Seis filmes disputam a vaga do Brasil para o Oscar 2027 em Melhor Filme Internacional.
Caio Pimenta analisa as chances de cada um deles nesta corrida.
OS CANDIDATOS
Depois de uma pré-seleção com 15 filmes, a Academia Brasileira de Cinema anunciou uma shortlist com 6 produções que seguem na corrida pela disputa pela vaga do país no Oscar 2027 de Melhor Filme Internacional.
- 🇧🇷 Nosso Segredo, de Grace Passô
- 🇧🇷 Vicentina Pede Desculpas, de Gabriel Martins
- 🇧🇷 Feito Pipa, de Allan Deberton
- 🇧🇷 A Natureza das Coisas Invisíveis, de Rafaela Camelo
- 🇧🇷 A Fabulosa Máquina do Tempo, de Eliza Capai
- 🇧🇷 100 Dias, de Carlos Saldanha
SEM CHANCES
“A Natureza das Coisas Invisíveis” é a grande novidade da lista. O drama teve um ótimo circuito de festivais no Brasil com conquistas em Gramado, Mix Brasil e Prêmio Grande Otelo.
Apesar de muito elogiado pela crítica e ser um excelente filme, “A Natureza das Coisas Invisíveis” seria um tiro no escuro muito grande do Brasil rumo ao Oscar. Isso por conta da presença nos festivais internacionais do drama ter acontecido mais em 2025 do que neste ano. A produção disponível na Netflix está em um processo de finalização de circulação. Sem uma distribuição garantida no mercado dos EUA, a tendência é que ele fique totalmente invisibilizado junto às dezenas de outros filmes da temporada.
Dirigido por Eliza Capai, “A Fabulosa Máquina do Tempo” estreou na Berlinale neste ano cercado de elogios. Ainda que a presença de documentários para representar o Brasil no Oscar tem sido uma constante a partir das indicações de “Babenco”, da Bárbara Paz, e “Retratos Fantasmas”, de Kleber Mendonça Filho, soa bastante improvável que o raio caia novamente no mesmo lugar.
Por mais que a Globo Filmes e Canal Brasil possuam bastante influência dentro da Academia Brasileira de Cinema, considero que escolher “A Fabulosa Máquina do Tempo” iria na contramão daquilo que a própria Academia vem buscar em Melhor Filme Internacional. A última vez em que um documentário figurou na categoria foi em 2021 com “Collectiv”, da Romênia.
Detalhe: o longa da Eliza Capai, a princípio, não está cotado para Melhor Documentário, logo, irá conseguir vaga aqui? Muito complicado…
CORRE POR FORA
“Nosso Segredo” e “100 Dias” correm por fora na disputa brasileira. O drama em cartaz nos cinemas do país chega como o candidato com a premiação mais pesada recente: o Kikito de Melhor Filme no Festival de Gramado deste ano, derrotando, inclusive, “Feito Pipa“.
Escolhê-lo teria o simbolismo de ser a primeira vez que uma produção dirigida por uma mulher negra representaria o Brasil no Oscar. Isso acontecendo com Grace Passô, um dos maiores nomes do cenário cultural do brasileiro das últimas décadas, criaria um cenário perfeito para “Nosso Segredo”.
Pelo perfil da Academia, porém, “Nosso Segredo” pode não ser o filme ideal. O cinema metafórico, repleto de simbolismos, longe de respostas fáceis da Grace Passô está distante daquilo que estamos acostumados a ver em Melhor Filme Internacional, uma categoria que, diga-se, costuma ser uma das mais ousadas do Oscar.
Além disso, a passagem por Berlim, ainda que elogiada, terminou sem prêmios. Logo, “Nosso Segredo” teria que remar praticamente do zero para conseguir se sobressair diante de uma temporada que tende a ser das mais disputadas.
“100 Dias”, drama sobre a incrível travessia do Brasil à África feita por Amyr Klink em um barco a remo, também corre por fora. De todos os semifinalistas, a produção é aquela com maior cara de Hollywood, cinemão em sua dimensão superlativa de investimento e escala.
A direção é do Carlos Saldanha, diretor conhecido do mercado norte-americano por filmes como “Rio” e “A Era do Gelo”. Conhecer melhor a indústria e ter portas abertas com importantes nomes de Hollywood podem ser um ativo para uma campanha pesada para o Oscar.
Por outro lado, ser um rosto familiar para estrelas de Hollywood não significa necessariamente chances de indicação ao Oscar. Basta lembrar “Bardo”: mesmo com duas vitórias em Melhor Direção e todo apoio da Netflix, Alejandro González Iñarritu passou longe de obter a vaga em Melhor Filme Internacional.
Fora que filmes como “100 Dias” com histórias épicas e trazendo uma pitada de Hollywood eram mais bem-vistas no Oscar de Melhor Filme Internacional há 20, 30 anos. Atualmente, a Academia buscas obras com uma pegada mais autoral e que difira daquilo que o cinema dos EUA apresenta todos os dias.
Por fim, não ter passado por festivais internacionais em nada ajuda “100 Dias” nesta corrida pela vaga brasileira.
OS FAVORITOS
“Feito Pipa” e “Vicentina Pede Desculpas” são os dois filmes favoritos para a vaga brasileira no Oscar 2027.
O novo filme do Allan Deberton traz o maior prêmio obtido pelo cinema brasileiro neste ano: o Urso de Cristal do Festival de Berlim. Também acumulou conquistas em Guadalajara, no México, Cartagena, na Colômbia, e no Festival de Gramado, onde ganhou quatro Kikitos.
“Feito Pipa” traz uma história capaz de aliar um tema atual – a descoberta sexual de um menino – com uma história familiar emocionante e inclusiva. Não à toa vem emocionando crítica e público ao redor do planeta.
Já “Vicentina Pede Desculpas” terá a maior janela de visibilidade mirando a temporada de premiações ao estrear na seção Plataforma do Festival de Toronto. Se ganhar melhor filme, já está automaticamente no Oscar sem precisar da seletiva brasileira. Mesmo que saia sem ganhar, somente o espaço que pode colocar bastante atenção ao projeto nos EUA é uma importante conquista.
Neste duelo, vale ficar atento ao embate entre Paris Filmes e Netflix: “Feito Pipa” conta com apoio da Paris, fator que pode pesar pela influência dela na Academia Brasileira. Ano passado, “Manas”, também da empresa, ameaçou o favoritismo de “O Agente Secreto” e quase ficou com a vaga.
Já “Vicentina” terá distribuição internacional da Netflix, algo similar ao suspense do Kleber Mendonça Filho que contava com a Neon. Por outro lado, o streaming já possui o espanhol e favorito “A Bola Negra” e o sul-coreano “Amor Possível”, duas produções praticamente certas no Oscar. Com isso, a Academia pode compreender que o projeto da Filmes de Plástico não terá espaço e, por isso, seja melhor ficar com “Feito Pipa”.
Também entraria neste cálculo o fato de que Allan Deberton nunca teve uma produção que representou o Brasil no Oscar, enquanto Gabriel Martins já foi escolhido com “Marte Um”.
Por outro lado, “Vicentina” sair como o escolhido do país na seletiva interna reforça o filme como o nosso grande longa da temporada, independente do que ocorra em Toronto, fora que demonstraria uma visão estratégica de que se trata da produção brasileira mais preparada para uma corrida como o Oscar por já ter distribuidora gigante como a Netflix.
No fim das contas, acredito que “Vicentina Pede Desculpas” será o escolhido, mas não me surpreenderia caso a vaga fique com “Feito Pipa”.


















