Quando John Wick: De Volta ao Jogo foi lançado em 2014, nem se imaginava o que dali se alcançaria. Com doses de ação frenética estilizada junto à soberana presença do ator Keanu Reeves, o que seria um filme sem maiores pretensões se tornou uma franquia cultuada e se popularizou tanto a ponto de reinventar e inspirar um gênero.

Após quatro filmes de ótima repercussão, Bailarina chega como a tentativa da Lionsgate de expandir esse universo estabelecido, a fim de criar e abraçar novos personagens e manter o interesse geral. Sob o destaque da atriz Ana de Armas, o filme busca exercer a força da protagonista desde a introdução, quando ilustra a origem de Eve Macarro ainda criança, tendo que lidar com uma grande perda e envolvimentos que a mudariam completamente.

Tendo em vista o potencial da jornada de Eve, o roteiro tenta sintetizar cada decisão da personagem em uma procura por vingança, a qual é tragada para um cenário de dor, treinamento e violência. Com segurança, Ana de Armas faz bom trabalho ao sustentar muito bem a ideia de uma mulher traumatizada pela vida e pelo tempo, que teve de se sujeitar à inevitável forma de sobrevivência que lhe fora dada. A direção de Len Wiseman (conhecido pelos filmes Anjos da Noite) é eficiente e capta bem as cenas de ação. No entanto, a montagem reduz a qualidade, deixando passagens confusas e arcos subaproveitados – como o do ator Norman Reedus.

Desse modo, o filme não esconde as inúmeras ligações com os detalhes já conhecidos daquele mundo. Isto é, seria evidente pensar como é natural essa conexão — e realmente se faz —, todavia, é preciso apontar que a obra intensifica demais essas relações, pondo em risco a identidade da própria construção. A figura de John Wick, por exemplo — sua aura está presente em toda a produção —, e isso não se resume a apenas uma leve citação, com Bailarina não tendo receio algum de retornar e contemplar a imagem do temido “Baba Yaga”. O que pode encher os olhos do público cativo, porém, afasta a ideia de singularidade, extraindo um possível potencial e autonomia.

Dito isso, existem todos os acenos e rimas visuais característicos da franquia, seja pelas batidas específicas de um neo-noir evocado nas ruas das cidades, seja pelas lutas corporais e intensos duelos em boates e clubes noturnos. A fotografia soturna e, por vezes, gélida auxilia no senso de urgência das cenas de ação, que são bem coreografadas e com toques criativos. Rostos conhecidos dos outros filmes também ressurgem: Ian McShane, Lance Reddick — falecido em 2023 —, Anjelica Huston e, claro, Keanu Reeves. Todos estes preenchem a narrativa com importância devida ou de forma cronológica, com a função de movimentar a história de Eve, mas, de certa forma, surgem, às vezes, mais como distrações.

Assim, Bailarina é, definitivamente, do universo de John Wick e está muito bem inserido neste propósito, só que se limita demasiado a isso e esquece um pouco do seu próprio rumo e independência.