Há algum tempo, Quentin Tarantino olhou para a sua filmografia e disse que considera Bastardos Inglórios (2009) seu melhor filme, Era Uma Vez… em Hollywood (2019) como o seu particular favorito, e Kill Bill (2003/2004) como o filme que ele nasceu para fazer. E é fácil entender o porquê: talvez só a mente cinéfila de Tarantino pudesse ter criado esse monstro de Frankenstein glorioso, um filme feito com pedaços de outros filmes que ainda consegue ser autoral e único.
Sobre Kill Bill, virou lenda a chamada versão integral do filme que reúne os dois volumes da saga sangrenta da Noiva: Tarantino escreveu um roteiro gigante, e ao invés de mandá-lo cortar cenas e mutilar a história, o então chefe do estúdio Miramax, o nefasto Harvey Weinstein, deu ao cineasta a opção de dividir o lançamento em duas partes, ou volumes. O Volume 1 foi lançado em 2003, e marcou a volta de Tarantino ao cinema seis anos depois que seu Jackie Brown (1997) foi recebido com certa indiferença – hoje é um filme admirado. Já o Volume 2 chegou às telas alguns meses depois, em 2004.
Foi uma decisão acertada, com precedentes naquela época: Voltando lá atrás, Superman: O Filme (1978) e Superman II (1980) foram filmados juntos, assim como as continuações de De Volta para o Futuro (1985) e a trilogia O Senhor dos Anéis. Do ponto de vista financeiro, e de olho nas premiações, fazia sentido não prejudicar a visão do cineasta e investir em dois filmes pelo preço de um.
Acontece que o cineasta fez um corte de 4h e um pouco mais, reunindo as duas partes. Essa versão virou lendária porque só foi exibida em Cannes em 2006, e anos depois em sessões bem pontuais nos cinemas do próprio Tarantino em Los Angeles. Ele exibia quando estava a fim, para sortudos que pudessem conferir. Por um tempo, parecia que essa versão integral ficaria guardada em algum lugar, e fãs só a veriam quando – e se – o diretor quisesse.
Agora, Tarantino finalmente quis. Este Kill Bill: The Whole Bloody Affair (O caso sangrento completo, em tradução livre) traz a saga da assassina profissional A Noiva (vivida por Uma Thurman, no melhor momento da carreira), que é atacada e baleada na cabeça no seu casamento pelo Esquadrão das Víboras Mortais, o grupo para o qual ela trabalhava, liderado pelo misterioso Bill (David Carradine). Anos depois, ela acorda do coma e parte em busca de vingança contra seus alvos, um a um, até chegar a Bill.
Do ponto de vista formal, este aqui é basicamente o mesmo filme que vimos em duas partes. Mas há pequenas mudanças – nada muito substancial, afinal Tarantino não é George Lucas. Ao invés do “provérbio klingon” de Star Trek, o filme agora abre com uma dedicatória ao cineasta japonês Kinji Fukasaku. O massacre da Casa das Folhas Azuis agora é visto totalmente em cores – no original, Tarantino mudava para o preto-e-branco em parte dessa sequência para não receber a temida classificação etária NC-17 nos EUA. E há um pouquinho a mais de sanguinolência nesta mesma sequência.
A maior novidade é uma cena inédita na sequência em anime que mostra a origem da personagem O-ren Ishii. Cena sangrenta também, claro. E há um intervalo (Intermission) no meio do filme, na tradição dos longos épicos do passado.
De minha parte, nunca me incomodou a divisão de Kill Bill em dois volumes, porque a história naturalmente se prestava a isso. A primeira parte tem mais ação e um clima de filme oriental, como os da Shaw Bros., homenageados com a vinheta no início; já a segunda é um filme mais conduzido pelos diálogos e cenas dramáticas, com um clima de western e cenas de ação mais pontuais.
Mas ver a história toda, numa sentada, deixa ainda mais clara a ambição de Tarantino e porque ele considera este o filme que só ele poderia fazer. É um caso raro no cinema, de um artista que recebeu carta branca para colocar no liquidificador tudo que o fez amar o cinema em primeiro lugar: filmes de kung fu de Hong Kong, produções de samurai japonesas, Brian De Palma e seus splitscreens, séries de TV, cultura pop, westerns… Em toda cena há uma referência a outro filme, seja no diálogo, nos enquadramentos, nos trejeitos dos personagens… É realmente mágico ver isso transparecer na tela.
E depois de tudo isso, o narrador ainda nos surpreende ao mostrar que, por trás de tudo isso, havia uma história sensível sobre o fim de um relacionamento e como isso afeta as pessoas. Por trás de toda a brincadeira cinematográfica, das mortes e piadas, há algo profundamente humano em Kill Bill, com o qual as pessoas podem se relacionar, e é esse “pulo do gato” que todos os imitadores de Tarantino não conseguem alcançar. Parece ser verdade o que dizem, que ter o “coração dodói” em alguma medida ajuda na criação artística, e a julgar por alguns momentos tocantes perto do fim do filme, Tarantino deve ter tido as suas desilusões amorosas.
No fim das contas, Kill Bill é uma celebração ao cinema, mas a tipos específicos dele. E mesmo que você não tenha interesse em velhos filmes de kung fu, a história ainda funciona por causa dos personagens e do núcleo humano da história. É um filme que deixa o espectador com vontade de ver outros filmes, e assim o cinema continua a se retroalimentar.
Numa opinião pessoal, não acho que Tarantino vá voltar para fazer seu alardeado décimo e último filme da carreira. Ele parece satisfeito em sair de cena com Era Uma Vez… em Hollywood e virar uma espécie de curador de filmes antigos, pois o cenário atual com streamings, estúdios sendo vendidos e o cinema ocupando menos espaço nas vidas das pessoas, não deve atraí-lo. E pode também continuar como oráculo, às vezes com opiniões interessantes, em outras falando algumas bobagens, como no caso Paul Dano. Vejo ele se transformando no velho Samuel Fuller, radical em suas opiniões e ocasionalmente aparecendo nos filmes dos outros. Em todo o caso, suas obras ficam, e seu amor pela sétima arte nunca ficou mais claro do que em Kill Bill.
















De todos os filmes do Tarantino, os únicos que desprezo são os Kill Bill.