Após um início promissor, a terceira temporada de Euphoria mostra em seu segundo episódio uma preocupação em beneficiar apenas a narrativa da protagonista Rue (Zendaya), a qual ganha um crescimento detalhado e instigante. Quanto ao restante dos personagens, estes ainda estão buscando um lugar de relevância nesse drama sobre a vida do jovem adulto.

O destaque positivo de Rue advém em sua capacidade de transitar entre as lembranças do passado e escolhas do presente. Promovida, agora ela frequenta um ambiente adulto como uma espécie de cafetina num clube de striptease, onde ela logo se depara com trajetórias tão complexas e sofridas quanto a sua.

A silhueta da atriz é muito bem utilizada nessas cenas como uma figura franzina perdida em meio a corpos tão voluptuosos. Isso é reforçado pelo apelido kid – uma criança tentando se encaixar num ambiente impróprio o qual aparenta ser o mais próximo de liberdade em anos.

Isso também é reforçado pelo figurino: enquanto todos os antigos personagens possuem novas estéticas, Rue aparece usando os mesmos tênis e roupas da primeira temporada. E, ainda, procurando as mesmas pessoas, por mais que isso a leve de volta para Jules (Hunter Schafer) como a idealização do passado conturbado.

A aparição do ex-casal traz vida à série ao apelar para a nostalgia. Os devaneios de Rue frente à opinião assertiva de Jules reforçam o conhecimento mútuo entre ambas, numa relação que nunca trará o mesmo sentimento de antes – algo traduzido na estética da cena soturna.

Mesmo provando um pouco de liberdade, Rue volta à analogia religiosa onde entende estar vendendo sua alma. Seu tempo de tela ainda é aproveitado para refletir sobre a vida como dependente química em meio a recaídas e a tentativa de administrar uma rotina nestas condições. Rue encara a dependência química do outro lado – como a pessoa que intervém sem julgar, mas, ao compreender tal necessidade para Angel (Priscilla Delgado).

Se, por um lado, temos uma ótima protagonista em evolução, o outro núcleo da série entre Cassie (Sydney Sweeney) e Maddy (Alexa Demie) é instável e repetitivo. O início do episódio reforça a ideia trazida por Cassie sobre plataformas adultas e o mais inacreditável é que uma personagem novata e com bem menos cenas consegue se adequar melhor a essa trama frente a alguém já estabelecido.

Com Katelyn (Bella Pondaras) no início do episódio nós entendemos sua motivação financeira para tanto, diferente de Cassie que é vista a partir de um mero capricho. Se isso resultar posteriormente numa ótica de fetiche ou mesmo validação pessoal pode ser justificável, mas aqui temos várias versões da personagem hipersexualizada apenas para reforçar a mesma ideia já estabelecida anteriormente, sem adicionar mais camadas.

O episódio vai além na nudez apelativa e injustificada com a cena envolvendo Faye (Chloe Cherry) e, como se apenas o sexo não fosse chocante o suficiente, Sam Levinson sente a necessidade de impor símbolos nazistas numa cena com pouca relevância narrativa. Verdadeiramente acredito que essas escolhas possam ser uma forma de ragebait porque não existe uma justificativa ou objetivo a ser reforçado.

Não coloco nesse mesmo mérito as cenas da Angel pois essas ocorrem dentro de um contexto e chegam à um lugar de exaustão psicológica da personagem. Priscilla Delgado, inclusive, é um dos grandes nomes desse episódio, em poucas cenas conseguimos nos relacionar com a personagem, entender seu histórico e até mesmo o trágico fim que a espera.

Angel expressa uma densidade narrativa que não consegue permear personagens queridas como Maddy, por exemplo. Esta, por sua vez, traz a nostalgia em sua concepção de maquiagem e visual famosos de Euphoria. Sua construção é relacionável com as temporadas anteriores, ela definitivamente possui objetivos expressivos e uma história condizente, mesmo que ainda não tenha chegado a um lugar de relevância pessoal nesta temporada.

Já Nate (Jacob Elordi), é restrito a um personagem razoável: ele não possui uma grande expressão narrativa até o momento, ou mesmo falas que não sejam voltadas a criticar as leis ambientais da construção civil. Salvo os momentos entre ele e Cal (Eric Dane), seu pai, onde começamos a ver resquícios do antigo Nate manipulador e até perigoso.

Um episódio tão silencioso, contando apenas com a trilha assertiva de Hans Zimmer, deveria ter muito mais a dizer em suas cenas utilizando ou não elementos chocantes. Mas, dessa vez, estes se mostraram apenas uma sobreposição de impacto visual, e não narrativo. Sorte ainda termos Rue como grande fio condutor dessa história, a qual parece chegar a algum lugar – mesmo que este não seja agradável de se conhecer.