Existe algo particularmente interessante nas histórias de confinamento: quanto menor o espaço disponível para os personagens, maior precisa ser a imaginação do roteiro. Uma casa, um quarto, uma floresta ou qualquer outro ambiente limitado pode se transformar em um universo inteiro quando o cinema encontra novas maneiras de explorar aquilo que existe dentro dele. É justamente a partir dessa ideia que A Última Casa, novo filme da Netflix dirigido por Louis Leterrier, encontra seus melhores momentos, mas também revela suas principais fragilidades, já que quanto mais a narrativa avança, mais parece abandonar as possibilidades que ela mesma havia criado.
O roteiro de Matthew Robinson, que recentemente trabalhou com Gore Verbinski em Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra, novamente flerta com diferentes gêneros e subgêneros, misturando ficção científica, horror, suspense e drama familiar a partir de uma situação bastante simples: uma família se vê presa dentro da própria casa, sem conseguir sair, enquanto uma ameaça permanece do lado de fora. Essa premissa funciona justamente porque Robinson não entrega todas as respostas de imediato e utiliza o confinamento como uma forma de criar diferentes gatilhos narrativos. Por que aquela família não pode sair? O que existe do lado de fora? O que está acontecendo naquele mundo? E, principalmente, até onde aquela situação pode chegar?
Durante os primeiros 40 minutos, A Última Casa sabe aproveitar muito bem essas perguntas. A chuva deixa de ser apenas um elemento climático e passa a funcionar como uma espécie de redoma ao redor da residência, tornando o exterior inacessível e transformando a própria casa em um espaço de sobrevivência. Existe ainda uma tentativa bastante evidente de construir uma alegoria à experiência do isolamento provocado pela pandemia de Covid-19, colocando uma família confinada dentro de casa enquanto o mundo exterior passa a representar uma ameaça. A metáfora nem sempre funciona e, em alguns momentos, chega a ser excessivamente óbvia, mas durante essa primeira metade ela encontra uma função dentro do suspense porque não precisa ser constantemente explicada: basta observar aquela família tentando entender as regras daquele novo mundo.
Essa construção me fez pensar bastante no cinema de M. Night Shyamalan, não necessariamente porque Louis Leterrier esteja reproduzindo sua linguagem, mas pela maneira como o núcleo familiar é utilizado para observar uma situação extraordinária. Em Sinais, por exemplo, uma família se transforma no centro de uma ameaça que ninguém consegue compreender completamente, enquanto em A Dama na Água existe uma relação semelhante entre o cotidiano e a possibilidade de algo fantástico escondido dentro dele. Em A Última Casa, esse mecanismo também passa pelo olhar das crianças, interpretadas por Riley Chung e Noah Alexander Sosnowski, que realizam um bom trabalho principalmente nessa primeira metade. Existe uma percepção diferente por parte delas, menos condicionada pelas certezas dos adultos e mais aberta à imaginação, o que permite que o espectador também permaneça diante daquela realidade sem saber exatamente quais são as suas regras.
Essa comparação pode ser ampliada para Os Observadores, de Ishana Night Shyamalan, lançado em 2024 e protagonizado por Dakota Fanning. O filme também parte de uma situação de enclausuramento, colocando um grupo de pessoas preso em uma floresta enquanto criaturas os observam do lado de fora. A Última Casa troca a floresta pela residência e modifica a natureza da ameaça, mas trabalha com uma lógica semelhante: os personagens estão presos em um espaço delimitado e precisam sobreviver enquanto tentam compreender aquilo que existe além de suas fronteiras. Em ambos os casos, existe um potencial interessante nessa escolha de reduzir o espaço físico da narrativa, justamente porque isso obriga o roteiro a encontrar novas possibilidades dentro de uma área limitada.
O problema é que, assim como acontece em Os Observadores, parece existir uma espécie de prisão para a própria narrativa. A Última Casa começa abrindo diferentes caminhos, mas progressivamente passa a seguir uma estrutura muito mais telegrafada, na qual os acontecimentos parecem existir principalmente para conduzir os personagens do ponto A ao ponto B. Faltam desvios, intermeios e situações capazes de ampliar organicamente aquilo que foi apresentado inicialmente. Os gatilhos narrativos que funcionavam tão bem no começo, porque despertavam curiosidade e abriam margem para diferentes possibilidades dentro daquele universo, passam a funcionar apenas como mecanismos para levar a história até a próxima revelação.
Isso é especialmente frustrante porque o suspense continua sendo bastante funcional. Durante mais da metade do filme, Leterrier consegue trabalhar bem o espaço limitado e construir uma atmosfera claustrofóbica, utilizando a própria casa como parte importante da tensão. O espectador permanece interessado não apenas pelo que pode acontecer com aquela família, mas também pelo desejo de compreender as regras daquele universo. O problema é que, conforme essas respostas começam a aparecer, a narrativa vai abandonando justamente aquilo que havia de mais interessante em sua proposta e se aproxima cada vez mais de um filme de sobrevivência convencional.
Essa mudança também interfere na maneira como a família é utilizada. Greta Lee e Wagner Moura são ótimos atores, e não vejo o problema nas performances de nenhum dos dois, mas na própria escolha da direção e do roteiro em concentrar cada vez mais a narrativa na figura masculina. A personagem de Lee começa com uma presença importante dentro daquele núcleo, mas progressivamente é escanteada enquanto o personagem de Wagner Moura ganha espaço e passa a conduzir o filme. É uma decisão que enfraquece justamente uma das possibilidades mais interessantes da premissa, já que uma história sobre uma família confinada poderia explorar diferentes maneiras de lidar com a mesma situação.
O olhar de uma mãe poderia entrar em conflito com o do pai, enquanto a percepção das crianças poderia oferecer uma terceira possibilidade para compreender aquilo que está acontecendo. O filme apresenta essas diferenças, mas não consegue desenvolvê-las com a mesma força ao longo de toda a narrativa. E isso também acaba prejudicando a própria alegoria da pandemia, porque o confinamento poderia funcionar não apenas como uma barreira física, mas como uma maneira de observar as transformações emocionais daquela família, as tensões provocadas pela convivência forçada e as diferentes maneiras encontradas por cada personagem para lidar com o medo.
Em vez disso, A Última Casa passa a priorizar cada vez mais a mecânica do suspense, e é nesse momento que seus excessos começam a pesar. Algumas resoluções são frágeis e determinadas problemáticas são solucionadas de maneira pouco convincente, enquanto algumas reviravoltas parecem existir mais para movimentar a narrativa do que para aprofundar aquilo que havia sido construído anteriormente. A sensação é de que o filme sabe exatamente aonde quer chegar, mas não encontra caminhos suficientemente interessantes para fazer essa trajetória até lá.
E talvez esse seja o principal problema de uma narrativa construída em um único cenário: o espaço pode ser limitado, mas as possibilidades não deveriam ser. É preciso criar novos conflitos, novas perspectivas e novas informações para que aquele mesmo ambiente continue se transformando aos olhos do espectador. Em A Última Casa, isso acontece muito bem no início, quando a casa parece esconder inúmeras possibilidades e cada nova informação amplia nossa curiosidade sobre aquela realidade. Conforme a narrativa avança, porém, essas possibilidades vão sendo fechadas e o filme se torna cada vez mais dependente de sua própria estrutura para chegar às respostas.
Por isso, minha frustração com A Última Casa não vem de encontrar um filme completamente equivocado. Pelo contrário, existe uma premissa bastante interessante, uma primeira metade envolvente, uma atmosfera claustrofóbica funcional e um elenco capaz de sustentar emocionalmente aquela situação. Louis Leterrier demonstra domínio na construção do espaço e Matthew Robinson cria uma mistura de gêneros que, inicialmente, parece capaz de levar o filme para caminhos muito mais curiosos. O problema está justamente em perceber esse potencial e acompanhar a narrativa gradualmente abandonando boa parte dele.
A Última Casa começa como um filme interessado em isolamento, família, percepção e medo, utilizando o confinamento para criar perguntas e diferentes possibilidades dentro daquele universo. Porém, conforme avança, transforma essa mesma estrutura em uma história de sobrevivência cada vez mais convencional, diminuindo a força das relações familiares e reduzindo o espaço para aquilo que tornava sua primeira metade tão instigante. A casa continua sendo o centro de tudo, mas deixa de parecer um espaço cheio de possibilidades e passa a funcionar apenas como o caminho necessário para que a narrativa alcance seu destino.
O problema de A Última Casa não é estar preso dentro de uma casa, mas não conseguir imaginar o que fazer com tudo aquilo que existe dentro dela. O filme tinha espaço para explorar diferentes caminhos, perspectivas e possibilidades narrativas, mas acaba seguindo justamente o mais previsível. A casa, que inicialmente funcionava como uma prisão para os personagens, termina funcionando também como uma prisão para o próprio filme.
















