A tese de “Um Olhar Inquieto: O Cinema de Jorge Bodanzky” é de que, como o título sugere, seu protagonista precisa do movimento. Algo que seu reflete não apenas na temática dos seus filmes, com todas as suas andanças pela Amazônia, mas em sua própria forma cinematográfica.
Nesse sentido, “Iracema: Uma Transa Amazônica”, seu primeiro e mais famoso filme, serviria de mote para o restante da sua obra. Já estão ali uma câmera inquieta, espontânea, com zooms inusitados nos atores, em uma atmosfera de quase improviso. Cinquenta anos depois, a abordagem ainda conserva seu frescor porque, para além de um recorte seco de uma realidade dura, a sua forma cinematográfica também denota um senso de aventura que marcou definitivamente o cinema brasileiro.
Nesse sentido, embora este seu documentário autobiográfico, co-dirigido com Liliane Maia, soe um tanto quanto convencional, a força da obra do diretor empresta parte de seu poder ao filme. O mais impressionante do longa, sem dúvidas, é o encontro final com a comunidade dos Cintas-Largas, povo indígena que Bodanzky capturou com sua câmera, inadvertidamente, ainda na década de 1970. O reencontro com essas imagens é espantoso, dolorido e fascinante, tudo ao mesmo tempo.
O Cine Set teve a oportunidade de fazer algumas perguntas ao cineasta sobre sua carreira e seu mais recente filme.
Cine Set – Você frequentemente trabalha com co-diretores, e não foi diferente com a sua autobiografia. De onde vem esse desejo de parceria?
Jorge Bodanzky – De fato, em grande parte dos meus trabalhos eu faço parcerias porque trabalho com uma equipe muito pequena. Eu opero a câmera e, pra mim, facilita muito se tem uma pessoa do meu lado que me ajude em relação às outras coisas. Porque eu dirijo e edito através da câmera. Isso me limita um pouco, então dividir com alguém, nesse caso, sempre é uma coisa que acrescenta, ajuda e eu gosto.
Cine Set – Como foi a abordagem aos Cintas-Largas que conhecemos no final do filme? Eles se mostraram reticentes em travar contato com a equipe?
Jorge Bodanzky – O encontro foi preparado. Eles já sabiam que iam nos receber, já sabiam também do material que iríamos mostrar. Então não foi uma surpresa, foi uma coisa organizada e eles tinham total noção que a gente ia fazer esse registro — eles mesmos pediram esse registro. E também a ideia de mostrar para os pequenos, na escola, foi uma ideia compartilhada com eles.
Cine Set – No filme, você diz que está sempre filmando. Mas houve alguma ocasião que você não filmou e gostaria de ter registrado?
Jorge Bodanzky – É, dizer que estou sempre filmando é uma forma de expressão [risos]. Claro que vi e vivi muitas coisas que gostaria de ter filmado. Mas eu posso dizer que aquilo que desejei filmar, eu acabei conseguindo fazer, que é o mais importante.
Cine Set – As tecnologias digitais mudaram a prática do cinema. Como você analisa essa mudança?
Jorge Bodanzky – As novas tecnologias, ao contrário, me ajudaram muito. E eu não sou saudosista… Nenhuma nostalgia pelo tempo que a gente filmava com negativo. Eram equipamentos mais pesados, mais complicados, mais limitados… então, para o cinema que eu faço, acho que ajudou muito. Os equipamentos ficaram mais simples, mais leves. E não é o equipamento que faz o filme, é sua cabeça. O equipamento pode ajudar, principalmente na questão dos custos. Antigamente você tinha os custos do filme, do laboratório, da cópia… E hoje você reduz tudo isso a um arquivo que pode estar dentro de qualquer computador. Isso é um fator que influencia muito.
Como eu disse no filme, para mim, para o tipo de cinema que faço, o celular é ótimo, por várias razões. A primeira, porque está sempre no bolso. A segunda, as pessoas não estranham o fato de serem filmadas no celular. Isso facilita muito a intimidade. Principalmente em relação às populações indígenas, ribeirinhas, que também utilizam celulares. É uma relação mais justa, de igual para igual.
Cine Set – O novo veio para ficar?
Jorge Bodanzky – É claro que o novo veio para ficar. Eu sempre procurei o novo. Quando se filmava em 35mm, fui para o 16mm, depois para o Video8, Hi8, MiniDV… Sempre usei equipamentos o mais leves e simples possíveis, e hoje não é exceção.













