“Hope” de Na Hong-jin, é um filme surpreendente. Para mim, essa é a melhor forma de descrever uma produção sobre monstros sendo exibida no Festival de Cannes 2026. Ao longo de mais de 2h30 de duração, o público imerge numa produção que mescla suspense com tom de faroeste norte-americano e perseguição tendo como pano de fundo também discutir a condição ambiental do planeta Terra.

O título “Hope” é uma referência à cidade onde a narrativa se passa; nela, acompanhamos o caos instaurado após o chefe de polícia local, Bum-seok (Hwang Jung-min), atender uma ocorrência na parte rural do município e convocar caçadores para apanhar o que ele acredita ser um tigre que ataca vacas e outros animais do campo.  A forma como Na Hong-jin conta essa história nos leva a sermos investigadores ao lado do policial. Por isso, quando ele sai da região rural e encontra a parte urbana de Hope mais devastada do que o campo, um senso de alerta desperta assim como questionamentos sobre que tipo de criatura está destruindo a comunidade.

Essa criação de atmosfera física junto com a trilha sonora é um dos pontos altos do filme, uma vez que a trama se torna uma perseguição de western, com os caipiras tomando suas armas e partindo para perseguir e matar o que estiver causando essa situação. Nesse processo, pistas vão sendo deixadas pelo caminho para que possamos juntar as peças de quebra-cabeça do que está acontecendo em Hope. Toda essa ambientação cria um clima frenético, cujo estado de vigilância não some. 

O crème de la crème dessa construção é devido a uma escolha narrativa simples, mas com potencial: o monstro só aparece depois de 45 minutos de projeção, quando nossas teorias, percepções e a ambientação já estão organizadas e estabelecidas na mente do público. O mistério alimenta a curiosidade e as reflexões sobre que tipo de criatura é capaz de destruir tudo por onde passa e ao mesmo tempo não deixar vestígios do que poderia ser a sua existência materializada. 

Por um lado, essas escolhas me fizeram recordar de “O Hospedeiro”, de Bong Joon-ho, mas sem a melancolia que a situação de Gang-Doo, o protagonista, me desperta. No entanto, diante da cidade devastada e de como os poucos sobreviventes, que conhecemos, se comportam, fiquei refletindo sobre o que fica depois da tragédia. Na Hong-Ji tem o cuidado de materializar para o público o estado da cidade após o massacre, filmando os cenários das perseguições e a cidade, com praticamente nenhum recurso de CGI, é nítido a quantidade de paredes quebradas e objetos destruídos que são deixados pelo caminho. 

Nessa escala realista, gosto muito das cenas no hospital improvisado, não só porque nos permitem ver a situação dos moradores da cidade, mas também por ser o momento em que finalmente podemos acompanhar uma figura feminina em meio aos caçadores e policiais. Na Hong-ji dá a ela a voz da razão em meio a todas as figuras que projetam um ideal de masculinidade nessa situação, ao mesmo tempo em que evidencia o comportamento silenciador de Bum-seok para com ela. Tem a razão, mas não tem a voz e a vez. 

Apesar de possuir uma primeira parte muito frenética, “Hope” sofre de dois problemas exaustivos. O primeiro deles é o CGI meio metamórfico de algumas das criaturas. O design das feras é de difícil descrição, um tanto fantasmagórico e antropomórfico, além de gerar muito incômodo na cena de dissecação. Confesso a vocês que não reconheci Michael Fassbender, por exemplo, mesmo o seu rosto estando “público” para quem quisesse reconhecê-lo. A segunda questão diz respeito a sua extensão, preocupa-se em apresentar muitas coisas, mas finaliza de forma anti-climática, deixando a sensação de que a história não foi encerrada e de que estamos presos a um estágio de suspensão ainda tentando compreender o que foram as últimas horas de projeção. 

“Hope” é uma grata surpresa! Na Hong-Ji faz um filme de gênero que ingere diversas referências para nos imergir nessa história sobre perseguição, destruição e a busca de um novo lar. Quero muito saber o que vem na segunda parte.