Uma pacata cidadezinha litorânea inglesa nos anos 1920 teve o cotidiano completamente alterado quando, do nada, as moradoras do local começaram a receber cartas de ódio. A suspeita recaiu sobre a rebelde e imigrante irlandesa Rose Gooding, vizinha da conservadora Edith Swan. O caso virou um escândalo nacional – o Littlehampton Letters – e acabou sendo investigado pelas próprias mulheres da região, lideradas pela policial Gladys Moss.

Dirigido por Thea Sherrock (“Como Eu Era Antes de Você”), “Pequenas Cartas Obscenas” resgata esta história após 100 anos para abordar pautas feministas e sufragistas. No elenco, o reencontro entre Jessie Buckley e Olivia Colman após o premiado “A Filha Perdida”. Combinação ideal para um filme engajado e capaz de prender o público até o fim, certo? Bem, infelizmente, a teoria nem sempre se comprova…

O primeiro pecado está nas próprias sabotagens do roteiro de Jonny Sweet: certamente grande parte do público não é familiarizado com o Littlehampton Letters, logo, o filme poderia se aproveitar desse mistério e desenvolver sua narrativa a partir disso. A parte inicial até envereda por este caminho quando a policial Gladys Moss (Anjana Vassan) começa a investigar o inquérito, não acreditando na culpa de Rose (Buckley). Não demora muito, porém, para o mistério da autoria já ser revelado – aliás, a maneira fácil como um personagem descobre o responsável pelas cartas chega a ser risível.

Fosse este o único problema, “Pequenas Cartas Obscenas” estaria bem. A militância forçada se revela o maior dos inconvenientes: o filme aborda de forma muito explícita o machismo, a iniquidade de gênero e o sexismo que as mulheres sofriam na época e exagera em diálogos frágeis e mal construídos. Algumas falas, embora ambientadas naquele período, parecem forçadas e tampouco naturais. 

O pai de Edith, interpretado pelo veterano Timothy Spall, por exemplo, é uma caricatura do homem machista, opositor dos costumes progressistas e igualitários de gênero da época. Em um momento do filme, quando a policial Moss está fazendo um questionário sobre o caso, o patriarca da família adentra no recinto e ao ser apresentado, ele simplesmente retruca: “policial mulher? Os tempos não são mais como antigamente”. 

“Pequenas Cartas Obscenas” somente não desanda totalmente devido ao talento da dupla de protagonistas. Apesar das diferenças claras de pensamento e mentalidade entre elas, é possível captar uma profunda admiração a partir da amizade. Em pequenos olhares, Colman dimensiona como Edith se diverte com o senso de humor de Rose e, mesmo questionando seus comportamentos, percebe-se um fascínio na forma como a amiga encara a vida. Sherrock sabe o tamanho da atriz que está à sua frente e aproveita com zoom-ins todo o talento da ganhadora do Oscar por “A Favorita”.

Por isso, é uma pena notar que o longa tinha a oportunidade de retratar esse momento histórico importante de maneira contundente e coerente, mas extrapola na forma de se comunicar e representar as pautas feministas. O filme tenta, a todo tempo, chocar o público com a inferioridade vivida pelas mulheres neste período britânico, mas esquece de seguir um ritmo que tenha equilíbrio e verossimilhança.