Se o cinema de horror nacional tem se destacado nos últimos anos na exploração do gênero fantástico, o mesmo pode ser afirmado dos nossos hermanos argentinos. Nos últimos 20 anos não faltaram bons filmes sobrenaturais insólitos brotando diretamente da terra de Messi e Maradona: Fase 7, Aterrorizados, A História do Oculto e os recentes Pranto do Mal e O Mal Que Nos Habita são alguns belos exemplos para se conhecer e saber o que a nata horrífica argentina tem proporcionado.
A Virgem da Pedreira, horror juvenil, dirigido pela cineasta Laura Casabé, é mais um que vem somar à boa fase. Disponível na HBO Max, o filme reúne dois contos do livro Os Perigos de Fumar na Cama da escritora Mariana Enriquez. Apesar de não ter lido o livro, já conhecia a literatura da autora graças a ótima coletânea de contos As Coisas Que Perdemos no Fogo. E neste aspecto, Casabé respeita muito bem o material base ao explorar as questões sociais e políticas enquanto navega em temas macabros a partir do protagonismo feminino.
Aqui, a narrativa se passa na Argentina em meados de 2001, durante um forte verão, quando acompanhamos a jovem Natalia (Dolores Oliverio, que está ótima, por sinal), uma adolescente que depois de ser abandonada pela mãe, vive em um bairro residencial de baixa renda com a avó, Rita (Luisa Merelas).
Neste cotidiano formado pelos desajustes sociais econômicos, ela nutre um sentimento platônico pelo vizinho Diego (Agustín Sosa) e que se transforma, cada vez mais, em obsessão em relação ao rapaz à medida que vai sendo rejeitada por ele. Enciumada com Silvia (Fernanda Echevarría), nova paixão do rapaz, Natalia vai recorrer a rituais pagãos para não perder o seu amor.
A Virgem da Pedreira é um horror visceral sobre o mal que habita as contradições da adolescência, quando o ciúme, a frustração, o ressentimento e a posse transformam o amor em ódio. Casabé revela que não existe nada mais perigoso do que uma pessoa de baixa autoestima e que tem o seu amor roubado.
O fato de brincar com elementos fantasiosos faz com que o filme transforme Natalia numa versão latina de Carrie – A Estranha. O roteiro adaptado de Benjamin Naishat, permite o sobrenatural surgir dentro do enredo de maneira sutil e absorver os mitos e superstições da América Latina para explorar o horror urbano, no qual a violência, o calor e a dureza daquele cotidiano opressor são os “presságios” da maldade da possível tragédia que se abaterá sobre os envolvidos.
É curioso também observar a predileção de Laura Casabé por uma cinematografia sufocante. Seu trabalho anterior, Os Que Voltam, que passou no Festival do Fantaspoa em 2021 já transmitia isso e aqui ela prioriza essa questão na construção da sua jornada de amadurecimento a partir dos anseios juvenis para analisar o contexto das transformações sociais – há, nas entrelinhas da história, a crise financeira argentina – perante o prisma da objetificação humana, da sexualidade e do embotamento afetivo das relações, situações presentes neste período da puberdade.
O ressentimento que Natalia nutre pelo descaso de Diego em relação ao seu sentimento e a percepção dela como inferior a Silvia, levam a um comic age sombrio sobre independência e liberdade feminina adquirida mediante ao extraordinário. A própria rivalidade feminina ganha complexidade por parte do texto em mostrar uma disputa territorial silenciosa, movida pelos desejos.
O longa de certa forma, deixa claro o fantástico como metáfora para ruptura emocional da protagonista quando assume o seu empoderamento por meio do místico, algo que dialoga com o americano A Bruxa de Robert Eggers e o nacional Mate-Me Por Favor de Anita Rocha da Silveira.
E visualmente a fotografia de Diego Tenório com sua tonalidade amarelada e saturada dialoga com a sensação de calor e tensão que o filme emana, além de ser efetiva em capturar a crueza melancólica daquele cenário. A trilha sonora de Pedro Onetto ajuda a reforçar a atmosfera genuinamente arrepiante juntamente com a atuação consistente de Dolores Oliverio que traduz o peso dos sentimentos que Natalia não consegue mensurar.
Por mais que peque em não entregar por completo o horror do desconhecido a qual se propõe, deixando a nítida sensação de que não consegue atingir algo poderoso no seu ápice, A Virgem de Pedreira entrega um horror juvenil desconcertante em que os silêncios, olhares e gestos comuns trazem um olhar pesado sobre a maldade consumindo o mundo juvenil.
Mostra também que você não precisa ir muito longe em território americano ou europeu para vivenciar uma experiência de horror inquietante, já que, na própria América Latina, é possível encontrar ótimos exemplares do gênero.














