De Cate Blanchett a Renate Reinsve, Caio Pimenta traz as previsões iniciais para o Oscar 2026 de Melhor Atriz.
POUCAS CHANCES
Abrindo a turma das candidatas com poucas chances no Oscar 2026 de Melhor Atriz estão três gigantes do cinema mundial.
Havia toda uma expectativa no Festival de Cannes com a estreia de “A Private Life”, estreia de Jodie Foster em filmes falados em francês. A trama de mistério sobre uma psicanalista investigando a morte de uma paciente até diverte, mas passa longe de ser marcante. Com isso, a duas vezes ganhadora da categoria tende a ser esquecida na temporada.
Cate Blanchett até contava com a vitória de “Father Mother Sister Brother” no Festival de Veneza para impulsioná-la rumo à indicação. Não apenas o filme do Jim Jarmusch parece escanteado como a obra ganhadora do Leão de Ouro ressoa mais como um trabalho da força coletiva do elenco do que ter um destaque individual.
A MUBI, entretanto, conseguiu fazer uma das campanhas mais históricas recentes do Oscar com “A Substância” a ponto da Demi Moore ficar perto da vitória em Melhor Atriz. Claro que o terror da Coralie Fargeat está longe de ter o apelo de “Father Mother Sister Brother”, mas, acaba sendo alento para a Blanchett de cogitar uma recuperação na reta final.
Com três indicações e uma vitória todas nos últimos seis anos, a Olivia Colman se tornou um dos nomes mais prestigiados pela Academia. Logo, a dobradinha dela com Benedict Cumberbatch em “Os Roses” era mais do que aguardada. A comédia do Jay Roach, entretanto, chegou aos cinemas sem convencer público e crítica e deve sumir ao longo da temporada.
No máximo, a Olivia Colman deve pegar uma indicação em Melhor Atriz de Comédia/Musical e olhe lá. A tendência é que nem isso consiga.
Atriz principal ou coadjuvante? Eis o dilema que a Netflix vive com a Felicity Jones em “Train Dreams”. Tudo leva a crer que ela será encaminhada para a categoria secundária, mas, se o longa com o Joel Edgerton crescer, pode ser uma alternativa aqui. Improvável, porém, que ocorra.
Shirley MacLaine, de “Laços de Ternura”, e Helen Hunt, por “Melhor é Impossível”, foram protagonistas de comédias românticas dirigidas por James L. Brooks a vencerem o Oscar de Melhor Atriz. Este grande histórico é a maior esperança de Emma Mackey, estrela de “Imperfeitamente Perfeita”. A francesa, aliás, é a única esperança da 20th Century Studios na categoria.
O problema é que “Imperfeitamente Perfeita” está bem para trás na temporada. Precisa ser um filmaço para conseguir dar uma reviravolta a ponto da Emma Mackey chegar forte, pelo menos, para a indicação.
Das mais interessantes atrizes da nova geração no cinema americano, Julia Garner encontrou um raro bom papel nas telonas com “A Hora do Mal”. Interpretando a professora suspeita de envolvimento no desaparecimento dos alunos, ela representa o público na tela seja na desorientação sobre o que está acontecendo, seja ao investigar o que acontece.
Apesar da ótima atuação, a Julia Garner somente seria indicada em um verdadeiro milagre. O trabalho dela não é tão dominante como da Demi Moore em “A Substância”, um raro caso recente de indicação a Melhor Atriz por um filme de terror. Se atuações mais contundentes como Lupita Nyong´o em “Nós” e Toni Collette em “Hereditário” passaram longe do Oscar, imaginar que a estrela de “A Hora do Mal” chegue longe parece improvável.
“Christy” seria um filme perfeito para levar a Sydney Sweeney ao Oscar. Afinal, a atriz deixa as comédias românticas de lado para encarnar a história real de Christy Martin, uma boxeadora campeã sofrendo nas mãos do marido dominador. Com direito a transformação visual e temática feminista, havia boas possibilidades de ela estar mais forte no páreo da categoria.
As polêmicas da Sydney Sweeney fora das telas, entretanto, devem refletir nas chances dela em Melhor Atriz. A situação já seria naturalmente dificilmente pelo fato da Urso Negro não ser das distribuidoras mais poderosas da indústria e complicou ainda mais com o comercial dos jeans, a filiação ao partido Republicano, a simpatia ao Trump, enfim, tudo que tira o foco da atuação. Fingir que isso não afeta as chances dela é, no mínimo, ser ingênuo.
A Eva Victor é uma das revelações de 2025 em Hollywood com “Sorry, Baby”, drama premiado em Sundance e exibido no Festival de Cannes. O fato dela ser diretora e roteirista, além de protagonista, chama a atenção por ser uma obra que trata sobre temas delicados como abuso sexual e aborto. Tudo isso no trabalho de estreia com uma coragem admirável.
Ainda assim, acho que a maior chance da Eva Victor será em Roteiro Original. Apesar da concorrência forte, esta é uma categoria que consegue abrir espaço para obras menores até como surpresas.
CHANCES MÉDIAS
Vamos passar para a turma das candidatas com chances médias em Melhor Atriz no Oscar 2026.
Chase Infiniti e Laura Dern são dois mistérios: ambas podem concorrer nas duas categorias femininas e não seria nada absurdo. A revelação de “Uma Batalha Após a Outra” é a principal personagem feminina e vindo para cá poderia se aproveitar do grande momento do filme do Paul Thomas Anderson e ainda abrir caminho tranquilo para garantir a Teyana Taylor em coadjuvante.
A Laura Dern também é a principal personagem feminina de “Is This Thing On?”. A grande questão é saber quanto o filme será concentrado no Will Arnett. Caso haja um equilíbrio entre os dois, ela pode crescer em Melhor Atriz se o drama for bem a partir do Festival de Nova York.
Falei sobre isso no vídeo anterior e repito aqui: Bradley Cooper pode ter todos os problemas do mundo, mas, é um bom diretor de atores. Lady Gaga e Carey Mulligan, ambas indicadas a Melhor Atriz com ele no comando, que o digam. Bom ficar de olho na Laura Dern.
Do alto de seus 95 anos, June Squibb segue na ativa e muito elogiada com “Eleanor, the Great”. A passagem em Cannes comprovou isso no lançamento da primeira ficção da Scarlett Johansson. Para emplacá-la, a Sony Pictures Classics teria que fazer uma operação ainda mais complicada do que a realizou com a Fernanda Torres no ano passado.
A única possibilidade seria uma improvável vitória da June Squibb em Melhor Atriz de Comédia/Musical no Globo de Ouro para criar uma onda a favor até como forma de homenageá-la. Atrapalha, porém, o próprio “Eleanor, The Great” ser uma produção apenas simpática, uma agradável Sessão da Tarde. É aquele caso difícil de não ter de onde tirar muito para desbancar candidatas de obras mais fortes.
A Jennifer Lawrence é um caso peculiar: a estrela possui prestígio e carinho de sobra na Academia – com apenas 35 anos, ela soma quatro indicações e uma vitória. Por outro lado, a última participação no Oscar foi há quase 10 anos, incluindo, esnobadas como “mãe!”, “Não Olhe Para Cima” e “Passagem“.
Em “Morra, Amor”, ela foi ovacionada no Festival de Cannes, com elogios praticamente unânimes da crítica e do público. Não ter vencido em Melhor Atriz na França, porém, acabou sendo uma decepção e atrapalhou o caminho rumo ao Oscar, afinal, uma vitória em maio ajudaria demais na temporada.
Toda a intensidade da Jennifer Lawrence com uma atuação de entrega absurda joga a favor para que seja lembrada. E como já falei, a MUBI fez milagre com “A Substância” neste ano, logo, poderia repetir a dose aqui. Isso mesmo com as esnobadas da Tilda Swinton e Joaquin Phoenix por filmes da Lynee Ramsey em edições anteriores do Oscar. Corre por fora, mas, pode chegar.
GRANDES CHANCES
Julia Roberts caiu bastante na temporada após a estreia polêmica de “Depois da Caçada” no Festival de Veneza. O fato da personagem da estrela colocar em dúvida uma denúncia de assédio desagradou a crítica assim como a abordagem do filme sobre a política de cancelamento ser considerada confusa.
Será trabalhoso para a Amazon MGM conseguir reverter este cenário, especialmente, quando o filme estrear no circuito comercial. Claro que a Julia Roberts é uma gigante de Hollywood e estar longe do Oscar desde 2014 pode criar um clima favorável a ela, mas, parece hoje em situação bem complicada.
A Tessa Thompson tem um dos maiores papéis femininos para chegar ao Oscar 2026. Em “Hedda”, adaptação do clássico de Ibsen, ela faz a personagem-título, uma mulher lidando com uma vida doméstica indesejada, um casamento infeliz em meio a uma paixão do passado que reaparece.
Depois de participar de uma série de blockbusters de Hollywood como o Universo Marvel, “MIB” e “Creed”, a Tessa Thompson encontra em “Hedda” aquele filme que busca ser o salto na carreira para papéis mais sérios, mirando a temporada de premiações. As primeiras exibições do filme, entretanto, não provocaram maiores comoções junto à crítica, ainda que ela tenha sido elogiada. Com uma vaga em aberta, a Amazon/MGM pode fortalecer a campanha e fazer a Tessa ser uma boa surpresa em Melhor Atriz.
E digo surpresa porque a última vaga tende a ficar com estas próximas duas candidatas.
A Rose Byrne quer fazer com “If I Had Legs I´d Kick You” o que “Poderia me Perdoar?” representou para a Melissa McCarthy. A atriz conhecida na comédia chegando à temporada de premiações por um drama com toques cômicos. A vitória na Berlinale serve de cartão de visitas para que ela seja levada à sério e cogitada para o Oscar.
Este tipo de personagem – uma mãe solteira, cansada, à beira de um ataque de nervos vivendo um hotel com a filha pequeno após o teto de casa desabar por conta de uma infiltração – não chega a ser uma novidade nesta leva de filmes que buscam desromantizar a maternidade. Basta lembrar aqui de Charlize Theron com “Tully” e a Olivia Colman com “A Filha Perdida” – a primeira esnobada e a segunda indicada ao Oscar.
A A24 deve colocar as únicas fichas em “If I Had Legs I´d Kick You” justamente aqui e pode se sair muito bem.
A Amanda Seyfried, de “The Testament of Ann Lee”, porém, está de olho na vaga também. A estrela foi muito elogiada no musical dirigido pela Mona Fastvold na passagem pelo Festival de Veneza.
Agora que o longa finalmente conseguiu distribuição com a Searchlight Pictures, o projeto pode ganhar nova tração na temporada de premiações.
Fora que será interessante termos pelo segundo ano consecutivo duas indicadas vindas de musical, um fato raro no Oscar.
E por que estou falando isso?
VAGA GARANTIDA
Para abrir a turma das candidatas quase garantidas no Oscar de Melhor Atriz, eu falo da Cynthia Erivo. Se na temporada deste ano extremamente disputada, a estrela de “Wicked” conseguiu a indicação, tudo leva a crer que o mesmo se repetirá, desta vez, em um ano menos concorrido. A última parte do musical, além de permitir ainda mais a estrela soltar o espetacular vozeirão, dará mais drama e tempo de tela para Elphaba.
Neste momento, a Erivo parece que está em segundo plano, mas, assim que chegar novembro e se “Wicked: For Good” confirmar tudo o que se espera dele, considero inevitável o nome da Cynthia Erivo entre as finalistas.
Quanto a vencer, a estrela até pode se apoiar na força do clássico da Broadway, na construção conjunta da personagem para os dois filmes e ainda no discurso de que pode virar uma EGOT em caso de vitória. Por outro lado, é muito raro personagens de universos fantásticos se sagrarem ganhadoras de Melhor Atriz: Julie Andrews em “Mary Poppins” e a Michelle Yeoh de “Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo” são as exceções que confirmam a regra.
Emma Stone também está muito próxima da vaga. “Bugonia” é mais uma parceria bem-sucedida da estrela com Yorgos Lanthimos. Ao lado do grego, ela foi indicada a atriz coadjuvante com “A Favorita” e venceu pela segunda vez Melhor Atriz com “Pobres Criaturas”. Agora, parecia que iria rolar uma nova passagem pelo Oscar tão cedo, mas, a estrela vive uma fase impressionante, saindo aclamada do Festival de Veneza.
Somente o fato de ela ter topado raspar os cabelos para “Bugonia” é aquele tipo de entrega à arte que os colegas gostam de ver em cena. Fora que, a cada novo trabalho, a Emma Stone fortalece a imagem de ser uma das gigantes da atualidade de Hollywood, longe de ser apenas uma atriz em boa fase.
A decisão da Focus Features em apostar nela para Melhor Atriz em vez de ir para coadjuvante, a colocando em um duelo direto com a Jessie Buckley, também do estúdio, deixa claro a confiança na indicação dela para o Oscar 2026.
AS FAVORITAS PARA A VITÓRIA
Já que citei a Jessie Buckley, chegou a hora de falar das duas favoritas não apenas para indicação, mas, para a vitória.
Se eu considero “Hamnet” como favorito a Melhor Filme, nada mais natural do que colocar a protagonista do drama no mesmo patamar para a vitória em Melhor Atriz. Não apenas o papel de uma mãe em luto após perder o filho é forte suficiente como a Buckley passa por uma fase brilhante, emendando grandes filmes com os principais nomes do cinema mundial.
A produção da Chloé Zhao representa o salto para consolidá-la definitivamente no primeiro patamar de Hollywood. E uma estatueta do Oscar coroaria este processo.
Renate Reinsve é a outra favorita para a categoria. A norueguesa já fazia por merecer a indicação ao Oscar na temporada de 2022 quando foi esnobada por “A Pior Pessoa do Mundo”. Se lá não foi possível, agora, ela chega com “Valor Sentimental” novamente ao lado do diretor Joachim Trier.
Não há muitas dúvidas de que a indicação viria desde a exibição em Cannes. A vaga em Melhor Atriz é mais do que garantida até pela provável presença dos demais colegas de elenco nas outras categorias de atuação.
Quanto à vitória, a Reinsve terá de lidar com o tabu de Melhor Atriz raramente reconhecer atuações vindas de filmes de língua não-inglesa. Mesmo com as grandes campanhas recentes da Sandra Huller com “Anatomia de uma Queda” e da Fernanda Torres em “Ainda Estou Aqui”, as únicas conquistas seguem sendo da Sophia Loren de “Duas Mulheres” e Marion Cotillard de “Piaf”.
“Valor Sentimental”, porém, tem uma carinha de Hollywood, afinal, tanto a Reinsve quanto Stellan Skarsgard e Elle Fanning são figuras para lá de conhecidas do cinema americano. Ainda que a barreira da legenda esteja sempre ali, acredito que a resistência será menor.
Neste momento, a Jessie Buckley está na frente, mas, a Renate Reinsve pode vencer também sem maiores dificuldades.






























