que esses personagens haveriam de tagarelar?
Mas algo curioso acontece: assim que a premissa do filme é desvelada — o trio chega a uma cabana sinistra comandada por um velho sinistro e por sua criada, adivinhe, sinistra —, o falatório tem início. A princípio, as intenções do longa são as mais singelas — e por isso até nobres: uma simples escalada de acontecimentos mórbidos mediada pela presença de nosso anfitrião maléfico (Luiz Carlos Persy). O problema é que o filme não parece saber como cumprir essa promessa horrorífica.
Daí que cabe a Persy a tarefa ingrata de se lançar em solilóquios intermináveis. Ele se esforça: seus trejeitos faciais e postura corporal são estranhamente reminiscentes de um Denis Lavant em “Holy Motors” — isto é, se o astro francês tivesse uma longa barba situada entre o hipster e o eremita na cara. Mas seu blá-blá-blá sobre origens onomásticas, divagações enológicas e palestras sobre química contribuem pouquíssimo para aumentar seu coeficiente de maleficência. No máximo, indicam que o sujeito provavelmente se daria muito bem com a Wikipédia nos dias de hoje.
O diretor tenta dinamizar a coisa, propulsionar a ação de alguma forma. Ele faz sua câmera girar pelos personagens à mesa de jantar; usa close-ups dignos de um Sam Raimi em “A Morte do Demônio”; rouba o contra-plongée de Jack Nicholson parado à porta em “O Iluminado”. Até mesmo as tensões raciais amplificadas pela claustrofobia, cortesia, parece-nos, de “Os Oito Odiados”, despontam no caldeirão de referências de SBF, Alexandre Ottoni e Deive Pazos, roteiristas da obra.
Os dois últimos nomes, é claro, são velhos conhecidos de qualquer pessoa que transite pela web brazuca: trata-se da dupla dinâmica por trás do império multimidiático Jovem Nerd. De fato, em seus momentos mais vagarosos e tagarelas, “A Própria Carne” tem toda a pinta de audiodrama ou podcast — impressão que deve ser ratificada pelos seus ouvintes à medida em que as pinceladas de horror cósmico são introduzidas na trama.
Que a trupe tem suas referências em dia, já sabemos. Que o filme é correto, bem executado, com boas caracterizações e tudo o mais, também. Mas não há aqui uma imagem sequer que marque nossa frágil e suscetível psiquê; nenhum arrepio na espinha, nenhum espanto capaz de deixar aquela gostosa marca indelével que nos tira o sono.
Em outras palavras: falta personalidade. Compare este filme com, digamos, qualquer coisa de um Rodrigo Aragão, para ficarmos com um nome importante do terror made in Brazil. “A Própria Carne” se mostrará, então, um filme melhor acabado tecnicamente, mas as imagens do mestre capixaba do gore de garagem ficam muito mais tempo com a gente.
É o que “A Própria Carne” parece não compreender: não basta ter as referências certas e o verniz em dia; é preciso ter tesão no potencial lúdico do cinema de horror. Nesse sentido, é preciso dar o braço a torcer: o sangue como lubrificante (vocês entenderão) foi uma ideia boa e, muito importante, apropriadamente sádica.














Vacilou rude nessa critica
Sendo muito sincero: Achei a crítica fraca e rasa. Talvez como o próprio filme. Preventivamente já me resguardo: Não sou fan do canal do JN. De fato nunca vi por inteiro um vídeo deles se quer.
Dito o básico para abarcar a reação de puro reflexo que é descartar um comentário como “fans chatos do canal”, enquanto lia a crítica, me transpassava uma ironia enorme onde ao criticar o filme por fazer uso de técnicas “pra mostrar que sabe como”, aqui a linguágem e os termos também ressoam como tendo o mesmo efeito. Assim também como é criticado o filme por ser raso, a crítica não faz mais que apresentar o filme, nomear alguns pontos e terminar em uma conclusão realmente café com leite.
Honestamente, foi uma resenha que não disse nada, não mostrou pontos ou visões novas e conclui com o mesmo impácto de uma sacola caindo no chão.